Uma leitura falsa que persiste sobre o Semiárido e que, à exceção de Caruaru e Petrolina, a região é sinônimo de estagnação, secas, recipientes do Bolsa Família, ignorância e pobreza. Esta percepção se acentua em períodos eleitorais, particularmente quando o Nordeste brasileiro tem mantido uma tendência de apoio a políticas que investiram no apoio social aos mais humildes e que trataram a região como ambiente de oportunidade. A diferença entre o produto interno bruto per capita entre um estado nordestino e outro do Sul ou Sudeste ainda é grande, mas não há como não se admitir os avanços alcançados nas últimas décadas. Além de os governos terem feito seu papel, há de se destacar a ação incansável de um empresariado que tem feito de tudo para manter, expandir e atrair novos negócios para a região. Dentre os principais segmentos, o texto dará ênfase à atividade industrial no Agreste e Sertão e seu futuro.
Industrial e logística.
A indústria desempenha papel relevante na região, embora ainda enfrente obstáculos como deficiências na logística rodoviária e ferroviária, distância do complexo portuário e escassez de mão de obra qualificada. Pernambuco também sofre com a saturação da BR-232, principal eixo de ligação entre o litoral e o Sertão. Após 24 anos, o governo estadual iniciou a duplicação do trecho entre São Caetano e Serra Talhada, com cerca de 270 quilômetros. A iniciativa beneficia os municípios do Agreste e do Sertão, independentemente de sua localização.
O grande desafio que aguarda cada município é o de como encarar a vizinhança de uma rodovia duplicada que deixa de ser uma avenida para se constituir em um cinturão rodoviário. Em primeiro lugar, há o medo de que o município deixará de ser ponto de parada e seu comércio varejista perecerá, o que pode ocorrer caso não se cuide de manter o mercado local atrativo e moderno. Para os que investem neste argumento, faz-se lembrar que, por outro lado, abre-se a porta para atração de novas indústrias, hospitais, escolas, galpões de distribuição de mercadorias, hotéis, restaurantes, unidades de varejo e atacado.

A presença de novos concorrentes foi por muito tempo tratada como uma ameaça, e as forças tradicionais locais em vários municípios do sertão fizeram o que foi possível para abortar investimentos como pontes no São Francisco, pontes urbanas e novas empresas. Um pensamento típico de alguém que se nega a ver o futuro e que se contenta em manter-se e manter a população refém de seu método, de seus preços e de sua boa vontade.
A segunda versão da questão diz respeito à atração de investimentos privados, em especial unidades industriais e de serviços. O exemplo mais elucidativo que se tem é o município de Vitória de Santo Antão, quando, há vinte e cinco anos, se colocou em marcha a duplicação do primeiro trecho da BR-232. Não foram poucas as iniciativas de líderes políticos e empresariais locais contra o novo traçado da estrada. A alegação é que o desvio aniquilaria a economia municipal, que contava com seus negócios, com a fábrica de aguardente Pitu e uma economia canavieira em decadência. Vinte anos depois, a cidade se expandiu em direção à rodovia, dezenas de indústrias foram atraídas para o município e o distrito de Natuba, antes conhecido como produtor de coentro, alface e cebolinha, hoje faz parte direta do distrito industrial de Vitória de Santo Antão.
Este movimento de atração pode se intensificar quando empresas que pretendem vir para o Nordeste notarem que o programa de duplicação é consistente e que, ao concluírem seus investimentos, contarão com uma rodovia duplicada à porta. A economia do Semiárido se beneficiará do arco metropolitano. Os trechos Arcoverde – São Caetano e Vitória de Santo Antão – Porto de Suape são os mais críticos. Essas duas obras farão com que uma carreta que se dirija do Sertão a Suape trafegue todo o trecho em rodovia duplicada, com média de deslocamento entre 80 e 90 quilômetros por hora, comparada com uma velocidade atual ao redor de 65 quilômetros por hora, resultando em um ganho logístico de grandes dimensões.
O parque industrial instalado
E a indústria local, onde entra nesta história? De duas maneiras. Primeiro, qualificando-se para tirar proveito deste canal rápido de escoamento, que poderá facilitar sua participação no mercado metropolitano e facilitar a exportação de seus produtos, ou ver o concorrente poder colocar seus produtos ao lado de seu pátio industrial. Sugere-se que a primeira opção seja a eleita, de forma que a expansão das empresas locais seja vista como real e efetiva. Na realidade, o risco de se contar com concorrentes, em especial do Ceará, com a efetivação da Transnordestina no trecho Pecém – Eliseu Martins, passando por Salgueiro, no Sertão Central, é maior do que a duplicação da BR 232, uma vez que as cargas sairão de trem do Porto à Salgueiro e posteriormente à Araripina reduzindo as chances de uma mercadoria se deslocar de Recife até o Sertão do Pajeú, o Sertão Central, o Sertão do São Francisco e o Sertão do Araripe, via rodoviária. Chamando a atenção para o fato de que Salgueiro, em um raio de 250 quilômetros de Salgueiro, alcançando Arcoverde, Custódia, Serra Talhada, Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande, Petrolina, Ouricuri e Araripina, a logística de distribuição de bens de consumo, material de construção, máquinas, automóveis, móveis, peças de reposição e alimentos será atendida pelo transporte ferroviário.
Aproveitando o fato de se estar discutindo a interação entre a política industrial e a logística, deve ser posta à discussão a importância estratégica da rodovia Transnordestina para o futuro de Pernambuco, de Suape e do Sertão, de modo geral. Levando-se em consideração que os primeiros comboios de vagões com milho já transitam em fase de teste entre o terminal de Bela Vista do Piauí e o Porto de Pecém, o que coloca pressão sobre a economia pernambucana de contar com abastecimento de grãos do Matopiba. A efetivação do percurso ferroviário entre o Porto de Pecém e o cerrado piauiense liga um alerta para o Porto de Suape, que chegará ao complexo agroindustrial do sul do Piauí e do Maranhão, vendo seu concorrente estabelecido, com contratos de longo prazo firmados e uma rede logística em operação. Aqui vale notar que o governo do estado do Ceará investe na duplicação da rodovia CE-060, que, na maioria de seu trajeto, corre paralelamente à ferrovia Transnordestina, visando facilitar a capacidade de entrega e escoamento de mercadorias a partir das estações de transbordo localizadas no estado.
Na realidade, o que se visualiza à frente, são riscos e oportunidades que estarão à mesa de negociação a partir de decisões internas, da capacidade de planejamento dos governos e da sociedade e, sem dúvida, do papel geopolítico do Brasil nas próximas décadas a partir de uma política externa de expansão ou restritiva.
Professor titular – UFRPE-UAST
Serra Talhada, PE, 21 de outubro de 2026







