O mandato do presidente Ernesto Geisel se estendeu de março de 1974 a março de 1979. Pleno período militar com repressão interna e alinhamento automático com os Estados Unidos em termos de política externa. Um mundo marcado pelas lutas pela libertação dos países africanos, pela derrota americana no Vietnã, por um Brasil dependente de importação de petróleo e derivados e estertores do milagre econômico brasileiro lastreado no débito da balança comercial, dos empréstimos com o Banco Mundial, com a tutela do Fundo Monetário Internacional e a renhida luta pelo retorno à democracia.
O presidente Geisel escolheu como ministro de relações internacionais o embaixador Azeredo da Silveira, que construiu com o presidente uma política externa que se diferenciava radicalmente do que adotava o Brasil até então. Este realismo pragmático apostava no cultivo de parceiros não convencionais, como os países árabes e a Ásia, notadamente a China; no apoio aos movimentos de descolonização nos países de língua portuguesa na África e Ásia; no não alinhamento servil aos Estados Unidos e na intensa busca por novos parceiros comerciais.
Lembrando das lições do amigo e embaixador Miguel Paiva, da agradável Águas Belas, em Alagoas, a presença do embaixador Ítalo Zappa, escolhido pelo chanceler para chefiar o departamento da África no Itamaraty, foi uma força inigualável em ações ousadas como o reconhecimento e instalação da representação brasileira em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau; no reconhecimento imediato do governo português após a Revolução dos Cravos e, pasmem, no reconhecimento da República Popular da China, além da abertura de embaixadas nos Emirados Árabes Unidos, no Qatar e em vários países do Oriente Médio.
Também foi o momento em que o governo brasileiro, em pleno choque com Washington, negociou o acordo nuclear Brasil-Alemanha, demonstrando quão independente e autônoma deveria ser sua política exterior.
O profissionalismo do Itamaraty
Após um lapso de quarenta e quatro anos, o Brasil resolveu mudar o rumo de suas naus e, de uma hora para outra, um transloucado ministro e um séquito de ´patriotas` que passaram a defender a narrativa de que os Estados Unidos representavam o grande defensor dos valores cristãos ocidentais e de que a ele o país deveria se irmanar em tudo, inclusive detratando seu mais importante parceiro comercial, a China. Foram quatro anos de pandemia diplomática em que honrados homens e mulheres que formam a alma do Itamaraty tiveram que se desdobrar para não ver o caos ser instalado de forma completa e irremediável.
Certamente esta ideologia, remontando às cruzadas, não poderia perdurar, mas, por outro lado, o barco continuou à deriva durante todo o período do presidente Bolsonaro, à exceção de um momento de lucidez que o fez, uma semana antes de se iniciar a guerra da Ucrânia, visitar a Rússia e negociar com o Presidente Putin a continuidade do suprimento de fertilizantes fosfatados e potássicos, elementos estratégicos para o agronegócio nacional.
O fortalecimento da diplomacia “soft”, os adidos agrícolas
Após este apagão, o país, em 2023, teve que lutar para recompor sua presença e respeito entre a comunidade internacional, concentrando-se no fortalecimento dos BRICS, no posicionamento digno com os Estados Unidos, Rússia, China e União Europeia, e investindo na negociação do acordo entre o natimorto Mercosul e a ferida União Europeia.
Mesmo encontrando-se em uma situação econômica bem mais vulnerável do que a que encontrou em 2003, o governo procurou restabelecer as iniciativas de aproximação com países em ascensão, fortalecendo o papel de seus adidos comerciais e agrícolas, cujas áreas passaram a ser partes essenciais do novo Itamaraty. Dentre o que foi sacrificado pela antiga ordem se destaca o programa Labex, da Embrapa, que tinha duas vertentes claras. Com os países desenvolvidos — Estados Unidos, França, China, Coreia do Sul — contar com laboratórios de prospecção recíprocos em que se procurava estar atualizado com o que de mais refinado em termos de ciências agrícolas tinham esses países, e como projetos parceiros poderiam ser colocados em andamento. A segunda vertente, muito criticada por alguns, se direcionou aos países em desenvolvimento que poderiam ser beneficiados com o desenvolvimento rural brasileiro, destacando-se aí os escritórios na Venezuela e em Gana, que seria responsável pela relação com os países do oeste africano.
Quando as regras deixaram de ser cumpridas
Este movimento se dava em um cenário em que, apesar da clara procura pelo controle por parte da Europa e dos Estados Unidos, as regras negociadas nos acordos de comércio, cultura e paz eram respeitadas. Este alicerce começou a ser corroído com a crise econômica de 2008, seguindo-se do primeiro mandato do presidente Trump, entre 2017 e 2021, e chegando ao máximo de tensões, agressões, bullying e desrespeito às regras gerais da democracia no segundo mandato do presidente americano, iniciado em janeiro de 2025.
O tom belicoso contra a maioria dos países, o aumento indiscriminado das tarifas de importação, a venda de armas quase à força como se deu com a Arábia Saudita, Emirados Árabes e Ucrânia, o rapto do presidente venezuelano Nicolas Maduro, e a tentativa de assalto à soberania das nações, inclusive o Brasil, demonstram claramente que esse momento exige uma política de relações internacionais do país que somente um Itamaraty com seu histórico de competência, desde que se estabeleçam diretrizes claras e dignas de uma nação independente, pode ser capaz de lidar.
O fortalecimento das parcerias com a Ásia, África e América Latina
Ao se analisar o quadro das relações comerciais brasileiras, facilmente se vê que o papel das nações asiáticas, à exceção da China e do Japão, da África e da América Latina, é extremamente modesto. O tarifaço trampiano de 2025 alertou o país para esta situação e, facilmente, o que não foi vendido para os Estados Unidos encontrou outros compradores. O exercício de agressão comercial com novas tarifas, defendidas inclusive pelas forças de extrema-direita do Brasil a partir de julho de 2026, reforça o fato de que o país terá que investir fortemente na consolidação do comércio com nações de médio e pequeno porte. Afinal de contas, não dá para se imaginar que a China continuará sendo o eterno comprador dos bens da agropecuária brasileira. Hoje, este país é provavelmente aquele que mais investimentos tem feito em pesquisa em sua agricultura, envolvendo novas máquinas, novos materiais, biologia aplicada, sistemas de informações e inteligência artificial, com o propósito específico de não depender fortemente de nenhum parceiro comercial, inclusive o Brasil.
Sendo assim, caberá ao Brasil acelerar uma política de ciência e tecnologia, inclusive para a agricultura e pecuária, que intensifique a não dependência de tecnologias estrangeiras, e uma política de comércio exterior que remonte, de forma atual, ao realismo estratégico de Azeredo da Silveira e Ítalo Zappa e de outros quadros valiosos do Itamaraty. Não é isto, caríssimo amigo Miguel Paiva Torres?
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST









