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O fantasma do submundo nas ruas: quando o jogo sujo acelera a história


A política pernambucana voltou a flertar com seus fantasmas mais sombrios neste último domingo. A aparição de cartazes apócrifos espalhados pelo Recife, contendo ataques sórdidos à governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) — inclusive tangenciando a memória de seu falecido marido, Fernando Lucena —, ultrapassou a linha tênue que separa o debate duro da abjeção eleitoral. A reação foi imediata: acionamento das polícias Civil e Federal, denúncias de violência política e um coro transversal de repúdio que incluiu adversários históricos.
Não é de hoje que a praça do Recife se agita com artilharias subterrâneas. O histórico local guarda cicatrizes profundas de campanhas onde o submundo do anonimato tentou, muitas vezes sem sucesso, ditar os rumos do voto através do choque emocional.
Quem não se recorda do clássico episódio da “banana” de Roberto Magalhães, no final dos anos 90, um gesto desastroso capturado e amplificado na reta de chegada que liquidou a fatura daquele pleito? Ou do tenso confronto de rua envolvendo o saudoso Cadoca no Pina, em 2000, cujas imagens dramáticas alteraram a temperatura política da cidade da noite para o dia? Mais recentemente, a própria disputa municipal entre os primos João Campos e Marília Arraes em 2020 veio marcada por uma forte carga de hostilidade digital e panfletagem ácida, deixando claro que os porões de campanhas costumam reativar métodos antigos sob novas roupagens.
Do lado da oposição, o prefeito e candidato João Campos apressou-se em vir a público para classificar o material como um completo absurdo, exigindo rigor nas investigações e alertando que qualquer tentativa de vincular seu nome a essa prática criminosa sofrerá rigorosas medidas judiciais. Para quem traz na bagagem a lembrança de embates passados — onde a tensão familiar e o fogo cruzado digital também marcaram terreno —, a ordem é tentar blindar a própria imagem de qualquer sombra de associação com o submundo da baixaria.
A grande questão que fica diante do episódio deste fim de semana é o seu efeito colateral na dinâmica da corrida eleitoral.
Historicamente, o eleitor do Recife possui uma sensibilidade muito particular: ele tende a execrar o golpe baixo e o apelo rasteiro quando estes ferem a dignidade humana. Ao cruzar o limite da dor pessoal e da família, os autores do material apócrifo podem ter cometido o pior erro tático possível.
A governadora, que já se mantinha na dianteira das movimentações e percepções de sufrágio, corre agora o risco — ou melhor, ganha o impulso — de ver essa vantagem se alargar de forma expressiva.
A solidariedade gerada pelo caráter desumano da agressão tende a fechar fileiras em torno de sua figura, transformando a indignação popular em um poderoso escudo político. No tabuleiro pernambucano, quem apela à baixeza nas ruas geralmente descobre, urnas apuradas à frente, que o tiro saiu pela culatra. Resta saber se os responsáveis por este triste capítulo serão descobertos e responsabilizados exemplarmente pela Justiça.

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