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Ensino superior no Sertão: professor da UFRPE defende planejar cursos pela demanda da região

A forma como novas universidades, campi e institutos tecnológicos são planejados no país precisa mudar, segundo o professor titular da UFRPE-UAST Geraldo Eugênio, ele afirma que o ensino superior na região semiárida avança pouco porque as escolhas de cursos raramente se baseiam em estudos técnicos sobre a economia atual e futura do território. As análises a seguir são opiniões do autor.

Cursos escolhidos sem estudo técnico

Segundo o professor, antes da instalação de novas instituições raramente se faz um estudo que analise o cenário atual e o futuro da região. Na maioria dos casos, a escolha das profissões fica a cargo do que os dirigentes escolares imaginam ser necessário, com validação em assembleias populares que votam os cursos considerados prioritários.

O resultado, diz ele, é que muitos cursos não refletem a demanda atual de mão de obra qualificada. Em alguns casos, mesmo quando a escolha é acertada, as instituições recém-criadas não atraem os jovens, e as salas esvaziadas se tornam comuns.

O autor lembra que há uma tendência universal de queda na procura por ensino superior. Em alguns países, as mensalidades são tão altas que levam famílias à falência ou condenam o egresso a uma vida de penúria por não conseguir pagar o empréstimo. Em outros, somam-se o envelhecimento da população e a redução da taxa de natalidade.

Quinze cursos de Agronomia em Pernambuco

Para Geraldo Eugênio, quem opina nas assembleias muitas vezes não consegue enxergar o futuro da região e acaba escolhendo opções que refletem o passado, congestionadas e mal remuneradas. Ele cita como exemplo que, somente em Pernambuco, funcionam hoje quinze cursos de Agronomia, quando a metade seria suficiente para atender à demanda.

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST

Segundo ele, o mesmo ocorre em áreas como saúde, ciências sociais e humanas, enquanto há quase sempre suboferta de vagas em engenharias, recursos hídricos, geologia, física e matemática.

Semiárido fora dos centros de excelência

O professor afirma que a região semiárida, por não pensar grande, deixa de se considerar opção para abrigar centros de excelência em defesa, biomedicina, biologia molecular, robótica e inteligência artificial, e se contenta com papéis secundários, “nunca como protagonista”.

Ele cita o tempo que o estado gastou em um debate sobre a instalação de uma escola de sargentos. Segundo o autor, nunca se discutiu com o Ministério da Defesa a criação de um instituto de pesquisa em balística ou sensores, nem com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação uma unidade dedicada à genômica de espécies da caatinga. Isso apesar da mudança climática global em curso, em que o Nordeste pode ser a chave para problemas da agricultura mundial.

Segundo o professor, parte-se da velha leitura de que a ciência de alto nível deve ficar nas capitais e nos centros do Sudeste e do Sul, com a rara exceção de Campina Grande. Ele lembra que cidades como Campina Grande, Mossoró, Caruaru, Arapiraca e Feira de Santana ficam na franja do Semiárido e não refletem a realidade climática e econômica do Sertão profundo.

Financiamento público e qualidade do ensino

O autor critica o financiamento público de escolas de baixa qualidade pelo Fies e pelo ProUni, programas de crédito estudantil e de bolsas em instituições privadas. “Sei que é doloroso, mas há uma realidade perversa que deve ser corrigida a tempo”, escreve.

Ele compara o fenômeno a uma “mágica de mercado” parecida com as bets: convencer o jovem a optar por um empréstimo que talvez não consiga pagar, em vez de ingressar numa universidade pública que, em geral, tem estrutura melhor. Nessas universidades, diz, há vagas não preenchidas e até cursos com total inserção na economia regional sob ameaça de encerramento.

Ao mesmo tempo, o professor ressalta que não sabe se há programa público mais impactante do que a democratização do ensino médio e superior iniciada em 2005. Defende, porém, avaliações quinquenais para verificar se a expectativa criada com a inauguração das unidades está sendo atendida. Para ele, o mecanismo de avaliação atual é insuficiente, sem controle e quase sempre sem consequência para escolas que não oferecem infraestrutura, corpo técnico e pessoal adequados. Segundo ele, o financiamento de vagas em escolas que não atendem a um padrão mínimo forma profissionais que não serão aproveitados no mercado e frustra jovens que poderiam ser mais úteis como técnicos de nível médio ou tecnólogos.

Proposta: Primeira Empresa

Para encaixar os jovens na economia regional, o professor propõe que o governo federal, em parceria com os estados, crie em âmbito nacional um programa de apoio às empresas organizadas por jovens egressos de cursos técnicos ou superiores, para preencher o intervalo entre a formatura e o primeiro emprego. O programa seria chamado de Primeira Empresa.

Segundo ele, a demora em inserir o jovem pode desmotivar o engenheiro, o odontólogo, o nutricionista ou o professor e desperdiçar o esforço dele e o investimento público na formação. O autor afirma que o programa deve custar menos do que manter um aluno em universidade pública ou em alguns cursos de instituições privadas.

Geraldo Eugênio é professor titular da UFRPE-UAST.

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