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A produção de alimento animal tornou-se uma cadeia produtiva.

O que a seca de 2012 a 2018 ensinou

O que a seca de 2012 a 2018 ensinou

Os anos finais do século passado trouxeram ao Semiárido um desafio assustador: a dizimação das plantações de palma forrageira pela cochonilha do carmim. Duas espécies de palma forrageira eram tradicionalmente cultivadas nos agrestes de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. A palma miúda ou palma doce, classificada botanicamente como do gênero Nopalea, é cultivada nas bacias leiteiras de Alagoas e Pernambuco há dezenas de anos, e a palma gigante, do gênero Opuntia, que tinha como carro-chefe a cultivar Palma Gigante, adaptada às regiões mais secas de Pernambuco e da Paraíba.

A ocorrência deste inseto praga conta com algumas versões. A primeira e mais difundida foi que o Instituto Agronômico de Pernambuco – IPA introduziu a cochonilha em sua estação de Sertânia, visando desenvolver um sistema de produção do carmim, amplamente utilizado na indústria de alimentos e de tecidos. A criação do inseto saiu do controle e iniciou-se a infestação, atingindo a cultivar Palma Gigante, predominantemente cultivada em Pernambuco e na Paraíba. Uma segunda hipótese diz respeito à disseminação descontrolada por parte de alguns produtores que, ao visitarem a estação do IPA e cientes do potencial econômico da produção do carmim, levavam junto a si segmentos ou raquetes de palma infestados, como se estivessem fazendo um grande negócio. Uma terceira hipótese indica que o principal fator que contribuiu com esta infestação em escala foi a mudança do sistema de produção da palma, que passou de uma cultura extensiva para uma agricultura sistematizada, a partir da adoção do plantio adensado da palma forrageira.

Fato é que, ao se instalar o ciclo de seca que se iniciou em 2012, parte significativa das áreas de palma forrageira havia sido substituída pela cultivar Orelha de Elefante Mexicana, um genótipo identificado como resistente ao inseto pela equipe de pesquisadores do Instituto Agronômico de Pernambuco, liderada pelo agrônomo Djalma Cordeiro dos Santos, em Arcoverde, na coleção cedida pela Universidade de Chapingo, do México. Esta introdução de material genético contou com a extrema boa vontade do professor mexicano Claudio Flores e com a persistência do então presidente do IPA, Júlio Zoé de Brito, e pode ser considerada uma das mais importantes iniciativas tomadas por uma instituição de pesquisa nas últimas décadas.

Contar com a palma forrageira é importante, mas não é suficiente para prover uma nutrição animal completa, uma vez que, apesar da energia e da água contidas nestes cactos, faltam-lhe fibras e carboidratos estruturais como a lignina, a celulose e a hemicelulose, que são fornecidos por plantas da família Poaceae, mais conhecidas como gramíneas, como é o caso do milho, sorgo, cana-de-açúcar e capins de modo geral.

A valorização da silagem

Neste cenário de escassez de alimentos, mesmo contando com a palma, produtores de vários estados — mas notadamente do Ceará — viram que plantar milho para vender toda a massa verde moída ou processar em forma de silagem era um grande negócio. A partir dessa tomada de decisão, a produção de milho como forragem estabeleceu-se como opção para o semiárido, e não é à toa que, em todas as feiras de gado que ocorrem no Nordeste semanalmente, dezenas de veículos vendem silagem em sacos plásticos espelhados, a um valor que oscila ao redor de um real o quilo.

A tendência se estabeleceu de tal forma que, quando se discute a possível ocorrência de um forte ciclo de secas a partir do que se observa em relação ao El Niño, volta a demanda por políticas públicas que possam assegurar o suprimento de alimentação animal para os plantéis de gado de corte e leite, caprinos, ovinos, suínos e para a produção avícola de Pernambuco e do Nordeste de modo geral.

O cultivo de milho deve expandir-se, como tem sido observado no estado de Alagoas nos últimos anos, bem como outras opções, como o sorgo forrageiro e a mandioca, preferencialmente. Pequenos e médios agricultores que contam com suprimento limitado de água despertam para o fato de que produzir silagem ou feno para vender a quem tem gado é um bom negócio, e mais rentável do que a própria produção animal.

A criação animal como principal atividade da área dependente de chuva

Sabe-se bem que a principal atividade econômica de um imóvel rural localizado no Agreste e no Sertão, dependente das precipitações pluviais, é a produção animal. Ocorre, porém, que, depois de séculos, a lógica da produção tem como base a formação do plantel, para somente a partir daí se pensar na demanda por água e alimento. Parte dos produtores insiste em manter um número de animais superior à capacidade de suporte da propriedade e, com isto, chega o momento em que o plantel é reduzido sem valor de mercado, restando como chance de sobrevivência apenas a aquisição de alimentos para o que restou.

Ensinamentos sobre a importância da poupança de alimento para encarar épocas secas não têm sido consolidados com facilidade, embora toda e qualquer pessoa de bom senso saiba que é indispensável e fundamental.

Sem alimento não há jogo

Desta feita, seja pelo estabelecimento de políticas públicas dirigidas ao tema, seja pela iniciativa de produtores individuais, associações ou cooperativas, consolidar uma base de produção e processamento de alimento animal que possa suprir as demandas de todo o Semiárido estará em curso, fortalecendo ainda mais a ideia de que a cadeia produtiva de alimento animal passou a ser uma opção essencial como base para mitigação de secas e equilíbrio na produção de alimentos proteicos. Esta demanda também tem como produto a valorização da água, que pode ser objeto de coleta e uso no imóvel rural do semiárido, cabendo às instituições de fomento e crédito estarem aptas a financiar iniciativas que irão demandar recursos do plano de safra, recém-lançado, seja no âmbito da agricultura familiar ou empresarial.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

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