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As escolas e o mundo real, onde podemos avançar?

As Escolas e o mundo real, onde podemos avançar?

Geraldo Eugênio1

Quando do planejamento para a instalação de novas universidades, campos e institutos tecnológicos, raramente se precedem de um estudo técnico que analisa o cenário atual e o futuro da região. Na maioria dos casos, as escolhas se dão pelo que os dirigentes escolares imaginam como necessários, validando-os em assembleias populares que votam as opções de profissões que consideram prioritárias. Em boa parte dos casos, os cursos escolhidos não refletem a demanda atual de mão de obra qualificada e, em alguns casos, mesmo que a escolha seja correta, por alguma razão as recém-fundadas instituições não atraem os jovens, fazendo com que em breve salas esvaziadas sejam o lugar comum.

Que há uma tendência universal, por razões diversas, de diminuição de alunos procurando o ensino superior, isto é uma realidade. Em alguns países, o preço cobrado pelas universidades é tão alto que leva as famílias à falência ou o egresso a uma vida de penúria por não conseguir bancar o empréstimo que lhe foi concedido. Em outros casos, junta-se a esta situação o envelhecimento da população, a redução da taxa de natalidade e, consequentemente, um menor número de alunos, além do fato de que as remunerações, mesmo para aqueles que conseguem se formar em instituições de elite, são atrativas de modo que alguém invista entre cinco e oito anos para, ao concluir seus cursos, veja a continuidade para um mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Planejamento incompleto.

Ao analisarmos o assembleísmo da construção das agendas didáticas, chega-se a uma clara conclusão de que, em parte dos casos, aqueles que opinaram não conseguem enxergar o futuro da região ou de seus municípios e caem na armadilha de optarem por opções que refletem o passado, congestionadas e mal remuneradas. Um fato interessante é constatar que somente em Pernambuco, no momento, existem quinze cursos de Agronomia em funcionamento, quando a metade seria suficiente para atender à demanda. O mesmo pode ser visto em relação a outras profissões de áreas como a saúde, as ciências sociais e humanas, e quase sempre com suboferta de vagas nas engenharias, recursos hídricos, geologia, física e matemática, por exemplo.



Ao não conseguir pensar grande, a região semiárida deixa de se considerar opção para hospedar centros de excelência em defesa, biomedicina, biologia molecular, robótica, inteligência artificial e se contenta em opções caudatárias, nunca como protagonista. O estado perdeu alguns anos em um embate ilógico sobre a pertinência ou não da instalação de uma escola de sargentos, mas nunca discutiu com o Ministério da Defesa a instalação de um instituto de pesquisa em balística ou sensores, ou com o Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação de uma unidade dedicada à genômica de espécies da caatinga, mesmo não tendo dúvidas de que há uma mudança climática global em curso que o Nordeste pode ser a chave da solução de problemas para a agricultura mundial.

Parte-se da velha leitura de que ciência moderna e de alto nível deve estar reservada às capitais ou aos centros de excelência localizados no Sudeste e Sul, com uma rara exceção na região, que é a cidade de Campina Grande, mesmo tendo-se que admitir que cidades como ela, Mossoró, Caruaru, Arapiraca, Feira de Santana ficam na franja do Semiárido e não refletem a realidade climática e econômica do Sertão profundo.

O financiamento público para escolas de baixa qualidade

Sei que é doloroso, mas há uma realidade perversa que deve ser corrigida a tempo: a baixa qualidade de ensino ofertado por inúmeras escolas financiadas pelo FIES e pelo PROUNI. Aqui há uma mágica de mercado parecida com as bets, como convencer um jovem de que é melhor optar por um empréstimo que ele não tem a certeza de que poderá honrar ao ser formado, pelo ingresso em uma universidade pública que, normalmente, com uma estrutura melhor, não consegue ver suas vagas atendidas, chegando ao cúmulo de ver cursos com total inserção na economia regional sob ameaça de encerramento.

Importante que se deixe claro que não sei se há programa público mais impactante e portador do futuro do que a democratização do ensino médio e superior, ocorrida a partir de 2005. Entretanto, é importante que avaliações quinquenais sejam realizadas para ver se a expectativa criada quando da inauguração dessas unidades de ensino está sendo atendida. Um outro ponto crítico é o financiamento de bolsas e empréstimos para vagas em escolas privadas que não atendam ao padrão mínimo de qualidade, formando profissionais que não serão aproveitados no mercado de trabalho e, consequentemente, frustrando milhares de jovens que poderiam ser mais úteis como técnicos de nível médio ou tecnólogos.

O que se nota é um mecanismo de avaliação que é insuficiente, sem qualquer tipo de controle e quase sempre sem que haja consequência alguma para escolas que não oferecem condição de infraestrutura, técnica e de pessoal para o ensino superior.

Como encaixar os jovens à vida econômica regional?

Caberá ao governo federal, em parceria com os estados, colocar em prática, em âmbito nacional, um forte programa de apoio às empresas organizadas a partir dos jovens egressos dos cursos técnicos ou superiores, visando preencher um hiato entre a formatura e o primeiro emprego. Algo que pode ser rápido, mas que pode demorar, desmotivar o jovem engenheiro, odontólogo, nutricionista ou professor e não aproveitar seu esforço nem o investimento realizado com recursos públicos em sua formação. Este programa poderia ser denominado de Primeira Empresa e com certeza deve representar um investimento menor do que o de manter um aluno em uma universidade pública ou em alguns cursos ofertados por instituições privadas.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

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