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Realidade e miragem presentes no Sertão

Ouvindo Noites Gregas, podcast criado pelo Prof. Cláudio Moreno, me deparo com o episódio em que ele narra a história de Trasilau, relatada em seu livro O Rio que vem da Grécia, baseado nos escritos de Heródoto, a propósito do tema ilusão e realidade. Trasilau, um jovem ateniense tido como limitado em suas faculdades mentais, vivia o dia ao redor do porto de Pireu, anotando todos os navios que aportavam e zarpavam, imaginando-se de sua propriedade. Anotava as rotas, fingia que dava ordens e considerava que toda e qualquer carga que chegava era sua. Tal qual elegantemente colocado pelo Professor Moreno, para ele não havia tempo ruim. Se algum navio afundasse, fosse atacado por piratas, se perdesse do destino, não havia problema, o que lhe enchia de alegria era o fato de que tudo, à sua vista, lhe pertencia.

Reprodução

Ao retornar de uma expedição à Sicília, seu irmão Criton ficou tão preocupado com o estado de Trasilau que contratou um médico para cuidar da saúde do irmão. O tratamento foi tão eficiente que Trasilau se curou, mas a seguir mergulhava em profunda tristeza, já que era muito mais feliz no tempo em que era louco. Era rico, não tinha que se preocupar com boletos, agenda, compromissos? Que os jovens que, aproveitando a oportunidade, cursaram o ensino médio e superior em instituições de suas cidades ou municípios vizinhos, para sobreviverem, considerem as questões familiares, produção, ganhos, despesas, lucros.

Aí é que me parece um pouco próximo do que as instituições pensam e agem em relação ao que lhes vem à frente. Tudo é tão normal que a visão não permite ver a realidade e considerar que tudo anda às mil maravilhas. Assim é o caso dos desafios da produção agrícola em dois polos distintos do estado de Pernambuco, conforme chamada a atenção em crônicas anteriores: a Chapada do Araripe e o submédio São Francisco, entre Itacuruba e Petrolândia.

Porque as instituições chegam atrasadas.

O que se extrai da história de Trasilau é que, enquanto os dois polos permaneciam esquecidos, tudo andava bem. De uma hora para outra, investidores do estado e de outras regiões do país chegaram com uma nova proposta de agricultura, apostando que não apenas a região de Petrolina-Juazeiro pode albergar uma agricultura moderna e competitiva. Esses funcionam como o médico que curou o jovem considerado o bobinho de Atenas. O fato é que, ao chegarem atrasados ao cenário da guerra, os atores suam para entender o que está ocorrendo, algumas ainda consideram que vale a pena colocar alguma dificuldade para frear o que já não tem como parar, e boa parte para ver como pode se fazer presente à nova realidade, em que as responsabilidades são chamadas às rédeas. Esta colocação serve tanto para governos de qualquer que seja o formato e amplitude, instituições de fomento, de desenvolvimento regional, bancos, formadores de opinião, a academia. Assim tem sido o que está ocorrendo em termos de perspectiva para a consolidação de um polo produtivo de grãos, para o Sertão do Araripe, e frutas e culturas industriais, como o coco, no submédio São Francisco.

Formação intelectual e desenvolvimento regional.

Nos dois casos, o pontapé se deu a partir de empresários que, por sentirem que, ou procuravam contar com outros fornecedores de matéria-prima, faliriam — isto se deu com a avicultura de Pernambuco, ou à procura de regiões mais competitivas do ponto de vista de recursos naturais, principalmente água e logística, que facilitem a exportação de sua produção in natura ou processada, a exemplo do que se observa entre Floresta e Petrolândia.

E é aí onde entra o papel das instituições de ensino, de pesquisa agropecuária, extensão e desenvolvimento. Não é que não tenham contribuído com a mudança em curso, mas em uma razão bem inferior à que delas se poderia esperar. Lembrando que as regiões em análise abrangem quatro estados do Nordeste: Bahia, Pernambuco, Piauí e Ceará. É neste contexto que se demanda das instituições de ensino e pesquisa, em primeiro lugar, que se abracem ao desenvolvimento regional como uma de suas áreas prioritárias, sob o risco de virem sempre a reboque. Abdica da proatividade e insiste em agendas que poderiam ser aposentadas, já que não se encaixam na visão do mundo que as rodeia. Em outras palavras, prendem-se ao mundo de Trasilau com receio de encarar a realidade que as envolve.

Dispor à região de jovens mais cultos, tecnicamente qualificados, e moralmente melhor preparados é fundamental, mas chegou o momento de deixar claro para os que estão dentro dessas e para os que chegam que a educação é um caminho a uma vida que permita aos jovens participar de modo mais direto do processo de desenvolvimento regional.

Exige-se um esforço da sociedade como um todo. Neste exato momento, há um edital de concurso de uma prefeitura municipal do Sertão de Itaparica que oferece vagas para engenheiros civis, engenheiros de mecânica e agrônomos com remunerações inferiores a três salários mínimos. Em que realidade vive o gestor municipal que tem a coragem de publicar uma chamada com esta oferta? Será que ele quer dizer que o conhecimento não é um ativo insubstituível, que a educação não vale a pena, que os jovens que, aproveitando a oportunidade, cursaram o ensino médio e superior em instituições de suas cidades ou municípios vizinhos, para sobreviverem devem migrar para outras regiões? Sendo o caso, não há justificativa para as lideranças regionais demandarem escolas de nível médio e superior, instalação de novas instituições de pesquisa e formação profissional. O que tem já basta, e falar de valorização da educação não passa de conversa de campanha ou de discursos de formatura.

Um novo perfil profissional

Neste ambiente há um dever de casa para as instituições de ensino, principalmente. Preparar seus jovens para encarar um cenário de guerra, em que não terão vida fácil e que, para sobreviverem, além do diploma, têm que ser competitivos, audazes, sagazes e não afetados por noção de servir à região ou de ficar perto de onde nasceram. Devem estar preparados para encarar qualquer desafio, onde quer que esses se encontrem; do contrário, alimentarão situações de desconstrução do conhecimento e da formação que com tanto esforço perseguiram.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

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