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A dança que ninguém ensaiou sozinho

Fazer análise, para quem nunca fez, costuma parecer isso: alguém deitado ou sentado, falando, e outro alguém ouvindo em silêncio. Uma cena parada. Mas não é isso, é movimento. É talvez o movimento mais delicado que existe, o de duas pessoas aprendendo, aos poucos, a se sustentar mutuamente diante daquilo que uma sozinha não consegue segurar.

Pensa em dois patinadores. O gelo é liso, traiçoeiro, e para deslizar sobre ele é preciso confiar no que não se vê. Sozinho, já seria difícil. Ali são dois, e o que fazem juntos, nenhum faria sozinho. Há o momento em que um se lança e o outro precisa estar exatamente ali para segurá-lo. Ninguém contou “um, dois, três”. Os dois corpos simplesmente sabem. Esse saber que não passou pela cabeça tem nome na psicanálise. Christopher Bollas chama de conhecido não pensado aquilo que aprendemos sobre estar com o outro sem nunca termos estudado isso como lição. É saber de corpo, saber de tempo, que se constrói caindo, e caindo, até que um dia os dois se movem como parentes antigos.

Mas esse conhecido não guarda só harmonia. Guarda também os embalos que desafinaram, os ajustes que faltaram ou vieram tarde. O corpo aprende os dois: o colo que acalma e o colo que falta. E o que a análise recupera, quando funciona, não é só o encaixe perfeito. É a chance de reconhecer, no gelo com o outro, a falha antiga, e descobrir que ela pode ser diferente.

Bollas dá nome a esse instante de encaixe: momento estético. Vem de muito antes da análise, de quando éramos do tamanho de um colo, e alguém nos embalava sem que ninguém tivesse ensinado o ritmo certo. A análise, quando funciona, reencontra e às vezes reescreve esse ajuste que a fala sozinha não alcança.

E há mais. Quando a apresentação termina, o que fica não são duas pessoas que se revezaram no gelo. Fica a imagem de uma coisa terceira, a dança em si, que não pertencia a nenhum dos dois antes de começarem. Thomas Ogden chama isso de terceiro analítico, a experiência que nasce do encontro e que não é a soma dos dois, nem pertence só a um. Só existe porque os dois, com suas diferenças preservadas, aceitaram dançar. Nenhum pode fingir ser o outro. Se um se apaga no outro, a dança morre.

Só que essa filha nem sempre nasce bem. Ogden avisa que o terceiro pode virar coreografia engessada, os dois repetindo o mesmo passo, presos numa forma que já não serve. Parte do trabalho, no gelo e no consultório, é perceber quando a dança parou de ser inventada e virou apenas repetida, e ter coragem de quebrá-la.

Por isso eu disse aquilo à minha paciente. A análise não é eu decifrando o mistério dela, nem ela adivinhando o que penso. É os dois, cada um com seu peso, aprendendo, sessão a sessão, queda a queda, um jeito de se mover que nenhum livro ensina antes de ser vivido. E aqui mora o engano mais comum, pensar que a queda é só o preço até chegar na sincronia. Não é. Uma análise cheia de encaixes perfeitos e nenhuma queda seria, na verdade, suspeita, sinal de que os dois preferiram repetir o seguro a arriscar o verdadeiro.

A dança boa nunca é ensaiada até o fim. Vai sendo inventada enquanto acontece. E só se sabe se deu certo depois que os dois já saíram do gelo, de mãos dadas, sem saber muito bem explicar o que aconteceu ali dentro.

Por isso, quando alguém me pergunta se vale a pena fazer análise, eu penso nessa dupla no gelo. A vida cobra de todos nós esse tipo de patinação: arremessos, quedas, giros que exigem confiar no que não se vê. E a maioria de nós tenta atravessar isso sozinho, sem nunca ter tido a experiência de um outro corpo ali, sustentando junto, aprendendo o próprio peso a partir do peso do outro. Análise não é sobre ter respostas prontas. É sobre ter, ao menos uma vez na vida, essa dupla, e descobrir, no ajuste com outro corpo, um jeito de se mover que a solidão nunca teria ensinado.

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe

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