
Sou ou Estou Sendo? | Por Daniel Lima
A Lagarta tem a sua simbologia mais evidente que é a de um ser que nasceu para a metamorfose. Nós também somos seres em constante mudanças, adaptações, reinvenções, seguimos nos fazendo e refazendo aqui e ali
Postado em 16/07/2022 12:53

Daniel Lima – Teólogo, Filósofo e Psicanalista/GBPSF/ISFN. @daniellima.pe
“- Quem é você?
– Eu… eu… nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento… eu… enfim, sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.”
(Alice no País das Maravilhas)
Ciclos de Mudanças e autoconhecimento.
Uma das primeiras figuras que Alice encontra no País das Maravilhas é a Lagarta. Ela leva a garotinha a questionar a própria identidade, quando lhe dirige uma simples questão: “Quem é você?“. Uma pergunta que por ser profunda e desafiadora, nos leva imediatamente a uma possível reflexão sobre nós. Isso porque não é fácil falar de si mesmo, também não é algo que paramos para pensar com certa frequência, a não ser se for para uma autocrítica bem severa. Existem muitas coisas sobre nós que se pudéssemos esconderíamos até de nós mesmos. Normalmente só pensamos sobre quem somo em uma sessão de terapia, onde somos estimulados a falar sobre nós a fim de que venhamos a descobrir quem somos, quem estamos sendo e quem podemos ser. Esta pergunta nos faz lembrar a máxima socrática no Oráculo de Delfos, “Conhece-te a ti mesmo”, que eleva a importância de se buscar aquilo que se é, não do lado de fora, mas do lado de dentro.
A Lagarta tem a sua simbologia mais evidente que é a de um ser que nasceu para a metamorfose. Nós também somos seres em constante mudanças, adaptações, reinvenções, seguimos nos fazendo e refazendo aqui e ali. Isso me faz lembrar uma música de Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Quando aceitamos o fato de que não somos obras prontas, acabadas, nos libertamos da angústia por perfeição e percebemos que é apenas uma espécie de desejo para agradar um Outro, afinal, não existe nenhum ser humano perfeito. Querer ser perfeito é abrir mão de ser quem se é em/com suas contradições. Porém, não há mal algum em querer melhorar, mas isso precisa partir de si mesmo, algo que venha do interior e se manifeste no exterior. Neste caso, a metáfora deste ser que nasce lagarta e através de uma secreta mudança, de dentro para fora, se transforma em uma borboleta. Estamos sempre em ciclos de mudanças!
Sociedade do espetáculo x Cultura do narcisismo.
O filósofo francês Guy Debord em sua obra “a sociedade do espetáculo”, definiu o espetáculo como o conjunto das relações sociais mediadas pelas imagens. Nós vivemos numa sociedade do espetáculo! As redes sociais hoje em dia são o palco deste espetáculo, onde até podemos ser muitos, só não se pode ser quem se é por achar que a própria vida não é interessante para ser compartilhada. Nas redes sociais a pergunta da Lagarta (“Quem é você?”) é substituída por “O que está acontecendo?” (Twitter) e por “No que está pensando?” (Facebook). Nem se quer atentamos para as reflexões que tais perguntas podem gerar em nós mesmos. Muitos seguem mantendo a ilusão neste palco online, sendo meros personagens criados para entreter e agradar os outros. Sendo assim, nem atentam para o mal que estão fazendo a si próprio sendo apenas quem as pessoas esperam que sejam. Isso de certa maneira é amplificado no Instagram onde é compartilhado fotos, lá também não são poucos os que publicam e aguardam as reações e comentários, por vezes até sofrem pelas reações e comentários que chegam ou não.
O historiador norte americano Christopher Lasch, em seu livro “A Cultura do Narcisismo”, explica que a cultura narcísica se caracteriza por uma espécie de paixão pelo momento presente e por preocupações puramente pessoais. O caráter narcisista da atualidade enfraquece a noção de coletividade ao enfatizar um ideal apenas do individual. Segundo ele, na cultura narcísica, as pessoas percebem sua posição social como um reflexo de suas próprias capacidades, e a política se degenera em uma luta não para a mudança social, mas sim para a autorrealização. Perceber quem somos ajuda a acolher nossa singularidade em meio a pluralidade que compõe a sociedade, de modo que não caímos na armadilha narcísica de olharmos apenas para nós mesmos anulando o outro. É como diz o ditado: “Nem oito nem oitenta”. Nem olhando demasiadamente para nós ao ponto de anularmos o outro, nem olhar demasiadamente para o outro anulando nossa subjetividade. Quem sou precede o outro, mas me torna tão humano quanto o outro.
Pertencer a si mesmo também é um processo de autoconhecimento.
A Lagarta tem uma postura um pouco altiva e arrogante, parecendo não entender as aflições daquela garotinha. Porém, fumando de um narguilé, ela tenta ajudar Alice a se adaptar e lidar com os desafios do local. É interessante perceber este movimento, pois para se adaptar e aprender a lidar com os desafios que o País das Maravilhas reservava, Alice é convidada a pensar sobre si mesma. Assim, ela não se perde de si, mas não impõe sua maneira de ser para aqueles que moram ali naquele lugar.
Apontando o cogumelo que pode modificar o seu corpo, tornando-o maior ou menor, o que pode ser entendido como uma metáfora para as transformações sucessivas que a vida nos impõe, de modo que em determinado momento nos sentimos diminuídos ou inflados demais. Entre diminuir e aumentar Alice acaba perdendo a forma de menina ao ponto de ser confundida com uma serpente. Eis aqui um problema, às vezes mudamos tanto para agradar as pessoas que já nem sabemos mais quem somos. Nós perdemos tanto tempo querendo ser alguém que quando ansiamos ser nós mesmos nem sabemos por onde começar de tão fragmentados que ficamos. Desta maneira, acabamos sendo muitos, reféns do desejo do Outro.
Permitir-se um processo psicanalítico é algo muito importante para lidar com as mudanças, saber quem somos, entender quem estamos sendo e até quem podemos vir a ser, como diria Friedrich Nietzsche: “Nunca é alto o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo.”. Algumas vezes eu já disse e escrevi que não faz análise quem tem problema, porque problemas todo mundo tem, então faz análise quem quer resolver os problemas que têm, quem quer entende-los e encontrar uma forma criativa de lidar com eles. Penso que a Lagarta lembra um pouco o psicanalista que entre silêncios e perguntas leva o/a analisante a se escutar e refletir. Portanto, a Lagarta nos leva a pensar que a mudança é uma coisa positiva e que devemos encarar sem medo, com naturalidade, já que faz parte do processo de cada um de nós.