A gasolina é um combustível líquido, inflamável e volátil, composto basicamente por uma mistura de átomos de carbono e hidrogênio na configuração de hidrocarbonetos. Ela é obtida a partir da destilação e do craqueamento do petróleo. Seu uso se disseminou a partir do início do século passado, substituindo os combustíveis em uso, quer seja o carvão, a lenha, o óleo de baleia, e se constituindo na base para o surgimento de uma indústria automobilística que substituiu a tração animal em todo o mundo. Já o etanol, conhecido popularmente como álcool ou álcool etílico, é um composto orgânico líquido, incolor, inflamável e solúvel em água, com a fórmula química C₂H₆O, derivado da fermentação de açúcares extraídos da produção vegetal em espécies como a cana-de-açúcar, o milho, o sorgo e a beterraba.
No Brasil atual, a gasolina com a qual se abastecem os veículos é uma mistura contendo 32% de etanol. Logo em um posto de abastecimento se encontra a mistura E32, o etanol hidratado, que contém 95,5 a 96,0% de etanol e entre 4,0 e 4,5% de água, e o óleo diesel. Esses dados são importantes e têm implicação direta no perfil dos motores usados na indústria automobilística brasileira.

O Brasil saiu à frente.
Em 1973, o mundo foi pego de surpresa por um conflito entre o Egito e Israel, denominado Yom Kipur. Esta guerra resultou no reposicionamento da Organização dos Países Produtores de Petróleo – OPEP, que, em uma decisão sem precedentes, elevou o preço do barril de petróleo de quatro para quarenta dólares. Países como o Brasil, naquele momento já em recessão resultante do Milagre brasileiro, viram-se em situação de extrema dificuldade, já que dependiam da exportação de 75% da gasolina que consumiam. Isso é o que se diz no ditado popular: além de queda, coice.
Em uma atitude de extrema ousadia, o governo, liderado pelo Presidente Ernesto Geisel, que tinha como Ministro das Minas e Energia o nissei Shigeaki Ueki, advogado que se especializou no mundo corporativo da energia e dos combustíveis, assumiu o Ministério com tão somente 38 anos. O professor Shigeaki Ueki foi o principal articulador do lançamento do Programa Nacional do Álcool – Proálcool, em novembro de 1975, o que tornou o Brasil referência mundial em bioenergia e biocombustíveis. Dentre os fatos curiosos, um deles é saber que o pequeno Fiat 147, que fez história por três décadas, foi o primeiro automóvel a usar 100% de etanol como combustível. Após o choque de preço do barril de petróleo, o mercado foi se acomodando e o etanol passou a ser questionado do ponto de vista econômico. Chegou-se ao caso de que quem possuía um carro a etanol encontrava com dificuldade algum posto de abastecimento com disponibilidade do combustível, levando ao colapso o mercado de carros a etanol no Brasil. O setor sucroenergético entrou em crise, dezenas de unidades industriais faliram, já que desapareceu a demanda por álcool combustível e este mercado estava concentrado fundamentalmente no Brasil.
A revolução do carro flex fuel, iniciada em 2003, transformou radicalmente o setor de combustíveis.
Em 2003, o desenvolvimento do carburador flex, que poderia operar com gasolina ou álcool, indistintamente, mudou de modo radical o setor de combustíveis e duas tecnologias de sensores ultrassensíveis capazes de identificar em milésimos de segundo a mistura de combustível e ajustar a injeção e explosão no cilindro do motor a combustão. A paternidade pela descoberta se dá a duas empresas: a primeira, a Bosch, grande produtora de sistemas de carburação automotivos, seguida pela empresa Magneti Morelli, cujo sistema foi adotado pela Volkswagen. A demanda brasileira levou ao desenvolvimento de sistemas de combustão únicos e tornou o Brasil, até hoje, centro de conhecimento em bioenergia e biocombustíveis. Atualmente, à exceção dos veículos dependentes totalmente de energia solar, todo veículo comercializado no Brasil tem como característica ser flex.
Etanol de grãos de milho e de sorgo.
Produzir etanol a partir da cana-de-açúcar, tudo bem. Há séculos a humanidade consome rum, cachaça, aguardente e, como combustível, a partir dos anos setenta, produzir o etanol a partir do amido do milho foi outro desafio a ser enfrentado. Este fato se deu nos Estados Unidos, quando o presidente George W. Busch, em 8 de agosto de 2005, assinou o Energy Policy Act. Apesar da resistência das empresas de petróleo, o governo foi à frente com a iniciativa e, concomitantemente, incentivou várias universidades e laboratórios do Agriculture Research Service – ARS, o equivalente à Embrapa americana, a desenvolverem opções para uso dos resíduos provenientes da indústria de etanol. Foi então que especialistas do Departamento de Ciência Animal da Universidade de Nebraska-Lincoln desenvolveram o Distilled dried grain – DDG, um farelo à base dos coprodutos gerados pela moagem, separação e fermentação do amido de milho, tão eficiente quanto o farelo de soja e que passou a ser amplamente utilizado na pecuária de corte e de leite dos Estados Unidos.
Aparentemente, este modelo jamais teria sucesso no Brasil; entretanto, grandes produtores de milho no Centro-oeste começaram a notar que, já que o combustível usado na região teria que ser deslocado das destilarias de petróleo ou das usinas de produção de etanol de cana-de-açúcar, uma opção lógica poderia ser o etanol de milho. Em pouco mais de dez anos, mais de um quarto da produção nacional de etanol é proveniente de milho, ameaçando desequilibrar indústrias tradicionais como a avicultura e ter efeitos fortes sobre o uso de milho na produção de alimento humano.
A partir deste desafio, o Nordeste Semiárido entra como opção no suprimento de grãos para a produção do etanol, uma vez que, se a maior parte da região não suporta uma produção sustentável de milho, pode se tornar uma opção para a cultura do sorgo granífero. É nesta aposta que o futuro do etanol crescerá no país, colocando pressão sobre o setor sucroenergético, que, ao longo dos últimos anos, tem demonstrado ineficiência no processo de gestão, levando à falência ou recuperação judicial de gigantes como a Raizen.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST










