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Um grão de cinco mil anos que o Brasil ainda mal conhece
Parente do milho na mesma família botânica das gramíneas, o sorgo carrega uma história de domesticação que remonta à Etiópia, há pelo menos cinco mil anos. Adaptado a regiões secas, é alimento de base na África, na China e na Índia, onde sua farinha vira chapati ou roti, e onde uma polenta feita com o grão é consumida coletivamente em países como Uganda, Quênia e Tanzânia. No Brasil, porém, o colunista Geraldo Eugênio, professor titular da UFRPE-UAST, lembra que o grão sempre foi coadjuvante, usado quase exclusivamente na fabricação de ração animal.
De planta alta e inviável a cultivo mecanizável
A virada de chave aconteceu nos Estados Unidos, onde universidades e o Departamento de Agricultura conduziram o chamado Programa de Conversão do Sorgo: reduziram a altura da planta, historicamente alta demais para colheita mecânica, para algo entre 1,20m e 1,50m, e aumentaram o tamanho das panículas. O resultado tornou o sorgo viável para as mesmas colheitadeiras usadas em soja e milho, o que impulsionou seu cultivo em regiões secas do Corn Belt americano, como Kansas, Nebraska, Texas e Oklahoma, e depois em países como Argentina, Austrália, China e Índia.
No cerrado brasileiro, um substituto estratégico para o milho safrinha
No Brasil, o sorgo encontrou espaço nas franjas do cerrado, em estados como Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí, como opção de menor risco para o segundo cultivo do ano em áreas sem umidade suficiente para o milho safrinha. O colunista destaca o papel histórico da cultivar IPA 1011, desenvolvida pela equipe técnica do IPA sob liderança do professor Mário Lira, no fortalecimento dessa alternativa no sistema de plantio direto.
Etanol de milho pressiona preços e abre porta para o sorgo
O ponto central do artigo está na virada recente do mercado. Nos últimos cinco anos, o Brasil consolidou a produção de etanol de milho, inspirada no modelo americano, e hoje cerca de 23% de toda a produção nacional de etanol já vem do grão. As destilarias avançaram até o sul do Piauí e do Maranhão, deslocando volumes de milho que antes abasteciam o mercado interno.
O efeito, segundo o colunista, é direto sobre o bolso do consumidor: a pressão sobre o preço do milho tende a encarecer o farelo e o flocão, impactando dois alimentos populares no Nordeste, a carne de frango e o cuscuz.
Semiárido pernambucano pode virar nova fronteira do sorgo
É nesse cenário que o sorgo ganha força como alternativa. Tão eficiente quanto o milho na produção de etanol, e ainda gerando o DDG (Dry Distillers Grain), coproduto rico em proteína usado na alimentação animal, o grão se торна uma opção viável justamente onde o milho é mais arriscado: áreas de baixa precipitação. Para Geraldo Eugênio, a tendência é clara: expansão do cultivo no semiárido nordestino, alcançando territórios até hoje pouco explorados no Sertão de Pernambuco e em regiões vizinhas.










