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O agronegócio, o Brasil e os Estados Unidos

​Há uma questão ideológica em se separar a agricultura comercial ou industrial da agricultura familiar. O Brasil foi o país que mais avançou, estabelecendo critérios de área do imóvel, empregabilidade e renda. A definição do que representa Agricultura Familiar, que se deu no segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, ganhou força e se tornou, junto com a reforma agrária, a base conceitual para a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, tornando-se um marco para vários países que passaram a adotar um sistema similar.

​Por trás de tudo isto, o que se advogava era a dificuldade de um único ministério tratar com o mesmo empenho e atenção à agricultura de escala, exportadora e à pequena e média produção rural. Enquanto a primeira tem como fundamento o que ocorre nas bolsas de valores da China e dos Estados Unidos, a segunda mira nas centrais de abastecimento, feiras livres, mercadinhos e supermercados. Quem conhece os mundos das Ceasas sabe muito bem que é o personagem que, tendo um box de compra e venda ou não, com o auxílio de seu telefone celular, consegue acompanhar o preço do tomate, da cebola, do chuchu nos principais centros de abastecimento do país. Comprando a carga total do caminhão e redirecionando-a para distâncias de dois mil quilômetros.

Divulgação

​Por outro lado, mesmo fazendo sentido esta divisão entre os mundos agrícolas, não há como não se ver a propriedade rural, independentemente do tamanho e do que produza, como uma unidade de negócios. É neste sentido que o exemplo da pequena e média propriedade do Sudeste e Sul do país cabe muito bem. Seja ou não associada a uma cadeia produtiva, como a avicultura, a suíno cultura ou do leite, as cooperativas exercem um papel fundamental na organização dos proprietários de porte reduzido como uma força de reconhecido valor na economia local.

A Embrapa e os Estados Unidos na formação da elite intelectual brasileira.

​Há de se considerar que a agricultura comercial teve um grande impulso no Brasil desde os anos sessenta do século passado, quando o país apostou na expansão da cultura da soja, chamando a atenção para dois eventos ocorridos nos anos setenta. O primeiro foi a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em 1973, e a política de expansão dos programas de pós-graduação nas universidades públicas. Nesta época, por falta de profissionais qualificados no mercado, a Embrapa, inspirada na pessoa de seu primeiro Diretor Técnico Eliseu Roberto de Andrade Alves, optou por promover uma capacitação massiva de jovens brasileiros em universidades estrangeiras para cursar programas de mestrado e doutorado. A opção pelos Estados Unidos reflete a formação intelectual do grupo instituído pelo Ministro Cirne Lime para criar a Embrapa, bem como a força da agricultura americana e a qualidade das universidades rurais ou Land Grant Universities. Foram centenas de pesquisadoras e pesquisadores selecionados neste programa, o que dotou o país de uma elite intelectual extremamente qualificada, levando o país a ser um dos principais atores no mercado internacional de commodities agrícolas.

​Esta associação preferencial com os Estados Unidos não resultou apenas em professores e pesquisadores bem treinados, mas também na construção de iniciativas e projetos conjuntos, na troca de material genético, na instalação de laboratórios da Embrapa por meio do programa Labex em instituições e universidades dos Estados Unidos, França, China, Coreia do Sul, Gana e Venezuela. Importante lembrar que milhares de acessos do recurso genético da soja foram transferidos ao Brasil pela Universidade do Mississippi e pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Alinhamento estratégico, soberania ou vassalagem?

​O fato é que o Brasil, aproveitando-se da grande mudança na geopolítica mundial, que foi a ascensão da China, passou a ser um forte concorrente dos produtores americanos pelo mercado de soja, farelo de soja, carne bovina e frango. Isso provocou forte reação do agronegócio americano quanto a este avanço em seu mercado cativo. Com a disputa hegemônica entre os dois países se aprofundando, vieram à tona reações contra o acoplamento das economias os Estados Unidos e China, política construída desde o governo do presidente Richard Nixon. A temperatura foi se elevando, alcançando o ápice nos mandatos do presidente Trump, chegando ao ponto de ebulição, quando estabeleceu tarifas de até 125% aos produtos chineses. Como esperado, a retaliação foi automática e o fato é que os produtos da agricultura americana deixaram de ser atrativos comercialmente.

​Esta oportunidade foi aproveitada pelo Brasil neste início de século, tornando a China seu principal parceiro comercial. Em 2019, no início do governo do presidente Bolsonaro, o Ministério de Relações Internacionais, o Itamaraty, resolveu mudar o discurso, optando por uma relação automática com o Departamento de Estado americano e proclamando um tom belicoso contra seu principal cliente, ferindo profundamente o mercado de commodities do Brasil, forçando o Ministério de Agricultura, Abastecimento e Pecuária – MAPA a investir boa parte de sua energia para desfazer os mal-entendidos durante todo o mandato.

A agricultura empresarial subordinada ao governo Trump.

​Países não têm amigos, mas interesses. As eleições presidenciais brasileiras acabaram de ocorrer. Um dos candidatos mostrava-se tão em acordo com a política americana que ele e seus assessores chegaram a ir aos Estados Unidos pedir por aplicação de sanções comerciais contra o Brasil, o que é algo impensável em uma política externa soberana. Uma foto sua ao lado do presidente Trump, no salão oval da Casa Branca, tendo ao fundo a bandeira americana, é algo que chega ao servilismo puro. O resultado do pleito visualiza a continuidade da política externa atual e a manutenção do diálogo brasileiro entre os diversos grupos em um mundo multipolar.

​Caso contrário, estaria a agricultura de exportação brasileira diretamente atrelada à política externa americana, distanciando-se dos BRICS e passando a ser um parceiro não confiável de clientes como a Rússia, países árabes, Irã e a China. Esta mudança catastrófica foi contida, por quanto tempo não se sabe, mas sua implementação levaria o preço das comodidades a preços achatados, uma vez que a China e os demais países, sabendo que o país não teria opção de venda e teria que negociar seu excedente de produção, obrigatoriamente, em desvantagem. Aos empresários do agronegócio que consideram este momento uma opção lógica, esclareça-se que este alerte vem de alguém que admira e tem o mais profundo afeto pelos Estados Unidos, mas que sabe muito bem que o mundo dos negócios não permite aventureirismo e amadorismo.

  1. Professor titular – UFRPE-UAST.

O agronegócio, o Brasil e os Estados Unidos.

Geraldo Eugênio

O imóvel rural como unidade de negócios.

​Há uma questão ideológica em se separar a agricultura comercial ou industrial da agricultura familiar. O Brasil foi o país que mais avançou, estabelecendo critérios de área do imóvel, empregabilidade e renda. A definição do que representa Agricultura Familiar, que se deu no segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, ganhou força e se tornou, junto com a reforma agrária, a base conceitual para a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, tornando-se um marco para vários países que passaram a adotar um sistema similar.

​Por trás de tudo isto, o que se advogava era a dificuldade de um único ministério tratar com o mesmo empenho e atenção à agricultura de escala, exportadora e à pequena e média produção rural. Enquanto a primeira tem como fundamento o que ocorre nas bolsas de valores da China e dos Estados Unidos, a segunda mira nas centrais de abastecimento, feiras livres, mercadinhos e supermercados. Quem conhece os mundos das Ceasas sabe muito bem que é o personagem que, tendo um box de compra e venda ou não, com o auxílio de seu telefone celular, consegue acompanhar o preço do tomate, da cebola, do chuchu nos principais centros de abastecimento do país. Comprando a carga total do caminhão e redirecionando-a para distâncias de dois mil quilômetros.

​Por outro lado, mesmo fazendo sentido esta divisão entre os mundos agrícolas, não há como não se ver a propriedade rural, independentemente do tamanho e do que produza, como uma unidade de negócios. É neste sentido que o exemplo da pequena e média propriedade do Sudeste e Sul do país cabe muito bem. Seja ou não associada a uma cadeia produtiva, como a avicultura, a suíno cultura ou do leite, as cooperativas exercem um papel fundamental na organização dos proprietários de porte reduzido como uma força de reconhecido valor na economia local.

A Embrapa e os Estados Unidos na formação da elite intelectual brasileira.

​Há de se considerar que a agricultura comercial teve um grande impulso no Brasil desde os anos sessenta do século passado, quando o país apostou na expansão da cultura da soja, chamando a atenção para dois eventos ocorridos nos anos setenta. O primeiro foi a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em 1973, e a política de expansão dos programas de pós-graduação nas universidades públicas. Nesta época, por falta de profissionais qualificados no mercado, a Embrapa, inspirada na pessoa de seu primeiro Diretor Técnico Eliseu Roberto de Andrade Alves, optou por promover uma capacitação massiva de jovens brasileiros em universidades estrangeiras para cursar programas de mestrado e doutorado. A opção pelos Estados Unidos reflete a formação intelectual do grupo instituído pelo Ministro Cirne Lime para criar a Embrapa, bem como a força da agricultura americana e a qualidade das universidades rurais ou Land Grant Universities. Foram centenas de pesquisadoras e pesquisadores selecionados neste programa, o que dotou o país de uma elite intelectual extremamente qualificada, levando o país a ser um dos principais atores no mercado internacional de commodities agrícolas.

​Esta associação preferencial com os Estados Unidos não resultou apenas em professores e pesquisadores bem treinados, mas também na construção de iniciativas e projetos conjuntos, na troca de material genético, na instalação de laboratórios da Embrapa por meio do programa Labex em instituições e universidades dos Estados Unidos, França, China, Coreia do Sul, Gana e Venezuela. Importante lembrar que milhares de acessos do recurso genético da soja foram transferidos ao Brasil pela Universidade do Mississippi e pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Alinhamento estratégico, soberania ou vassalagem?

​O fato é que o Brasil, aproveitando-se da grande mudança na geopolítica mundial, que foi a ascensão da China, passou a ser um forte concorrente dos produtores americanos pelo mercado de soja, farelo de soja, carne bovina e frango. Isso provocou forte reação do agronegócio americano quanto a este avanço em seu mercado cativo. Com a disputa hegemônica entre os dois países se aprofundando, vieram à tona reações contra o acoplamento das economias os Estados Unidos e China, política construída desde o governo do presidente Richard Nixon. A temperatura foi se elevando, alcançando o ápice nos mandatos do presidente Trump, chegando ao ponto de ebulição, quando estabeleceu tarifas de até 125% aos produtos chineses. Como esperado, a retaliação foi automática e o fato é que os produtos da agricultura americana deixaram de ser atrativos comercialmente.

​Esta oportunidade foi aproveitada pelo Brasil neste início de século, tornando a China seu principal parceiro comercial. Em 2019, no início do governo do presidente Bolsonaro, o Ministério de Relações Internacionais, o Itamaraty, resolveu mudar o discurso, optando por uma relação automática com o Departamento de Estado americano e proclamando um tom belicoso contra seu principal cliente, ferindo profundamente o mercado de commodities do Brasil, forçando o Ministério de Agricultura, Abastecimento e Pecuária – MAPA a investir boa parte de sua energia para desfazer os mal-entendidos durante todo o mandato.

A agricultura empresarial subordinada ao governo Trump.

​Países não têm amigos, mas interesses. As eleições presidenciais brasileiras acabaram de ocorrer. Um dos candidatos mostrava-se tão em acordo com a política americana que ele e seus assessores chegaram a ir aos Estados Unidos pedir por aplicação de sanções comerciais contra o Brasil, o que é algo impensável em uma política externa soberana. Uma foto sua ao lado do presidente Trump, no salão oval da Casa Branca, tendo ao fundo a bandeira americana, é algo que chega ao servilismo puro. O resultado do pleito visualiza a continuidade da política externa atual e a manutenção do diálogo brasileiro entre os diversos grupos em um mundo multipolar.

​Caso contrário, estaria a agricultura de exportação brasileira diretamente atrelada à política externa americana, distanciando-se dos BRICS e passando a ser um parceiro não confiável de clientes como a Rússia, países árabes, Irã e a China. Esta mudança catastrófica foi contida, por quanto tempo não se sabe, mas sua implementação levaria o preço das comodidades a preços achatados, uma vez que a China e os demais países, sabendo que o país não teria opção de venda e teria que negociar seu excedente de produção, obrigatoriamente, em desvantagem. Aos empresários do agronegócio que consideram este momento uma opção lógica, esclareça-se que este alerte vem de alguém que admira e tem o mais profundo afeto pelos Estados Unidos, mas que sabe muito bem que o mundo dos negócios não permite aventureirismo e amadorismo.

  1. Professor titular – UFRPE-UAST.

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