
A formação do psicanalista: uma travessia inacabada entre o impossível e a ética
Desde Freud, ela se estrutura em um tripé indissociável, um processo que, rigorosamente, nunca termina: a análise pessoal, o estudo teórico e a supervisão clínica.
Postado em 16/11/2025 15:59

A psicanálise se distingue de muitas profissões pela natureza peculiar de sua formação. Ao contrário de médicos ou engenheiros, que obtêm sua habilitação por diplomas e competências técnicas, o psicanalista embarca em uma travessia subjetiva que Freud nomeou como uma das “profissões impossíveis” – não por ser irrealizável, mas por se fundar na impossibilidade de dominar o inconsciente ou de controlar os efeitos da própria presença na vida do outro. Essa impossibilidade, longe de ser um impedimento, é a própria condição ética da prática.
A formação analítica não é um acúmulo de conhecimentos, mas um trabalho de transformação de si mesmo em instrumento de escuta e acolhimento. Desde Freud, ela se estrutura em um tripé indissociável, um processo que, rigorosamente, nunca termina: a análise pessoal, o estudo teórico e a supervisão clínica.
I – O Tripé essencial da formação:
Este é o pilar mais fundamental. A análise pessoal não é uma terapia convencional, embora possa ter efeitos terapêuticos. É um mergulho profundo do futuro analista em suas próprias neuroses, fantasias e pontos cegos. No divã, o analista experimenta em si o que significa estar diante do próprio inconsciente, desenvolvendo uma relação menos defensiva com aquilo que resiste à simbolização. É uma experiência sem cronograma fixo, lógica e não cronológica, que termina quando algo fundamental se desloca na economia psíquica do sujeito.
O estudo aprofundado da obra freudiana e dos pensadores que a seguiram (como Lacan, Klein, Winnicott, Bion, Green, Ferro, Ogden) é indispensável. A psicanálise dialoga com a filosofia, a literatura, a arte e a antropologia, exigindo uma mente aberta para pensar o sujeito em sua complexidade. No entanto, a teoria não é um manual de interpretações prontas; ela orienta a clínica e ajuda a suportar a perplexidade, mas nunca deve ser usada como escudo defensivo, o que impediria a escuta genuína.
Na supervisão, o analista em formação discute seus casos com um analista mais experiente. Não é um julgamento, mas um espaço de elaboração, onde se refinam intervenções e se identificam os pontos onde a própria subjetividade do analista pode estar em jogo. A supervisão transmite uma postura ética, ajudando o supervisionando a pensar o que está em questão em cada caso singular. É o que permite ao analista, que trabalha em um ofício solitário, evitar o isolamento e a estagnação.
II – A questão da autorização e os desafios atuais
No Brasil, a psicanálise não é uma profissão regulamentada, o que levanta debates sobre a autorização do analista. Lacan afirmava que “o analista só se autoriza de si mesmo e por alguns outros”, enfatizando a responsabilidade ética individual e a experiência singular de cada um, em vez de uma legitimação puramente institucional. Trata-se de uma renúncia à ilusão de saber o que é melhor para o paciente. Instituições sérias, como as filiadas à IPA, mantêm estruturas rigorosas de formação que validam essa travessia.
Na contemporaneidade, a formação do psicanalista enfrenta pressões da lógica neoliberal, que busca mercantilizar e acelerar processos. Surgem “formações relâmpago” que traem a essência da psicanálise, um campo que, por definição, resiste à pressa e ao imperativo da eficiência. A psicanálise exige tempo – tempo para analisar-se, para estudar, para errar e retomar.
III – Conclusão: sustentar o inacabado
Formar-se psicanalista é um trabalho de uma vida inteira, que nunca se conclui. Não há um ponto de chegada, pois o inconsciente é inesgotável e cada novo encontro clínico reabre questões. É construir uma ética de sustentar o não-saber, de habitar o limite e de tolerar a incerteza. Winnicott, Bion, Green, Ferro e Ogden, entre outros, expandiram essa compreensão, enfatizando a capacidade de estar só, de escutar sem memória e desejo, de construir um espaço analítico interno, de narrar e co-criar.
O analista se forma e se transforma na escuta, na falha, na hesitação e nas pequenas descobertas que emergem do encontro com cada paciente. É um ofício que se faz no divã (como analisando), nos livros (como estudante), na supervisão (como aprendiz) e na clínica (como aquele que escuta), transmitindo-se de sujeito a sujeito, na esperança silenciosa de que, ao se dizer, cada um possa encontrar novas formas de existir.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe