Concessões de auxílio-doença por ludopatia cresceram 2.300% em dois anos no Brasil; pesquisas apontam Nordeste entre as regiões mais afetadas pela pressão financeira das apostas
O avanço das apostas esportivas e dos jogos on-line no Brasil começa a deixar marcas que ultrapassam as perdas financeiras e chegam ao ambiente de trabalho. Segundo o Ministério da Previdência Social, os afastamentos de funcionários por vício em jogos, chamado de ludopatia, dispararam no país. Dados divulgados pelo Intercept Brasil apontam que, entre junho de 2023 e abril de 2025, os auxílios-doença por ludopatia somaram 276 concessões, um crescimento de 2.300% em dois anos. Até 2022, a média anual não passava de 11 casos.
Um problema também sentido no Nordeste
Embora os números oficiais do INSS ainda não sejam detalhados por estado, levantamentos recentes mostram que o Nordeste está entre as regiões mais expostas ao avanço das bets. Pesquisa do estúdio CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, voltada especificamente a mulheres de baixa e média renda do Nordeste e do Sudeste, identificou que grande parte das apostadoras recorre às plataformas para tentar complementar a renda e pagar contas do dia a dia.
Dados nacionais da CNC (Confederação Nacional do Comércio) reforçam o tamanho do problema: os gastos das famílias brasileiras com apostas on-line cresceram 500% em três anos, ultrapassando R$ 30 bilhões por mês em março de 2026, com efeito direto sobre o aumento da inadimplência.
Fácil acesso, rotina comprometida
A explicação para o crescimento dos casos está na transformação desses jogos em uma atividade de fácil acesso, através de aplicativos de celular, tornando-se parte da rotina das pessoas, inclusive durante o expediente de trabalho.
Para a psicóloga Ana Beatriz de Oliveira, docente do Instituto de Educação Médica (Idomed), é fundamental reconhecer que a ludopatia é uma patologia que exige acompanhamento especializado. Entre os sinais de alerta estão o aumento progressivo das apostas, irritabilidade e ansiedade quando a pessoa não consegue jogar, pensamentos recorrentes sobre novas estratégias, insistência mesmo diante de prejuízos financeiros e tentativas de recuperar perdas a qualquer custo.
“Todos esses são indicativos claros de que é hora de procurar ajuda profissional”, afirma a psicóloga.
Impacto chega antes mesmo do afastamento
No ambiente profissional, a especialista explica que as consequências podem aparecer bem antes de um afastamento previdenciário formal.
“Problemas financeiros, noites mal dormidas, ansiedade, perda de concentração e preocupação constante com as apostas podem comprometer o desempenho no trabalho e a convivência com colegas”, explica Ana Beatriz.
O avanço do problema também cria um desafio direto para as empresas: o setor de recursos humanos passa a lidar com uma questão que envolve saúde mental, endividamento, produtividade e relações trabalhistas ao mesmo tempo.
Diagnóstico precoce e tratamento
A psicóloga ressalta que identificar o problema logo no início pode evitar que as perdas avancem para outras áreas da vida. “Informação, acolhimento e acesso a serviços especializados são fundamentais para que essas pessoas possam retomar sua vida”, afirma.
Sobre o tratamento, Ana Beatriz destaca que ele precisa incluir psicoterapia, além de grupos de apoio. “Encontros coletivos criam uma rede de troca e suporte, onde o paciente encontra recursos para reduzir gatilhos e prevenir recaídas”, completa.
Um problema que ainda cresce
O que de início era visto apenas como uma questão de consumo, publicidade, arrecadação e endividamento agora também influencia diretamente a saúde ocupacional de trabalhadores em idade produtiva. Os números do INSS ainda representam uma parcela pequena do total de benefícios concedidos no país, mas a tendência sugere que o impacto da dependência em apostas pode estar apenas começando a se manifestar de forma mais ampla, inclusive em regiões como o Sertão e o Agreste pernambucano.










