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Pernambuco, 25 de abril de 2026

Coluna Psicanálise no Cotidiano

Reaja!: por que nem sempre é tão simples sair da cama?

O corpo parado, muitas vezes, é a expressão mais honesta de um psiquismo que não encontra saídas — e forçar o movimento sem escutar esse psiquismo pode, na pior das hipóteses, ser cruel.

Postado em 25/04/2026 09:32

Colunista

Quem conhece o interior do Agreste sabe que, por aqui, ninguém para enquanto há o que fazer. A lida começa cedo, o sol ainda não subiu, e já há alguém de pé — cuidando do gado, abrindo o comércio, tirando o leite que vai virar o queijo que vai sustentar a família. É uma cultura do movimento, da persistência, do corpo que não cede. É dentro desse mundo, então, que a frase de um pai ganha todo o seu peso: ao ver o filho deitado, tomado pela apatia, ele diz com aquela mistura de afeto e impotência que só os pais conhecem: “Meu filho, meta dos pés.” Não é apenas um incentivo ao movimento. É uma tentativa — ainda que sem palavras técnicas para isso — de devolver ao filho um lugar no mundo; de chamar de volta alguém que, de cima da cama, parece estar se afastando silenciosamente da própria vida.

Quando alguém está tomado por um quadro depressivo — especialmente quando atravessado pela ansiedade e por tonalidades hipocondríacas —, não se trata simplesmente de “não querer” agir. Trata-se de algo mais radical e silencioso: o desejo se esvazia, o corpo perde sua direção, e o tempo deixa de convocar o sujeito para coisa alguma. O amanhã não chama. O hoje pesa. Não há preguiça nisso, não há falta de vontade no sentido moral da palavra. Há um esgotamento que vai fundo — que não aparece em nenhum exame laboratorial, mas que se instala no osso, no olhar, na dificuldade de encontrar um motivo sequer para levantar da cama.

Freud nos ensinou que o sofrimento psíquico não é apenas um excesso de dor — é, muitas vezes, uma perda de investimento no mundo. O sujeito deprimido não apenas sofre, ele se desliga. Desliga-se das pessoas, dos projetos, dos prazeres e, no limite, de si mesmo. O que antes tinha cor passa a ser cinza. O que antes tinha sabor passa a ser neutro. É nesse contexto que “meter os pés” ganha um estatuto quase simbólico: sem saber, o pai tenta reinscrever o filho no circuito da existência. Um gesto simples, saído do coração — mas que carrega, sem que ele saiba, toda a gramática do cuidado.

Há, porém, um ponto delicado. Entre o chamado e a exigência, existe um abismo. Quando o imperativo de movimento não encontra nenhuma escuta para o sofrimento que o antecede, ele pode ser vivido como mais uma prova de inadequação: “se nem isso eu consigo, então há algo muito errado comigo.” É justamente aí que a clínica se diferencia do senso comum. O corpo parado, muitas vezes, é a expressão mais honesta de um psiquismo que não encontra saídas — e forçar o movimento sem escutar esse psiquismo pode, na pior das hipóteses, ser cruel.

Winnicott nos ajuda a pensar que, antes de qualquer movimento autêntico, é preciso haver uma presença que sustente o sujeito em sua queda. O que parece inércia pode ser uma forma de sobrevivência psíquica. Como a caatinga na seca: não morreu, apenas guardou o que tinha. O sujeito se recolhe não por fraqueza de caráter — mas por falta de condições internas para sustentar a continuidade de ser. “Meta dos pés” pode até ser eficaz, mas apenas quando acompanhado de um olhar que não julga e de uma escuta que acolhe antes de exigir.

Os traços hipocondríacos introduzem ainda outro elemento: o corpo não apenas pesa — ele fala. Sintomas, dores e preocupações com doenças tornam-se tentativas de dar forma ao que não encontrou palavra. Não é simulação, não é fraqueza — é uma linguagem. E pedir movimento a esse corpo é também pedir que ele silencie antes de ser compreendido.

“Meta dos pés” pode ser, então, uma metáfora clínica potente — desde que usada como convite, e não como veredito. Há momentos em que o sujeito precisa de pequenos deslocamentos: sair da cama, abrir a janela, deixar os pés tocarem o chão frio. Não porque isso resolve o sofrimento — mas porque pode ser o primeiro gesto de uma subjetividade que ainda resiste. Esses movimentos, contudo, só ganham sentido quando vividos como possibilidade, não como imposição. A diferença entre um e outro pode ser a diferença entre o que aprisiona e o que liberta.

No fundo, o trabalho analítico tem essa mesma intenção: ajudar o sujeito a reencontrar seus próprios pés — não aqueles que obedecem por medo, mas aqueles que podem, pouco a pouco, sustentar um caminho verdadeiramente seu. Porque há movimentos que não começam nas pernas — começam na possibilidade de ser escutado, de ser sustentado, de não ter que carregar sozinho o peso de existir.

E, às vezes, antes de “meter os pés”, é preciso, primeiro, poder existir.

 

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe