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Pernambuco, 31 de maio de 2026

Direitos Humanos

Brasil: Quatro mulheres mortas por dia

Apesar de avanços legislativos e campanhas de conscientização, os dados indicam um crescimento preocupante da violência letal contra mulheres no país, escancarando falhas na proteção, prevenção e resposta do sistema de justiça e segurança pública.

Postado em 02/08/2025 21:00

Joédson Alves/Agência Brasil

O Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde o início da série histórica em 2015. Os dados constam no 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na semana passada. O número equivale a quatro mulheres assassinadas por dia em razão de gênero.

O levantamento revela que a violência tem recorte racial e social alarmante: 63,6% das vítimas eram mulheres negras. A maioria — 70,5% — tinha entre 18 e 44 anos, faixa etária considerada produtiva e reprodutiva.

A violência doméstica segue como cenário predominante. Mais de 64% dos crimes ocorreram dentro de casa, e em 80% dos casos os autores foram companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

Apesar de avanços legislativos e campanhas de conscientização, os dados indicam um crescimento preocupante da violência letal contra mulheres no país, escancarando falhas na proteção, prevenção e resposta do sistema de justiça e segurança pública.

Os 61 socos desferidos contra Juliana Garcia, na cidade de Natal (RN), no último sábado (26), chocaram o Brasil diante da violência flagrada por uma câmera no elevador do prédio. O autor do crime, o namorado dela, Igor Cabral, foi preso em flagrante. O episódio, que chamou atenção de todo o país, traz à tona a escalada da violência no país contra a mulher: tanto pelo que é registrado, como no caso de Juliana, como também pelos aspectos subjetivos que não são possíveis de contabilizar. 

Um dos motivos pelo qual o crime chamou atenção foram os repetidos golpes no rosto da vítima, que se encontrava indefesa e caída no chão do elevador. Segundo especialistas ouvidas pela Agência Brasil, o ato carrega um simbolismo ancorado na cultura machista. “Agressores normalmente atacam o feminino do corpo humano, (incluindo) rosto, seios e ventre como um recado de que aquele corpo pertence a eles”, afirma a promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Valéria Scarance. Ela destaca que agressores praticam atos de violência imbuídos de um sentimento de posse e superioridade em relação às mulheres.

O advogado especialista em direito civil e processo civil , Alfredo Cabral de Melo, foi categórico ao comentar o avanço dos feminicídios no Brasil. É inaceitável que mulheres sigam sendo vítimas de violência extrema, mesmo sob o aparato das leis e medidas protetivas.

A persistência desses crimes reflete não só a falência do sistema de proteção, mas também uma cultura machista que ainda trata a mulher como propriedade.

Essa conduta precisa ser combatida com firmeza, com políticas públicas eficazes, punições exemplares e, sobretudo, com uma mudança urgente de mentalidade social. A sociedade precisa entender a gravidade da situação e as mulheres, se lembrarem que são vítimas, e que o silêncio e a omissão só fortalecem tais práticas. Precisamos extirpar este tipo de conduta da nossa sociedade. Segundo ele, o problema vai além da legislação e expõe falhas estruturais.

A antropóloga Analba Brazão, que é educadora do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, considera que esses ataques contra a mulher em regiões como o rosto têm como objetivo desfigurar a vítima.

“Atingir o rosto também demonstra poder. Ele quer aniquilar aquela mulher e deixar visível a sua marca”, lamenta.

Essas violências no corpo da mulher e na expressão do feminino têm uma simbologia marcante, conforme aponta Télia Negrão, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É o que acontece quando criminosos mutilam, por exemplo, os seios ou a região genitais. “Há até chutes na área da barriga da mulher como forma de destruir a sua capacidade reprodutiva posterior”, diz Télia, que faz parte do Levante Feminista contra o Feminicídio e Transfeminicídio.

Ciclo e escalada da violência

A promotora Valéria Scarance, que também é pesquisadora da temática de gênero, violência contra mulheres e feminicídio, explica que, no âmbito íntimo, as violências mais severas acontecem quando há o término da relação ou quando a vítima não atende às ordens ou desejos do agressor.  “Esses homens são ao mesmo tempo egocêntricos e inseguros porque qualquer conduta da vítima –  passar batom, usar roupas novas, trabalhar, ter amigas, sorrir – pode ser interpretada por eles como um ato de desrespeito ou traição”, exemplifica. A promotora contextualiza que, no início, as agressões ocorrem em locais pouco visíveis. “Mas à medida que a violência evolui, agressores dão socos no rosto, chutes no corpo, puxam os cabelos, apertam o pescoço das vítimas”.

Um dos dados divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública exemplifica os desafios para garantir a segurança das mulheres brasileiras: ao menos 121 vítimas foram mortas em 2023 e 2024 enquanto estavam sob medidas protetivas de urgência ativa.

“A cada 15 segundos, uma mulher está sendo espancada no Brasil. E normalmente não há câmeras como o caso que foi flagrado em Natal. Acontece em áreas isoladas dentro de casa”, diz Analba Brazão, que defende serem necessárias mais políticas públicas para estimular novas denúncias. “Muitos casos não são notificados. A gente precisa saber, por exemplo, quantos órfãos do feminicídio existem”, afirma a pesquisadora, que atua no Recife (PE).  “Nesta semana, aqui em Pernambuco, uma manicure foi assassinada a facadas, também no rosto e em outras partes do corpo. Ela estava com medida protetiva de urgência”, lamenta.

Télia Negrão entende que são necessárias políticas públicas mais profundas que consigam promover uma mudança cultural. “Nós temos julgamentos que têm elevado as punições devido aos agravantes. E, no entanto, nós não temos uma redução dos feminicídios ou da violência. Nós precisamos de mudança cultural”, acredita a pesquisadora que atua no Rio Grande do Sul.

Como denunciar

Ligue 180 faz o registro e encaminhamento de denúncias aos órgãos. É possível fazer a ligação de qualquer lugar do Brasil ou acionar o canal via chat no Whatsapp (61) 9610-0180. 

Em casos de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo número 190, em todo o Brasil. 

Outro caminho disponível é via Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos pelo canal do WhatsApp (61)99656-5008. Funciona 24 horas para denunciar qualquer tipo de violência.

Fonte Agência Brasil