
O dedo que não para: sobre o scroll infinito e a morte da espera
Não se trata de condenar a tecnologia. Trata-se de perceber que, quando não conseguimos mais suportar dois minutos de fila sem pegar o celular (quando a espera virou ameaça e o silêncio, tortura), algo do nosso mundo interno está pedindo atençã
Postado em 17/05/2026 09:37

Existe um gesto que se tornou o mais comum do nosso tempo: o dedo deslizando para cima na tela do celular, sem parar, sem destino, sem saber ao certo o que procura. Não é leitura. Não é descanso. É algo diferente, uma compulsão suave, quase imperceptível, que nos mantém presos num movimento sem fim. E me parece que a psicanálise tem muito a dizer sobre isso.
Freud nos ensinou que o aparelho psíquico é governado, em sua base, pelo princípio do prazer que é a tendência de eliminar a tensão o mais rapidamente possível. Quando sentimos fome, angústia, tédio ou solidão, o psiquismo busca alívio. O problema é que nem todo alívio é maduro. Há uma forma primitiva de satisfação chamada por Freud de alucinatória em que o bebê, ao sentir fome, evoca a imagem do seio antes mesmo que ele apareça. Uma satisfação imaginária, provisória, que acalma por um instante, mas não alimenta de verdade.
O scroll infinito funciona exatamente assim. Cada imagem nova, cada vídeo curtinho, cada notícia que surge é uma pequena descarga de tensão. O algoritmo foi projetado para isso: oferecer estímulo antes que a espera se instale. O resultado é que nunca chegamos a sentir a tensão por tempo suficiente para elaborá-la, ou seja, nunca ficamos com o vazio tempo suficiente para descobrir o que ele quer dizer. E o vazio, para a psicanálise, não é o inimigo. É o espaço onde o desejo se forma.
Winnicott falava da capacidade de ficar só não como isolamento, mas como uma conquista psíquica. É no silêncio tolerado que a criança descobre o que quer, que o adulto ouve a si mesmo, que o pensamento ganha profundidade. A espera não é ausência de vida, é a condição para que algo vivo possa surgir. O scroll infinito nos rouba exatamente isso. Ele nos mantém ocupados o suficiente para que nunca nos perguntemos: o que estou sentindo agora? Do que eu precisaria, de verdade?
Não se trata de condenar a tecnologia. Trata-se de perceber que, quando não conseguimos mais suportar dois minutos de fila sem pegar o celular (quando a espera virou ameaça e o silêncio, tortura), algo do nosso mundo interno está pedindo atenção.
A tela oferece o seio antes que a fome apareça. E uma cultura que elimina a espera não produz sujeitos satisfeitos, pelo contrário, produz sujeitos anestesiados, que não sabem mais o que querem, nem porque o dedo continua em movimento. É a fome, e só ela, que nos ensina o que somos capazes de desejar. Quem nunca aprende a sentir fome nunca descobre o que realmente deseja.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe