Dentro da lógica americana, tarifar as importações seria uma forma de reconquistar os mercados, proteger o produtor local, atemorizar os países amigos e inimigos, lançar ao lixo os tratados internacionais de livre comércio e ditar as regras do jogo. Para tanto, além de contarem com um governo forte, mesmo que inconsistente e imprudente, teriam à disposição líderes títeres, serviçais a serviço dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe e alguns outros na África e na Ásia.
O tiro saiu pela culatra e, no caso do Brasil, apesar do discurso inicial de parte das lideranças do agronegócio, considerando que a cultura do tarifaço seria do governo brasileiro por não atender aos ditames de Washington, o que se viu foi um movimento de solidariedade internacional, fazendo com que as sanções tivessem efeito limitado ou, em vários segmentos, nenhuma consequência, uma vez que novos clientes surgiram e passaram a comprar produtos brasileiros em uma escala ainda maior.

Em Washington, um Senado e uma Câmara de maioria republicana se omitiram perante o que diz a legislação e deram carta branca ao presidente Trump para fazer o que bem entendesse. O resultado é que o país perdeu o controle da inflação e dos preços de combustíveis e alimentos, ferindo de modo perverso a todos, mas em escala maior as famílias mais humildes. O resultado foi perverso para o partido que governa o país, com derrotas nunca esperadas, como as do Texas e do Kansas, por exemplo. O primeiro, além do petróleo, tem uma economia agrícola forte, principalmente em se tratando da produção de gado de corte, de algodão, sorgo, arroz. O segundo, em pleno maciço central, Great Plains, caracterizado por ser um estado agrícola onde prevalece a produção de trigo, milho e soja.
A maioria democrata tenderá a frear os institutos destrutivos do governo atual, voltar às conversações e tentar salvar o mundo rural americano, conservador e republicano, mas que sofreu na pele as políticas adotadas pelo governo atual, a erosão do mercado chinês, principalmente.
A busca por reconquista de mercados perdidos
A derrota republicana, apesar de até pouco tempo atrás ser considerada impensável entre os gestores do agronegócio brasileiro, que, majoritariamente, apoiaram a eleição de Trump, é bom que se registre, não trará vida fácil para o agronegócio nacional. Haverá uma pressão forte em cima do executivo para corrigir o absurdo de confundir negócios com ideologia, visando acalmar o comércio mundial e reconquistar os mercados perdidos. Não será fácil, uma vez que o Brasil é mundialmente reconhecido como um produtor confiável, uma agricultura forte, também dependente de parceiros americanos, europeus e chineses no que diz respeito à tecnologia agrícola e que oferece produtos a preços altamente competitivos.
Salve-se quem puder.
O retorno do Senado e da Câmara ao Partido Democrata não será uma mera escolha de cores. Apesar de a liderança do Partido Democrata ter sido inofensiva e complacente para com as bravatas de Trump, o que chega ao Congresso americano são jovens parlamentares prontos a colocarem em xeque os dois anos de mandato que faltam a Trump, humilhando-o com dezenas de investigações, quebra de sigilo de investigações criminais e fiscais em curso, iniciando-se pelo infame arquivo Epstein, que desmoraliza a elite ocidental, mas que mostra quão obnóxio foi o comportamento de seu presidente ao longo de décadas de permissividade. A reação de segmentos que fazem o mundo rural americano, que deram as costas aos republicanos, fará com que o Partido Democrata procure atender este público de modo que não retrocedam com as conquistas, e aí a mudança do tom e das atitudes dos Estados Unidos perante seus vizinhos e com a Europa implicará em elevar o nível de competitividade das commodities brasileiras, exigindo um trabalho mais intenso neste xadrez.
O que deve pautar o governo brasileiro
A maioria das propostas que levavam à submissão do agronegócio ao americano cessa de existir, e aí é que se abre uma agenda para mudanças radicais em alguns segmentos, conforme se segue.
Tecnologia: apesar dos avanços, o Brasil tem uma agricultura atrelada de forma dependente às empresas internacionais de produtos químicos, fármacos, equipamentos agrícolas, fertilizantes e sementes. Somente para se ter uma ideia do que isto representa, apenas após o início da guerra da Ucrânia em fevereiro de 2022, quando o Brasil soube que dependia de 80 a 90% de importação dos adubos nitrogenados, fosfatados e potássicos.
Transações comerciais: trades internacionais controlam a compra e venda de produtos agrícolas brasileiros, com uma participação limitada de atores nacionais neste tabuleiro. Neste aspecto, é importante chamar a atenção para o fato de que a totalidade do transporte dos produtos vendidos é transportada por parceiros estrangeiros.
Reação de submissão das forças do agro às políticas extremistas: as lideranças de várias entidades representantes do agronegócio flertaram com o golpe, com os acampamentos nas portas dos quartéis, com apoio incondicional aos falsos fundos que em nada apoiavam o produtor rural e com uma transferência de capital e lucros ao exterior, seja como investimentos diretos ou em aposta nas bitcoins, o que resultou em uma onda sem precedentes de falências, inadimplência de empréstimos realizados com bancos públicos e recuperações judiciais falsas.
Relegar o fator ambiental como algo secundário: por mais que os discursos apontem para outro cenário, esta tem sido a realidade. Não é à toa que a legislação ambiental brasileira é considerada insistentemente como uma ameaça por parte da bancada ruralista e de lideranças do agronegócio.
Atentar para a ameaça que surge a partir do controle democrata do governo americano e das questões internas citadas será de fundamental importância para o Brasil continuar com um agronegócio competitivo em sua face externa e capaz de continuar produzindo os alimentos necessários ao mercado de alimentos. Qualquer passo em falso resultará na estagnação das vendas, na formação de estoques exagerados e no aumento real da inadimplência.
Professor titular, UFRPE-UAST






