Para o Nordeste, falar de seca é algo comum. Aqui todos sabem que, a qualquer momento, as chuvas diminuem e a região se defronta com períodos críticos que variam de um até vários anos, como foi o caso do último período de estiagem prolongada, que se estendeu de 2012 a 2017.
Nos últimos meses, o assunto mais abordado por meteorologistas, climatologistas, legisladores e gestores tem sido o Super El Niño. Relevante por si só, mas cujos efeitos não deveriam surpreender a alguém do semiárido, uma vez que, entre 2018 e 2026, ocorreram chuvas em quantidade média ou um pouco maior do que o histórico regional. A diferença do que vem ocorrendo na última década é uma gradual diminuição do volume total de água de chuva, uma maior irregularidade na distribuição e um gradual aumento de temperatura. Juntos, há de se entender que formam o cardápio próprio para uma calamidade.
Tecnologia agropecuária
E o que será que mudou em termos de tecnologia agropecuária nas áreas dependentes de chuvas? A principal tecnologia identificada pela equipe do IPA, da Estação Experimental de Arcoverde, foi a cultivar palma orelha de elefante, proveniente da Universidade de Chapingo, no México, um pouco antes do último ciclo de seca, em resposta à busca frenética por uma solução para a infestação da cochonilha do carmim, que dizimou os antigos plantios da cultivar palma gigante. Neste momento, o IPA, auxiliado por equipes da UFRPE e da UFAPE, instalou uma série de experimentos no Agreste e Sertão de Pernambuco, visando validar o desempenho agronômico e forrageiro de genótipos do gênero Opuntia, que tem como principal representante a orelha de elefante mexicana, e do gênero Opuntia, cujo carro-chefe é a palma miúda ou palma doce, com o principal objetivo de testar novos genótipos que poderão ser registrados no Sistema Nacional de Proteção de Cultivares – SNPC, gerido pelo MAPA, sabendo quais apresentam potencial produtivo superior aos melhores de cada grupo e como se comportam em uma amplitude de testes que se espalham do município de Caruaru a Araripina, passando por São Bento do Una, Arcoverde e Serra Talhada.
E quanto aos capins, tem algo de novo? O que existe de mais visível tem sido o crescimento da área cultivada no Agreste e Sertão de Alagoas e Pernambuco com híbridos de aptidão forrageira para a produção de silagem. A área cultivada com sorgo forrageiro continua sendo diminuta. Em algumas microrregiões, como o Agreste meridional, a necessidade por fibras na alimentação animal é suprida pela cana-de-açúcar dos municípios da Zona da Mata sul, como Quipapá, São Benedito e Xexéu, em Pernambuco, e Novo Lino, em Alagoas.
Em se tratando da avicultura e da suinocultura, cuja ração é fortemente dependente de milho e soja, apesar dos avanços, a dependência pelo milho produzido em Sergipe, sul do Piauí e do Maranhão e, recentemente, na Chapada do Araripe, tem se mantido constante. Do ponto de vista logístico, espera-se que a duplicação da BR 232, que ainda não saiu do projeto, e a instalação do trecho da Transnordestina entre Salgueiro e Suape possam facilitar o tráfego de cargas com esses cereais, bem como auxiliar no escoamento da carne de frango e dos ovos produzidos no Agreste do estado.
Em termos de tecnologia própria para o semiárido, há um hiato em se tratando de espécies para pastejo. Apesar de haver oferta de sementes de uma dezena ou mais de variedades, é importante que se chame a atenção para o fato de que nenhuma dessas foi desenvolvida exclusivamente para a região, sendo fruto do desenvolvimento periférico de programas de melhoramento genético montados para atender outras demandas, seja do país ou do exterior.
Infraestrutura hídrica no Nordeste
Ao se falar no bem mais precioso para o semiárido, a água, há de se convir que há muito o que ser feito em duas direções. Primeiro, na substituição de todos os sistemas considerados perdulários no uso da água. Não se pode dar ao luxo de produzir uma quantidade de grãos, frutas, hortaliças ou forragens usando-se mais água do que o necessário. O segundo aspecto diz respeito ao uso de toda a água disponível em dezenas de milhares de pequenas propriedades, aproveitando-se o fato de que a energia fotovoltaica veio, em definitivo, resolver a demanda por energia de quem vive no campo. Por melhor que seja o volume de água, o uso racional e eficiente faz a diferença em uma propriedade e na vida de seus proprietários.
Uma segunda questão, objeto de reflexões constantes, é o abastecimento de água para a dessedentação humana e animal. Não há como deixar de reconhecer que os investimentos em pequenas obras, bem como o megaprojeto conhecido popularmente como Transposição do Rio São Francisco, mudaram radicalmente a face da região Nordeste. Em um ambiente de seca grave, certamente ainda haverá a necessidade de carros-pipa distribuindo água pelos rincões do Nordeste, mas, com certeza, não será o caso do abastecimento de água nos centros urbanos do semiárido. As obras de expansão de canais e adutores continuam sendo executadas. Retornando anteontem de Araripina para Serra Talhada, pude constatar o tráfego de tubos de vinte polegadas, próprios das adutoras que servirão para abastecer uma série de localidades. Também fui informado dos recursos disponibilizados para a recuperação das cisternas danificadas pelo tempo, principalmente quanto à substituição das calhas que, quando optadas por tubos plásticos, têm a vida útil com dias contados. O sol é um eficiente devorador de plásticos.
Aperfeiçoamento do seguro agrícola
No que se refere às atividades produtivas, não há como enfrentar áreas dependentes da precipitação natural sem que haja o suporte de um bom e justo sistema de seguro agrícola. Em dois sentidos: no primeiro, referindo-se ao valor da apólice que, em parte, deve ser subsidiada pelo governo, como em qualquer outro semiárido do mundo; e, em segundo lugar, o controle dos sinistros, que deve ser dotado de sistemas eficientes de monitoramento que coíbam e evitem as fraudes. Afinal, não há sistema bancário, público ou privado, que se sustente tendo que, ano após ano, encarar bilhões de reais de refinanciamento ou perdão de dívidas, quando se sabe que parte é proveniente de manobras fraudulentas.
O fato é que, apesar das ameaças que sobrevoam nossas cabeças, o país se encontra mais preparado para administrar um período de secas do que há dez anos, por exemplo, e que se continue investindo na infraestrutura hídrica necessária, no apoio às atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação e no aumento e eficiência do crédito agrícola.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST










