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A vez do sorgo, um grão pouco conhecido

Geraldo Eugênio¹

O sorgo é uma espécie pouco conhecida no Brasil, apesar de seu parentesco com o milho, já que ambos pertencem à mesma família botânica, Poaceae, até pouco tempo conhecida como Gramínea. De origem africana, já que se supõe que sua domesticação se deu na Etiópia, adaptado a áreas secas, seus grãos são destinados à alimentação animal e humana na África, na China e na Índia. Originalmente era uma planta alta, com cachos, tecnicamente denominados panículas, com grãos pequenos e de cores variadas. Há de se encontrar grãos que variam do branco ao preto, passando por cores como pérola, vermelho e amarelo.

Seu cultivo é documentado há pelo menos cinco mil anos. De seu grão, após retirado a casca, conhecida como pericarpo, e o gérmen, onde se encontra a plântula que se desenvolverá em uma nova planta, resta o endosperma, uma porção branca, rica em amido, como é o caso de todos os cereais conhecidos, tal como o milho, o trigo, o arroz, o centeio, a cevada, a aveia e os milhetos. No sul da Índia, por exemplo, sua farinha é a base de uma panqueca conhecida como chapati, que normalmente é consumida com algum molho. Esta mesma tortilha no norte do país é feita com farinha de trigo e recebe o nome de roti.

No leste da África, entre Uganda, Quênia e Tanzânia, costuma-se preparar uma polenta ou angu de textura mole, consumida moldando com a mão uma colher ou concha que é mergulhada no caldo de carne, peixe ou galinha, sendo consumido de modo coletivo. Já nas Américas, este grão era até pouco tempo basicamente usado como preparo de ração animal para bovinos, suínos e, principalmente, para aves. Retirando-se as panículas, o restante da planta, constituído pelo colmo, é uma forrageira a ser usada de modo fresco, sob forma de silagem ou feno. Também, em algumas regiões do Brasil, a palhada é intensamente utilizada como cultura de cobertura para o plantio da soja, do algodão ou do milho.

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Reduziram sua altura e lhes deram mais grãos

Da forma que a planta é conhecida na África, dificilmente seria adaptada à colheita mecânica, uma vez que, por sua altura, poucas seriam as colheitadeiras capazes de realizar um bom trabalho, evitando perdas que comprometiam seu uso como cereal mecanizável. Foi então que, nos Estados Unidos, uma série de universidades e o Departamento de Agricultura alocaram esforços no sentido de torná-lo uma planta de altura baixa, algo entre um metro e vinte e um metro e meio, que pudesse ser semeada, recebesse os devidos tratos culturais e fosse colhida como se fosse um campo de trigo ou de centeio. Deu-se o nome de Programa de Conversão do Sorgo, que reduziria a altura, aumentaria o tamanho da panícula e se prestaria à mecanização, utilizando-se do mesmo maquinário usado para soja e milho. A redução do porte da planta e o desenvolvimento de híbridos de sorgo fizeram do sorgo uma boa opção para os produtores do Corn Belt americano, que tinham suas fazendas em áreas com menor precipitação e sem acesso a águas superficiais ou subterrâneas, em estados como Kansas, Nebraska, Texas e Oklahoma.

O cultivo dos híbridos de porte menor se tornou comum na Argentina, Austrália, China, Índia e outros países que faziam uso intensivo de máquinas.

Surgiu uma nova demanda

No Brasil, o uso do grão de sorgo tem sido restrito à formulação de rações. A espécie se adapta muito bem às áreas mais secas do cerrado que não dispõem de umidade suficiente para o cultivo do milho safrinha após a soja ou o algodão. Neste caso, tem sido reconhecido como uma opção de grande valor para o sistema de plantio direto, um dos pilares tecnológicos da moderna agricultura brasileira. Vale destacar que, nas franjas do cerrado, nos estados da Bahia, do Tocantins, do Maranhão e do Piauí, é a opção de menor risco para um segundo cultivo anual. Neste cenário, foi usada com frequência uma cultivar desenvolvida pela equipe técnica do IPA quando liderada pelo professor Mário Lira, o IPA 1011.

O crescimento do cultivo do sorgo foi limitado, entre outros fatores, pelo desenvolvimento de cultivares de milho mais precoces e produtivos, capazes de gerar mais grãos por unidade de área, além da maior amplitude de uso do grão do milho, já que sempre foi o cereal mais demandado na formulação de rações e para o consumo humano na forma de farinha.

Nos últimos cinco anos, consolidou-se no país a produção de etanol de milho, tendo como modelo as destilarias dos Estados Unidos. No momento, aproximadamente um quarto do etanol produzido no Brasil tem como matéria-prima o grão de milho, o que equivale a cerca de vinte e três por cento de toda a produção. Essas destilarias se expandiram e chegaram ao sul do Piauí e do Maranhão. O deslocamento desse volume, somado à demanda do mercado externo, tende a pressionar os preços do milho, impactando o aumento dos preços do farelo e do flocão e, consequentemente, atingindo de forma drástica o preço de dois alimentos populares: a carne de frango e o cuscuz.

Opção para o cerrado e o semiárido

Uma vez que o grão de sorgo é uma opção tão eficiente quanto o milho na produção de etanol, inclusive com um coproduto conhecido como DDG, grão destilado seco (do inglês Dry Distillers Grain), rico em proteína e de alto teor nutritivo, um dos responsáveis pela ampla aceitação do grão de sorgo como matéria-prima na fabricação de etanol. Desta feita, uma vez que as destilarias em operação continuarão demandando amido, a tendência das áreas de sorgo é positiva, abrindo uma oportunidade de expansão no semiárido nordestino, de modo destacado em áreas com precipitações que oferecem maior risco ao cultivo do milho. As apostas no sorgo passaram a fazer sentido, e a tendência é o aumento de seu cultivo em todo o território nacional. Este é o cenário mais provável para os próximos anos, alcançando áreas até então pouco exploradas no Sertão de Pernambuco e em regiões similares dos estados vizinhos.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, PE, 19 de agosto de 2026

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