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Pernambuco, 26 de abril de 2026

Coluna Psicanálise no Cotidiano

O paradoxo da escolha: quando a liberdade se transforma em prisão

Lacan acrescenta uma camada fundamental ao distinguir entre desejo e demanda. Quando o mercado nos oferece infinitas opções, ele responde a uma demanda — a solicitação de objetos que supostamente preencheriam nossas faltas. Mas o desejo opera em outro registro: ele não se satisfaz com objetos concretos, pois sua estrutura é constitutivamente deslizante

Postado em 23/11/2025 12:23

Colunista

Vivemos numa época sem precedentes de possibilidades. Podemos escolher entre dezenas de marcas de café, centenas de filmes em plataformas de streaming, milhares de perfis em aplicativos de relacionamento. A promessa embutida nessa abundância é sedutora: quanto mais opções tivermos, mais livres e felizes seremos. No entanto, algo curioso acontece na prática — muitos de nós nos sentimos mais paralisados que libertos, mais ansiosos que satisfeitos. O que deveria ser exercício de liberdade se converte, paradoxalmente, em experiência de aprisionamento.

Kierkegaard, no século XIX, já havia identificado o que chamou de “vertigem da liberdade” — aquela tontura que nos acomete diante de possibilidades ilimitadas. Para ele, a angústia não nasce da ausência de escolhas, mas justamente de sua multiplicidade: quanto mais caminhos se abrem, mais aguda se torna nossa consciência de que escolher um implica renunciar a todos os outros. Cada decisão carrega o peso de infinitas portas que se fecham.

Do ponto de vista psicanalítico, esse fenômeno ganha contornos mais complexos. Freud nos ensinou que nossas escolhas raramente são tão conscientes quanto imaginamos. Atravessadas por desejos inconscientes e dinâmicas pulsionais que nos escapam, nossas decisões respondem a lógicas que desconhecemos. O excesso de opções não amplia necessariamente nossa autonomia — pode intensificar nossos mecanismos neuróticos de evitação. Diante de muitas possibilidades, adiamos indefinidamente a escolha ou nos refugiamos em decisões automáticas, delegando a algoritmos aquilo que deveria ser apropriação singular.

Lacan acrescenta uma camada fundamental ao distinguir entre desejo e demanda. Quando o mercado nos oferece infinitas opções, ele responde a uma demanda — a solicitação de objetos que supostamente preencheriam nossas faltas. Mas o desejo opera em outro registro: ele não se satisfaz com objetos concretos, pois sua estrutura é constitutivamente deslizante. O excesso de escolhas cria a ilusão de que finalmente encontraremos o objeto adequado, aquele que nos completará — ilusão que o próprio desejo desmente a cada nova tentativa.

Barry Schwartz, em seus estudos sobre o “paradoxo da escolha”, demonstra que, a partir de certo limiar, o aumento de opções não amplia o bem-estar — ao contrário, gera insatisfação crescente. A escolha se torna cognitivamente exaustiva, elevamos nossos padrões de expectativa e sofremos mais intensamente o custo de oportunidade de cada decisão. Quando finalmente escolhemos, a responsabilidade recai inteiramente sobre nós — se não estamos satisfeitos, deveríamos ter escolhido melhor.

O que fazer, então, diante desse paradoxo? Trata-se de cultivar uma relação mais consciente com nossas escolhas. Isso implica reconhecer que escolher envolve sempre renúncia — e que essa renúncia não é falha, mas condição de toda decisão autêntica. Implica aceitar a incompletude: nenhuma escolha nos entregará satisfação total. Talvez a verdadeira liberdade não resida na multiplicação infinita de opções, mas na capacidade de escolher com consciência e de sustentar nossas escolhas sem paralisante arrependimento. A liberdade não é ausência de limites, mas a arte de habitar criativamente os limites que toda escolha instaura.​​​​​​​​​​​​​​​​

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe