Home / Ciência e Tecnologia / Agronegócios / Semiárido em alerta para 2027

Semiárido em alerta para 2027


A viagem entre Serra Talhada e Arapiraca é um momento de avaliação das condições de clima, vegetação e produção agrícola e pecuária. Algo que faço mensalmente. Costumo dizer que este é o Sertão de Lampião. Desde onde ele nasceu passando por muito próximo de Piranhas, AL/São Francisco do Canindé/SE onde foi emboscado na grota de Anjicos. Ao passar pelos municípios de Delmiro Gouveia, Olho D’Água do Casado, pelo distrito de Piau, pertencente a Piranhas, São José da Tapera se tem a sensação de que o tempo para e por um momento alguém imagina como era trafegar no seio daquela caatinga há um século.

Chegando a Monteirópolis adentra-se na bacia leiteira de Alagoas que tem como principal município produtor, Batalha e se estende Jacaré dos Homens, Major Izidoro, Jaramataia, Caraíbas, Palmeira dos Índias e Quebrangulo. Esta região além de contar com um bom plantel de gado holandês e holando-zebu estabeleceu um sistema de manejo baseado na palma miúda, gênero Nopalea, e na silagem de milho. Uma área expressiva de cultivo desse cereal se localiza até o município de Arapiraca. Entre julho e agosto o espetáculo é lindo ao vermos roçados grandes para uma região de minifúndios coberto por um milharal em pendoamento e logo a seguir a colheita mecanizada seja para silagem ou para a colheita do grão.

Reprodução Net

Na última sexta-feira, o cenário não foi usual. O que se encontra são grandes áreas de milho pendoadas com o milho mal alcançando um metro de altura e tantas outras em que não chegou a passar de meio metro. Trocando em miúdos, uma tragédia do ponto de vista de produção de forragem para encontrar o período de estiagem anual. Mantendo contato com o amigo Gleiton Medeiros, produtor de Sergipe que nos anos anteriores também esteve com roças em Belo Monte, Alagoas, ele me descreveu um quadro tão ou ainda mais aterrador do que o de Alagoas. Este ano no Oeste e Sertão sergipano as perdas poderão alcançar 90% da colheita esperada. Algo parecido com o que vi no Sertão e Agreste de Alagoas.

Ainda nada a ver com o El Niño

Importante chamar a atenção que esta seca localizada na região do São Francisco de Alagoas e Sergipe não tem nada a ver com as previsões sobre o Super El Niño que tudo indica se aproxima da região.

Voltamos à definição de secas que, do ponto de vista geográfico pode ser geral, regional, local ou ainda se traduzir em veranicos que podem ou não afetar a produção. O paradoxo desta seca regional, entre Sergipe e Alagoas é que ao mesmo tempo o cultivo da Chapada do Araripe, em pleno Sertão de Pernambuco e Ceará foi muito bem sucedido para o milho e para a soja, com produtividades surpreendentes.

O caso é que um ciclo de seca pode ter se iniciado em 2026 e para tantas medidas emergenciais devem ser tomadas. Com certeza, a redução da produção de milho impactará duas cadeias produtivas importantes, a pecuária de leite e a avicultura. A primeira sofrendo os efeitos de uma seca prolongada ainda maior uma vez que não há sistema de produção capaz de ser lucrativo a partir do confinamento ou semiconfinamento do rebanho leiteiro a partir da aquisição de alimentos durante um período prolongado. Já a avicultura deverá estar atenta à procura de novos e velhos parceiros de suprimento de grãos na região do Matopiba e até de Goiás, assumindo que até o presente não se dá como certo, mesmo que o El Niño venha ocorrer com reduções drásticas de produção de grãos no cerrado brasileiro.

A especulação mostra suas garras

Considerando-se a ‘criatividade’ do mercado de alimentos e suas lideranças os preços do feijão dão sinais de alta, esperando-se o mesmo em relação ao milho, o que impacta diretamente não apenas as cadeias produtivas citadas mas a principal base alimentar do homem nordestino. O horizonte que se descortina é de elevações significativas no preço do flocão e dos ovos, dois componentes, ambos dependentes do suprimento de milho e principal base alimentar das famílias mais humildes do Semiárido.

A antecipação do governo em destinar um valor razoável para formação de estoques dos principais alimentos é uma medida acertada. Certas decisões devem ser tomadas antes que o gatilho da alta de preços seja acionado. Com medidas antecipadas o controle é difícil imagine-se deixando que se estabeleça um ambiente de desconfiança e caos no comércio atacadista.

Dependendo do que possa ocorrer em termos de alterações climáticas globais em 2027 haverá uma corrida por cereais para os países da América Central e, dentro do Brasil, para as destilarias de etanol à base de milho. São aspectos a serem levados em consideração para qualquer planejamento da safra 2026/27 a partir do que foi destinado para seu financiamento. A questão de refinanciamento e perdão de dívida para empresas em regime falimentar é secundária em relação ao que pode vir nos próximos anos quando, de fato, a instabilidade do clima implicará em uma seca de caráter geral.

O que esperar?

E do ponto de vista agronômico, o que se esperar na região Semiárida? Em se tratando da região do Araripe, o produtor deverá ser mais conservador quanto à produção de milho e notar que há uma opção na mesa, o sorgo granífero. Neste caso ainda há tempo para empresas produtoras de sementes contar com sementes novas em janeiro de 2027. Já em relação à soja, o plantio deverá ser realizado na menor janela de tempo possível, além de se apostar fortemente nos materiais precoces.

A região que se estende entre Sergipe, Alagoas e Agreste de Pernambuco, que não tem contato com grandes propriedades, o sorgo é uma opção de maior risco uma vez que essencialmente é um cereal cultivado mecanicamente do plantio à colheita, logo, restará tirar as lições que algumas empresas têm feito na última década ao estabelecer um sistema de avaliação contínuo e regular de híbridos adaptados à baixa disponibilidade de água e elevada temperatura.

O fato da discussão se concentrar no milho e sorgo não subestima a realidade quanto à importância da manutenção e novos plantios de palma forrageira. Esta preocupação deve estar associada a qualquer operação de crédito para produção animal no Semiárido brasileiro.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST
Serra Talhada, PE, 05 de agosto de 2026

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *