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Em busca de opções para o empréstimo ao agricultor familiar

Certamente um dos grandes desafios em períodos de seca é gerir a água que se dispõe. As chuvas normalmente diminuem, os aquíferos ficam mais profundos e as cisternas, secas, racham à espera dos carros-pipa. Este era o cenário do Semiárido brasileiro que muitos ainda insistem em ver imutável. A gestão de recursos hídricos avançou em toda a região Nordeste. Em alguns estados, de forma mais consistente. Graças aos investimentos nos últimos vinte anos, centenas de municípios contam com água do Rio São Francisco na torneira, dois milhões de famílias contam com cisternas domésticas, milhares de poços estão disponíveis ou à espera de recuperação.

Provavelmente, para quem conhece a região, avizinha-se um período de secas e, com ele, o desafio de aproveitar da melhor forma a água, seja para uso agrícola, industrial ou para dessedentação da população humana e animal. Isto significa que sistemas menos eficientes de irrigação devem obrigatoriamente ser adotados, em particular a microaspersão e o gotejamento. Não havendo nada gratuito, o importante é que se analise o mercado de alimentos, flores e ornamentais e rações para se decidir em que investir. Considerando que um hectare de área irrigada não fica por menos de quinze mil reais, a seleção sobre o que se deve cultivar é crucial.

Levando-se em consideração que somente no Nordeste se conta com mais de dois milhões de pequenos e médios imóveis com área inferior a dez módulos fiscais, toda água é objeto de atenção e economia. Isso significa que o crédito rural na região deve ser o mais criterioso possível, caso os agentes financeiros não pretendam chorar a alta taxa de inadimplência.

Onde está o mercado?

Sendo assim, a primeira questão a ser colocada é: onde está o mercado para o produto irrigado? Com certeza não trataremos de grãos de milho, ou mesmo de feijão ou até de arroz, mas, fixando-nos no pequeno agricultor familiar, que quase sempre sua perspectiva de irrigação é de uma área inferior a um hectare, verificar o que se pode produzir e, preferencialmente, colocar no mercado local é estratégico. Para tanto, tanto este agricultor como os agentes de extensão, crédito e ensino merecem estar bem entrosados com o que se negocia nas feiras livres, nos mercadinhos e entre os vendedores ambulantes. Sempre que posso, seja em Serra Talhada, Arapiraca ou Recife, gosto de ir à feira de frutas e hortaliças. Ver o que está sendo ofertado, por qual preço e qual a disponibilidade do produto. Para surpresa, ainda se encontra um razoável número de pequenos produtores que se aventuram a trazer sua colheita para o mercado. Normalmente esses pioneiros passam a expor mais produtos que adquirem entre os vizinhos de campo.

Quem consome milho verde?

Um dos produtos mais comuns é o milho verde. Ele pode ser comercializado nas pamonharias, nas fábricas de bolo, que estão se tornando cada dia mais comuns, e também como espigas com ou sem palha, além de espigas com ou sem palha, milho assado ou cozido. Na região, o milho não é consumido apenas na confecção do cuscuz ou do manguzá, mas em uma dezena de formatos, tanto atendendo ao paladar de quem o prefere doce ou salgado. Além de hortaliça. Não que eu conheça entre nós. Na Índia, por exemplo, há um tipo de grãos doces, vendido cru na feira ou no comércio de rua. Nos sertões, a outra opção de cereal considerado típico é o arroz vermelho, amplamente utilizado pela culinária dos sertões da Paraíba e de Pernambuco, alcançando um preço superior ao arroz branco.

E a fava, o guandu e o feijão verde?

Além do milho verde, há de se considerar três espécies de feijões. A fava, o feijão guandu ou andu e o feijão de corda. A primeira pode ser definida como totalmente aderente ao gosto local, mas em um preço que exclui parte da população. Não são todos capazes de comprar um quilo ou um litro de fava verde, dependendo de cada região, por vinte reais. No caso do feijão guandu, por ter um gosto mais amargo quando não cozido devidamente, o preço desce de vinte, mas não cai além de quinze reais por litro ou quilograma. Já o feijão de corda, o mais comum e usado na elaboração de um dos pratos mais conhecidos da cozinha local, o baião de dois, seu preço dificilmente é inferior a oito reais o litro.

O que se pretende aqui é mostrar que nem toda irrigação está ligada ao cultivo da uva, da manga, do melão, da melancia ou da banana. As opções apontadas são aquelas em que um hectare de cada uma em rotação é suficiente para conferir à família uma renda entre dois e três salários-mínimos mensais. São sistemas mais rústicos, apesar de sempre necessitarem de um cuidado especial, mas que facilmente podem ser geridos por pequenos e médios produtores, mesmo considerados pouco escolarizados.

Como se diz aqui, fazendo uma conta de padaria, um hectare de milho irrigado tem entre cinquenta e cinquenta e cinco mil plantas. Considerando-se que apenas oitenta por cento das plantas produzem espigas comerciais, sobrariam quarenta mil espigas que, vendidas na roça pelo valor unitário de cinquenta centavos de real, gerariam uma renda bruta de vinte mil reais de espigas, sem contar um outro produto nobre que lhe resta, a silagem, de onde se consegue colher vinte toneladas ou, separando em sacos plásticos de vinte quilos, confere uma renda àquela família entre dez e quinze mil reais de faturamento, adicional ao milho verde. Avaliando-se o custo de produção e levando-se em consideração o valor da silagem, um fazendeiro pode ter uma renda bruta de até trinta mil reais, um valor que dificilmente um agricultor familiar auferiria com outra opção. Algo a se pensar é que os agentes financeiros e de fomento também avaliem. Quem conta com um pouco de água é um cliente com capacidade de pagamento, aqueles que, por acaso, não armazenaram ou não têm acesso a alguma fonte. O risco da inadimplência é alto; devem melhor avaliar as opções de empréstimos, mesmo com os juros bem abaixo do valor de mercado.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

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