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Pernambuco, 11 de março de 2026

Coluna Psicanálise no Cotidiano

Ano Novo e o Ideal: O Cansaço de Ter de Ser Melhor

O verdadeiro recomeço, afinal, não está na lista de metas, mas na coragem de abandonar o ideal que nos exaure e de nos aproximar, finalmente, do que nos torna inteiros.

Postado em 28/12/2025 19:33

Colunista

A virada do ano costuma ser celebrada como um marco de renovação, mas para muitos ela acende um tipo específico de sofrimento: a sensação de que precisamos nos reinventar, melhorar, corrigir ou aperfeiçoar algo em nós mesmos. O sujeito contemporâneo vive imerso em discursos que o convocam o tempo inteiro à superação — ser mais produtivo, mais saudável, mais organizado, mais “resolvido”. O Ano Novo torna essa convocação ainda mais intensa. É como se, de repente, a existência se tornasse um projeto de performance contínua, e não um processo vivo, fluido, cheio de limites e singularidades.

Da perspectiva psicanalítica contemporânea, essa experiência não é apenas individual: ela tem raízes sociais profundas. O ideal de constante aprimoramento dialoga com um cenário cultural que transforma o sujeito numa espécie de “empreendimento de si”, regulado por métricas internas de eficiência e autocontrole. Assim, as resoluções de Ano Novo — perder peso, economizar, ler mais, “mudar de vida” — muitas vezes reproduzem uma lógica de autovigilância que sufoca a espontaneidade. O que chamamos de desejo, nesses casos, costuma ser desejo colonizado: demandas externas que internalizamos como se fossem nossas.

Esse movimento gera um tipo de mal-estar marcado por vazio, culpa e inadequação. O sujeito sente que nunca alcança o padrão que imagina ser necessário para pertencer ou ser reconhecido. A cada início de ano, o excesso de exigência pode reativar dramas silenciosos: a impressão de falha permanente, o medo de decepcionar, a fantasia de que “se eu fosse diferente, tudo seria melhor”. São formas modernas de sofrimento psíquico, frequentemente invisíveis, porque a cultura do desempenho as apresenta como responsabilidade pessoal — e não como efeitos de um contexto que hiperestimula a comparação e a autocrítica.

A psicanálise contemporânea também observa como o ideal de melhora constante empobrece a relação do sujeito consigo mesmo. Quando a vida passa a ser medida por metas, indicadores e autoavaliações, perde-se a capacidade de escutar o que é vivo, pulsante e singular. Em vez de perguntar o que realmente faz sentido, perguntamos apenas se estamos funcionando bem. O Ano Novo transforma-se, assim, num espelho do imperativo moderno: o de ser alguém melhor, mesmo que isso custe o próprio bem-estar.

No entanto, existe outra forma de pensar o recomeço: não como uma lista de metas, mas como um gesto de autorreferência mais delicado. Em vez de perseguir um ideal inalcançável, podemos perguntar: “O que, em mim, precisa ser acolhido para que a vida se torne menos pesada?” Essa pergunta desarma a lógica do desempenho e abre espaço para o sujeito se reencontrar com sua própria experiência — suas limitações, seus ritmos, seus desejos legítimos e não os impostos.

Da perspectiva clínica, mudanças reais só surgem quando há espaço interno para elas. O sujeito não se transforma porque se cobra, mas porque encontra condições subjetivas de viver algo novo. E essas condições incluem descanso psíquico, escuta, cuidado e relações que não operem pelo ideal, mas pelo reconhecimento.

Talvez o Ano Novo não precise ser o ponto de partida de um “eu melhor”, e sim o convite para uma existência mais habitável. Uma vida que não se mede pela performance, mas pela qualidade do encontro consigo e com o outro. Uma vida que se permita não aspirar constantemente ao extraordinário, mas que encontre sentido no possível.

O verdadeiro recomeço, afinal, não está na lista de metas, mas na coragem de abandonar o ideal que nos exaure e de nos aproximar, finalmente, do que nos torna inteiros.

 

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe