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Pernambuco, 24 de outubro de 2021

Educação

Arte de Pensar Claramente e evitar armadilhas do pensamento por Aloísio Sotero

A mente intuitiva é ágil, espontânea e consome pouca energia. O pensamento racional é lento, exigente e grande consumidor de energia neuronal. Lembra o autor , desde que comecei a coletar erros cognitivos, costumam me perguntar como eu consigo viver uma vida sem erros. A resposta é: não consigo. Na verdade, eu nem mesmo tento.

Postado em 23/03/2021 2021 12:06 , Educação. Atualizado em 23/03/2021 12:42

Colunista

Aloisio Sotero é professor de Finanças para Economia Digital, cofundador e professor da BAEX, Escola Internacional de Educação para Executivos e Conselheiro Editorial do Jornal do Sertão

O livro que recomendo “A Arte de Pensar Claramente – como evitar as armadilhas do pensamento e tomar decisões de forma eficaz”, de Rolf Dobelli, foi inspirado no momento atual da longa pandemia que vivemos provocada pela Covid-19, onde medidas restritivas  tornaram-se  necessárias, para conter a inconsciência das pessoas sobre  a  contaminação pelo coronavírus. Comportamentos de insensatez que prejudicam o bem comum.

Nesse contexto trago a recomendação, onde fiz a leitura e anotações há quase 4 anos e que moldura a atual crise.O autor Rolf Dobelli nasceu na Suíça. Licenciou-se em Ciências Empresariais pela Universidade de St. Gallen. Foi diretor executivo de empresas do grupo Swissair e cofundador  getAbstract, a maior produtora mundial de obras condensadas de economia.

Rolf Dobelli lembra que trafegam pela nossa mente uma quantidade enorme de pensamentos todos os dias , que dificultam  a nossa compreensão do que é mais importante e muitas vezes nos imobilizam na tomada de decisões que quebram as regras da racionalidade. 

Cabe aqui lembrar o historiador Yuval Harari em algumas de suas reflexões oportunas em um artigo recente no Financial Times, onde ele coloca as decisões políticas nessa moldura: “Por exemplo, ao decidir se devemos impor um bloqueio, não é suficiente perguntar: Quantas pessoas ficarão doentes com a Covid-19 se não impormos o bloqueio?. Devemos também perguntar: Quantas pessoas sofrerão de depressão se impormos um bloqueio? Quantas pessoas sofrerão de má nutrição? Quantos vão faltar à escola ou perder o emprego?  Quantos serão espancados e assassinados por seus cônjuges?”.

Cuidado com excesso de intuição 

A mente intuitiva é ágil, espontânea e consome pouca energia. O pensamento racional é lento, exigente e grande consumidor de energia neuronal. Lembra o autor que, desde que começou a coletar erros cognitivos, costumam lhe perguntar como consegue viver uma vida sem erros. “A resposta é: não consigo. Na verdade, eu nem mesmo tento. Como todo mundo, tomar decisões instantâneas consultando não os meus pensamentos, mas os meus sentimentos. Na maioria das vezes, troco a pergunta: “O que penso disso?”, por: “Como me sinto em relação a isso?” Falando francamente, antecipar e evitar falácias é uma tarefa custosa.

Em outras palavras, Dobelli afirma que as pessoas costumam escolher intuitivamente e depois justificar as escolhas. Muitas decisões (carreira, cônjuge, investimentos) acontecem em nível subconsciente. Uma fração de segundo depois, constroi-se  uma razão para que se tenha a sensação de que foi uma escolha consciente, quando, na verdade, não foi.

Tomar decisões é uma arte 

Em situações com consequências pouco significativas (por exemplo, pepsi normal ou diet, água normal ou gasosa), a maioria das pessoas esquece da otimização racional e deixa  a intuição assumir o controle. Pensar é se cansar. Assim, se o potencial de dano é pequeno, não esprema o cérebro, pois os erros não vão causar um desastre permanente. Você vai viver melhor assim. A natureza não parece se importar com a perfeição das nossas decisões, desde que consigamos nos virar ao longo da vida, e desde que estejamos prontos para ser racionais quando chegar a hora das grandes decisões.

Descubra sua perna boa para definir seu círculo de competência 

Outro exemplo que o autor cita e que avalio como importante é deixar a intuição assumir o controle na área de meu “círculo de competência”. Quando pratica um instrumento, você aprende as notas e diz a seus dedos como tocá-las. Com o tempo, os acordes e as cordas são internalizados. Você lê uma partitura e as suas mãos tocam as notas quase automaticamente. Warren Buffett lê balanços patrimoniais como músicos profissionais lêem partituras. Esse é o círculo de competência dele, o campo que ele entende e domina intuitivamente. 



Descubra seu círculo de competência 

Descubra, então, qual é o seu círculo de competência. Tenha uma exata noção dele.  É menor do que você pensa. Se você tiver que tomar uma decisão séria fora do círculo, use o lento e difícil pensamento racional. Para todo o resto, dê carta branca à intuição. Selecionei algumas armadilhas descritas no livro como uma referência entre 100 outras para ajudar a pensar melhor nesse momento de crise pandêmica.

Por que você deveria visitar cemitérios

Um índice de ações não é representativo para a economia de um país. Assim como a imprensa não relata de maneira representativa a maioria dos jogadores de futebol. A enorme quantidade de livros e treinadores de sucesso também deveria deixá-lo desconfiado: afinal, fracassados não escrevem livros nem dão palestras sobre seus fracassos. Aí mora o perigo.O viés de sobrevivência significa: como no dia a dia o sucesso produz maior visibilidade do que o fracasso, você superestima sistematicamente a perspectiva de sucesso.

Estudar Harvard deixa você mais inteligente? 

Essa é mais uma clássica armadilha da ilusão. Os nadadores profissionais têm esse corpo perfeito não porque treinam muito. É o oposto. São bons nadadores porque são feitos assim. Sua constituição física é um critério seletivo, não o resultado de suas atividades. Os modelos femininos fazem propaganda de produtos de beleza. Assim, muitas consumidoras pensam que os produtos as deixarão mais bonitas. Porém, não são os produtos que as fazem bonitas. Elas são bonitas. 

Na verdade, elas nasceram bonitas, e somente por isso são levadas em conta para fazer propaganda de produtos de beleza. Como no caso dos nadadores, aqui, a beleza é um critério de seleção, não um resultado. Quando confundimos critério de seleção e resultado, caímos na ilusão do corpo de nadador ou na beleza das modelos. 

Moral da história, não caia na armadilha da ilusão: onde quer que se preconize algo pelo qual valha a pena esforçar-se — músculos de aço, beleza, salário maior, vida longa, aura, felicidade —, analise bem. Antes de entrar na piscina, dê uma olhada no espelho. E seja sincero consigo mesmo.



Quando uma besteira é uma besteira 

A armadilha da prova social. A prova social é o mal por trás da bolha e do pânico na bolsa de valores. Encontra-se prova social na moda, em técnicas administrativas, no comportamento nas horas de lazer, na religião e nas dietas. A prova social pode paralisar culturas inteiras — pense em mais essa situação no suicídio coletivo em algumas seitas. Simples Assim. Quanto mais pessoas acharem uma ideia correta, mais correta essa ideia será — o que, naturalmente, é absurdo. A grande armadilha das provas sociais.

Fique atento quando ouvir a expressão “caso especial”

Essa uma perigosa armadilha que engana o nosso pensamento,  o viés da confirmação. Para o autor a expressão é o pai de todos os erros de pensamento — a tendência de interpretar novas informações de modo que sejam compatíveis com nossas teorias, visões de mundo e convicções. Em outros termos: filtramos novas informações que estão em contradição com nossas visões. Isso é perigoso. “Os fatos não deixam de existir só porque são ignorados”, disse Aldous Huxley.

Na gestão das empresas, o viés de confirmação é especialmente devastador, pois indícios contrários não são absolutamente notados ou são desconsiderados sem “dificuldades imprevistas”. O gestor  fica  cego em relação à evidência desconfirmatória  do seu pensamento. Muitas vezes, por trás dela esconde-se uma evidência desconfirmatória totalmente normal.

Faça uma pesquisa das armadilhas 

E tem mais de 95 outras armadilhas do pensamento na leitura do livro de Rolf Dobelli, por isso recomendo que faça uma pesquisa rápida no livro e identifique, entre as dezenas de armadilhas do pensamento apresentadas, aquela que tem maior impacto para você.

Quem é Aloísio Sotero: Aloísio Sotero é professor de Finanças para Economia Digital e cofundador da Baex, Escola Internacional de Educação para Executivos. Conselheiro Editorial do Jornal do Sertão.