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O Ministério de Ciência e Tecnologia e a Ciência nos Sertões

Jornal do Sertão

Uma semana que fugiu do normal: barbarismo e violência

Em apenas duas semanas o Brasil conseguiu ser capa dos principais jornais do mundo. O The New York Times do dia 02 de janeiro de 2023, por exemplo, trouxe em destaque a foto da posse do Presidente Lula, já na sua edição online de domingo, 08 de janeiro e, na de segunda-feira, 09 de janeiro, figurava Brasília como uma praça de guerra, depredação e violência, fazendo sempre uma negativa comparação com o que ocorreu com o Capitólio Americano, 06 de janeiro de 2021, quando o então presidente Donald Trump, de seu gabinete na Casa Branca, comandava uma hoste de extremistas que tinham como finalidade destruir o Congresso, anular o processo eleitoral e atacar seus líderes, a exemplo da Presidente da Casa, a congressista Nancy Pelosi e o vice-presidente Mike Pense procurados como um troféu de caça.

Ainda bem que a situação em Washington, a duras penas, foi controlada e não impediu que o Democrata Joe Biden assumisse o comando da nação. As investigações ganharam seu curso e atualmente os participantes estão sendo processados, presos e o ex-presidente na expectativa de responder a um processo de prevaricação e traição, podendo ter que além de responsabilizar-se por danos materiais, ter seus direitos políticos revogados e hospedar-se em uma prisão por algum tempo. Lembrando que este é apenas um dos processos no diálogo do ex-presidente com o judiciário americano e dos estados de Nova Yorque, Geórgia e Flórida.

Aqui a situação não é diferente. Não será fácil a vida para os envolvidos nos atos de depredação, roubo, incitação à violência. Seus líderes e financiadores que fugindo da rotina de suas atividades acreditaram em uma narrativa falsa de aproveitadores, fazendo-os apoiar com dinheiro e outros recursos uma causa inglória: a não aceitação do resultado das eleições culminando com o dano ao patrimônio e à imagem do país.

O presidente anterior escolheu um dos piores locais para estar, neste momento. Primeiro, por não contar com a boa vontade do governo americano, de sua mídia e de uma grande parte da população. Segundo porque em voltando à mídia internacional de forma negativa quase que forçou setores importantes da sociedade americana a cobrarem em alto e bom som pedirem a revogação de seu visto e, se possível, sua expulsão dos Estados Unidos, algo no mínimo vexatório para quem considerava ter na Flórida um albergue seguro de um aliado incondicional.

Pernambuco volta a contar com o comando da Pasta de Ciência e Tecnologia

Mas o que mais nos interessa é tratar do impacto que representa o Ministério de Ciência e Tecnologia, comandado pela Sra. Luciana Santos, o dia a dia dos pernambucanos. Em duas décadas, esta é terceira ocasião que este ministério foi ocupado a partir de Pernambuco. Primeiro pelo ex-governador Eduardo Campos, que com sua habilidade e destreza conseguiu em dois anos, consolidar sua campanha e eleição para o governo do estado. Seguindo-se do Professor Sérgio Rezende, da UFPE, que vindo da FINEP, assumiu o ministério consolidando uma ação reconhecida por toda a comunidade científica brasileira. Sérgio, definitivamente foi um grande ministro e soube imprimir um ritmo que somente valorizou a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação.

Agora, pela terceira vez, uma pernambucana, a Sra. Luciana Santos, uma ex-parlamentar, ex-prefeita de Olinda e vice-governadora do estado, lidera a pasta. Experiência com a administração pública não é um capital que lhe falte.

Sua escolha se reveste de um simbolismo especial para a comunidade científica do país, assumindo uma das pastas, que em qualquer país do mundo, procurou um desenvolvimento significativo nas últimas décadas, além de ter a educação e o conhecimento como um binômio estratégico.

Vieram as escolas, agora que venham os institutos de pesquisa avançada

Aqui, no Agreste e Sertão, Ministra, a Senhora encontrará um ambiente muito diferente de quando, em 1988, quando da promulgação da Constituição de um país democrata, pois a ciência e tecnologia passaram a ser considerados ativos fundamentais à nação. Como parlamentar e vice-governadora de Pernambuco, a atual Ministra acompanhou a mudança radical do perfil socioeconômico das cidades do interior após a abertura de dezenas de universidades, campi e institutos federais em todo o Semiárido.

Grandes desafios permanecem, mas há um ambiente em que este governo poderá tirar vantagem, o da colheita dessa fecunda semeadura de conhecimento por todas as regiões e a disponibilidade de mão de obra qualificada naquela que se constituía na região problema do país, há poucas décadas.

Cabe ao Sertão de Pernambuco a instalação de ao menos dois grandes centros de pesquisa, o que otimizaria a ação das instituições de ensino superior e ao mesmo tempo se atenderia a uma agenda de futuro demandada pela nação.

Água e defesa, uma aposta no futuro

A disponibilidade de água potável continuará sendo uma das principais demandas na maioria dos países. Apesar do Brasil contar com 12% de toda água doce do mundo, encontram-se na região amazônica. Já o Semiárido pode contar com chuvas em volume razoável, mas incertas; duas grandes bacias hidrográficas, a do Rio São Francisco e do Rio Parnaíba e seus tributários; dezenas de grandes açudes e barragens, milhares de barreiros e poços e alguns aquíferos de pequena e média escala, mas que podem ser mais bem aproveitados.

Desta feita sugere-se que o Ministério aposte na instalação de um centro especializado em gestão de secas e, consequentemente de águas, de forma que possa ser a entidade brasileira a congregar as dezenas de instituições que contam com programas de estudo e pesquisa sobre o assunto. Uma outra área a ser objeto de instalações de pesquisa avançada é a defesa. Na região central do Semiárido também cabe a instalação de um Instituto avançado em materiais, energia e ótica, ou em balística. O Brasil é um país sem inimigos, mas deve participar de fóruns e discussões sobre defesa a nível mundial de modo bem mais assertivo. Sugere-se um diálogo entre o MCTI e o Ministério de Defesa quanto ao tema. Há a necessidade de se desconcentrar as instalações de pesquisa nesta área de alguns estados do Sudeste e Sul.

O empreendedorismo além do quilômetro 130

Por último e não menos importante, tomando como exemplo que ocorreu no Vale do São Francisco, nas últimas quatro décadas, um programa nacional em apoio ao empreendedorismo, visando o aproveitamento de milhares de egressos das instituições de ensino superior se faz fundamental. O Ministério conta com a parceria privilegiada das Fundações de Amparo à Pesquisa, como a FACEPE e que pode ser de forma isolada ou em cooperação, as instituições gestoras para uma iniciativa com este escopo.

Apesar dos avanços, para muitos, a Ciência e Tecnologia de Pernambuco se esmaece ao chegar em Caruaru e seguindo até a fronteira Oeste do estado, à exceção de Petrolina que conta com instituições como a Embrapa Semiárido desde 1974. Atualmente são vários os centros de ensino superior e de pesquisa e inovação distribuídos em todo o estado capazes de ser parte do grande salto tecnológico e de desenvolvimento que a região testemunha.

Que se aproveitem os ativos acumulados nas últimas décadas e a certeza de que o ambiente de empreendedorismo é um exemplo de ousadia e sucesso presente, é o que não falta, Ministra.

1Professor Titular da UFRPE-UAST
Serra Talhada, 11 de janeiro de 2022

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