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Passei por Macondo. Tudo está verde | Por Geraldo Eugênio

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST

 O sertão está verde, mesmo em julho

Nem sempre é assim. No sertão seco do Pajeú, julho é um dos meses com temperaturas mais amenas, mas seco. Este ano, conforme já discutido, ocorreu um fenômeno interessante: dois invernos ou quadra de chuva. Um que se iniciou em janeiro e chegou a março. Quem plantou nas primeiras chuvas, colheu. Aqueles que demoraram mais do que deveria amargaram os meses secos de abril e maio. A segunda quadra chuvosa, no Pajeú, se iniciou no final de maio. Na fazenda Saco, no dia 30 de junho e se estende até hoje, 11 de julho. Quem adivinhou também colherá uma segunda safra de feijão de corda ou do milho precoce, apesar do frio. O certo é que de Serra Talhada à Jatobá, o Sertão está verde. Aquele Sertão que não parece de Euclydes da Cunha ou de Graciliano Ramos, ficando mais para a zona da Mata de José Lins do Rego ou Gilberto Freyre. Uma exceção, mas que seja louvada.

 Um tringulo de memórias: Serra Talhada, Arapiraca, Recife

O viajando acostumou-se com um triângulo quase isósceles, um nome complicado para descrever esta figura geométrica quando os lados têm a mesma dimensão. De Serra à Arapiraca, alguém sai do Pajeú, se adentra no Sertão de Itaparica e entra no Sertão de Lampião. O oeste de Alagoas e as entranhas do São Francisco. É lá que ele mora, apesar de haver nascido em Serra Talhada. Todos sabem quem é o personagem, o que fez, como se foi. O fato é que são uma das figuras reverenciadas nestes confins de Sertão ao lado de Padre Cícero, o número um e de Frei Damião que vem logo a seguir.

O Sertão de Alagoas, iniciando-se por Delmiro Gouveia é bem diferente. Uma caatinga mais pujante e onde, desde há muito tempo, se inicia a bacia leiteira alagoana. O principal produto da beira da estrada é o queijo e a manteiga, onde a palma miúda reina e onde se sente a descrição das longas secas tão qual descreveu Graciliano. Antes de se adentrar pelos Sertões, há a charmosa cidade de Água Branca, notável pela Condessa, personagem real, vítima do primeiro saque de Lampião, mas que conta com seu casario secular, uma igreja linda e um sorvete de rapadura de dá inveja. Clima ameno e uma das áreas produtoras de café, no Nordeste. Também terra do embaixador Miguel Torres Paiva e o professor Maurício Leite.

Prazer em ver o Agreste e o Sertão como eles são

Ao passar por Jaramataia e entrar em terras arapiraquenses, a caatinga dá lugar a campos cultivados e terras escuras como é o caso de Folha Miúda e Canaã onde se vê bonitos plantios de milho, mandioca e fumo. A topografia levemente ondulada realça os campos cultivados mostrando-se uma verdadeira obra prima. Lindo este agreste. Agora, não se fala. Nessa região a chuva chegou no início de abril e resolveu armar a rede. Não apenas visitou, ficou admirando a paisagem e curtindo um cuscuz de milho novo e o leite com o sabor de Batalha, Jacaré dos Homens, São José da Tapera, os queijos e a manteiga de garrafa tão típica da região.

Alguém que passa por isto não deixa de lembrar o que, aquele que vieram antes, ou cantaram, admiraram e viveram a região não sentiram. O aroma que cativa, o homem com características tão distintas e seu código de honra. Simples, bruto, mas a lei da terra. E assim se perpetua.

Aí entra Macondo, o povoado mítico de Gabriel Garcia Márquez, neste percurso representado por Lagoa de São José, distrito de Bom Conselho, ao lado da divisa entre Pernambuco e Alagoas. Um lugar meio mágico entre serras e estradas sinuosas, cuja principal atração além da magia do local é um laticínio de porte médio que fica à beira da estrada. Esta empresa de base familiar não patrocina colunas ou tem algum contrato com o Jornal do Sertão, mas produz um dos melhores, senão o melhor queijo de manteiga entre o Agreste mais Meridional de Pernambuco e o Sertão de Alagoas. Confiram.

 Para não deixar de falar em agronegócio, o leite

Já que se investiu pelas principais bacias leiteiras de Alagoas e Pernambuco, vem à tona algumas demandas que o produtor de leite está à espera de seus governos. Primeiro que se valorize o produto local atualizando uma legislação preparada às pressas em tempos de seca. Esta privilegia o setor industrial deixando o produtor à própria sorte. Valoriza-se o leite em pó mais do que o leite fluido e, para completar se sinalizada para a concessão de benefícios fiscais a empresas processadoras de coprodutos da indústria láctea, provenientes de outros estados. Apesar do preço elevado do leite na prateleira, o produtor local continua no vermelho. O que tem recebido não cobre os custos. O Blog Pingos de Leite, liderado pelo Moshe Dayan, contando com o apoio de vários experts na economia leiteira têm demonstrado semana após semana. Ou se toma algumas decisões ou veremos a cadeia persistir sem resultar em prosperidade e mantendo o homem ao campo apenas pelo seu amor à terra. Sacrifício que os jovens não estão dispostos a conceder. Sendo assim, o campo se esvazia e chegará um tempo em que o queijo de coalho consumido pelos nordestinos terá origem no Centro-Oeste, no Norte ou no Sudeste, mas não no velho Sertão da mata cinza.

Primeiro me veio à mente Macondo, depois fui me perdendo pela beleza do triângulo do bode, da vaca e da cana voltando, antes que tarde a uma das principais atividades econômicas de nosso Agreste e Sertão, o leite e aqueles que dele vivem.

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