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Neste 13 de agosto de 2026, estive participando do programa de Geraldo Freire, na Rádio CBN, em um painel sobre o El Niño. Apesar das previsões continuarem fortes para ocorrência de seca a partir de novembro na região semiárida, a expressão Super El Niño tornou-se menos dramática e já não é ouvida ou lida com a mesma intensidade de dois meses atrás. Sabendo-se que, independente deste fenômeno, uma seca maior pode ocorrer na região semiárida do Nordeste a qualquer momento, faz sentido se estabelecer um planejamento que analise as possíveis consequências de um menor índice de chuvas na região, considerando o abastecimento humano, animal, uso da água na agricultura, na indústria, nos serviços do comércio e turismo e na saúde humana.
Na realidade, este conjunto de senões aponta para um conceito transformado em programa, o Saúde Única, para o qual, se o planeta não é são, também não serão sãos seus habitantes, incluindo a espécie humana. Até o momento sabe-se do lançamento do programa AdaptaBrasil – MCTI (https://adaptabrasil.mcti.gov.br), que visa em uma única plataforma digital armazenar, gerir, analisar e dispor de dados sobre os impactos das mudanças climáticas no território brasileiro. Algo meritório, mas que deve seguir de um programa que fique responsável pelas execuções do que deve ser feito a partir de qualquer anomalia, seja seca, enchente, terremoto, furacão, em qualquer município.
Considerando-se que cada um dos eventos citados tem natureza distinta e que, no caso do semiárido brasileiro, o mais previsível é a seca, logo, ter foco nas iniciativas a serem postas em marcha neste exato momento é crucial para se administrar o que possa ocorrer a partir de novembro, quando em anos normais se iniciam as trovoadas na região. Sabendo que no Oeste da Bahia e Sul do Maranhão e Piauí a soja ou o algodão estão sendo plantados.
Voltemos a lupa para a Zona da Mata
Em se tratando do Agreste Meridional de Pernambuco, onde se alberga a principal bacia leiteira, há que se considerar o risco da falta de forragem e a busca desenfreada por silagem de milho, embora, como foi discutido na matéria da semana passada, não se obteve uma boa colheita em Sergipe, Alagoas e mesmo em áreas de Pernambuco, o que levará a uma maior demanda pela cana-de-açúcar a complementar a palma forrageira, seja para a pecuária de leite como para a pecuária de corte, que tem crescido nos estados de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Importante se ver que as safras de cana-de-açúcar têm sido decrescentes e, portanto, o preço do produto deverá estar em alta quando dele mais se necessitar. De qualquer maneira, é a principal fonte de celulose, hemicelulose e açúcares em uma distância relativamente curta. Cabe às associações de criadores de bovinos ficarem atentos, bem como os governos municipais e estadual, para, em se necessitando, procurar dispor de mecanismos que evitem a redução drástica dos animais durante a fase crítica da seca.
Cautela na manutenção dos rebanhos
Não são poucos os pecuaristas perguntando se devem manter seus rebanhos atuais ou se podem aguardar um pouco mais até tomarem uma decisão. O preço da carne ainda se encontra em um valor atrativo, o que não ocorre com o estabelecimento de uma estiagem, onde o valor da alimentação salta e o valor do animal diminui em proporções opostas. É neste momento que o produtor deve ser racional e ver com atenção a quantidade de volumoso e de palma forrageira que tem versus o número de animais na propriedade. Permanecer com um estoque alto de animais é um risco que pode ser evitado. Esta é a minha impressão. A pergunta que normalmente é feita é de onde virá a carne, o leite, o queijo em não se enfrentando um período de seca. Esses produtos poderão ficar um pouco mais caros, já que virão de outras regiões, entretanto, é importante se chamar a atenção que comumente se encontra nos supermercados de Recife e em cidades do Sertão, leite longa vida proveniente de laticínios do Espírito Santo e até do Rio Grande do Sul.
Apesar de tudo, nada de alarmismo
A preparação para uma situação difícil se dá avaliando os potenciais, as limitações e como se dará a solução. Normalmente, em períodos de dificuldades ou catástrofes, o que não faltam são aproveitadores que tentam tirar proveito da miséria alheia. Ficam às sombras, esperando o desastre se confirmar para apresentar soluções que, normalmente, têm como objetivo final a espoliação dos recursos públicos e das famílias mais humildes, que têm parte substancial de seus orçamentos comprometidos com a alimentação e a água potável. Neste sentido, cabe às entidades públicas responsáveis pela gestão do abastecimento estarem preparadas, com estoques, de forma que a especulação não seja posta como a única opção.
Em relação ao clima, idem. Hoje é mais do que sabido que há uma mudança climática em curso e que a cada ano as precipitações no semiárido têm diminuído e ficado mais incertas, entretanto, é importante que se deixe claro que a relação entre seca no Nordeste e o fenômeno El Niño não é sólida o suficiente para dizer que há uma catástrofe à porta. No ano de 2024, a ocorrência do El Niño não causou impacto sobre as chuvas do Agreste e Sertão. O momento é relevante, uma vez que há eleições em poucas semanas, e será importante que se avalie quais são as propostas dos candidatos a governo estadual e federal em relação ao Semiárido do Nordeste. Não se faz necessário contar com uma vara mágica, as peças de búzios ou uma bola de cristal para saber que o investimento na infraestrutura hídrica é estratégico, bem como no apoio ao pequeno e médio produtor, de modo que eles também tenham como acessar as tecnologias mais atuais e passem a usar a água com maior eficiência. Não há milagres.
Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST
Serra Talhada, PE, 12 de agosto de 2026









