Facebook jornal do sertão Instagram jornal do sertão Whatsapp jornal do sertao

Pernambuco, 24 de setembro de 2021

Economia

Nenhum outro local do mundo usa tanta tecnologia no processo produtivo como o Vale do São Francisco

Os produtores do Vale dependem muito de problemas nas safras dos países concorrentes são reféns da taxa de cambio

Postado em 21/04/2021 2021 09:53 , Economia. Atualizado em 21/04/2021 10:15

Economista João Ricardo de Lima Prof. da Facape de Petrolina, escreve quinzenalmente sobre Economia & Negócios para o JS.

 

O Vale do São Francisco é conhecido nacional e internacionalmente como um importante polo de fruticultura irrigada. É considerado o principal produtor nacional de frutas como manga e uva, mas também produz banana, coco, acerola, goiaba, melão e frutas de clima temperado como maçã e pera. Isto devido a basicamente três fatores: o sol abundante, a irrigação com as águas do Rio São Francisco e muita tecnologia empregada. Nenhum outro local do mundo usa tanta tecnologia no processo produtivo como o Vale do São Francisco. Com isto, a região consegue escalonar a produção ao longo do ano e pode ofertar fruta tanto para o mercado interno quanto o externo em qualquer semana do ano. Contudo, existe um fator importante que deve ser considerado, os custos de produção. Tecnologia custa caro. Os custos de produção da fruticultura irrigada do Vale são os mais elevados do mundo, devido a tecnologia utilizada e a quantidade de mão de obra necessária.

Os produtores dependem muito de problemas nas safras dos países concorrentes e reféns da taxa de cambio

Assim, mesmo com a qualidade das frutas e a disponibilidade anual, os produtores dependem muito de problemas nas safras dos países concorrentes (Peru, Chile, países africanos, Espanha, Itália, México, etc.) e são totalmente reféns da taxa de câmbio. A forte valorização do dólar frente ao Real, em 2020, trouxe competitividade para os produtores brasileiros e a possibilidade de grandes ganhos. É o efeito do curto prazo. O momento atual, porém, já com tanto tempo com a moeda local desvalorizada, já passa a incomodar devido o crescimento dos custos de produção. Muitos insumos têm seus preços dolarizados e quanto mais caro o dólar, mais caros os insumos e os custos de produção. E a transmissão de preços ocorre por completo, aumentou o dólar, as tabelas de preços de insumos são atualizadas. É importante ressaltar que este aumento do dólar impacta os custos de produção da economia brasileira como um todo, impacta os combustíveis e se têm novo efeito sobre os custos, refletindo em aumentos de preços e inflação. A preocupação com o aumento contínuo e generalizado dos preços fez, inclusive, o Banco Central aumentar a taxa básica de juros, em março, em 0,75 ponto percentual.

O Brasil adoece com a pandemia e empobrece com a economia

O problema é que aumento de taxas de juros é uma medida negativa quando se precisa de crescimento econômico, investimentos novos que gerem emprego e reduzam os índices recordes de desempregados no país. O Brasil adoece com a pandemia e empobrece com a economia, a cada dia, um pouco mais. Assim, se tem fortalecido a preocupação com os patamares atuais da taxa de câmbio no Brasil, denominada de flutuante sujo, ou seja, quando necessário a autoridade monetária intervém no mercado de câmbio, comprando ou vendendo a depender do que seja (desvalorizando ou valorizando a moeda nacional).

Cuidados com a armadilha cambial e consumo domestico

Acontece que se o processo atual se reverter e o Real valorizar frente ao dólar, ficará inviável para os exportadores do Vale do São Francisco enviar suas frutas para outros países. Isto já ocorreu na década passada quando o dólar caiu para menos de R$ 2,00 e deve preocupar novamente caso ele caia para menos de R$ 5,00. Assim, se tem uma armadilha cambial. No patamar atual eleva muitos os custos em geral, consequentemente, gera inflação em uma economia com muitos desempregados e perda de poder aquisitivo e diminuição do consumo doméstico, que é o principal mercado para as frutas do Vale do São Francisco. Se o dólar desvalorizar, dependendo do tamanho da desvalorização, inviabiliza as exportações. O ano de 2021 passa a ser, então, extremamente desafiador para a região.

Quem é João Ricardo Lima: Doutor em Economia Aplicada. Coordenador da Pesquisa sobre a evolução da Pandemia no Vale do São Francisco realizada pelo Colegiado de Economia da Faculdade de Petrolina (FACAPE).