Home / Coluna Psicanálise no Cotidiano / Por que repetimos aquilo que sabemos que nos faz sofrer?

Por que repetimos aquilo que sabemos que nos faz sofrer?

Há sofrimentos emocionais que parecem conhecer o caminho de volta. Mudamos de relacionamento, de cidade, de trabalho, de pessoas, até de promessas feitas a nós mesmos. Ainda assim, certos padrões de comportamento encontram outras portas para chegar ao mesmo lugar. Aquilo que juramos não viver novamente reaparece, às vezes com outro rosto, mas com uma familiaridade que dói.

REPRODUÇÃO

E então a pergunta se impõe: por que repetimos aquilo que sabemos que nos faz sofrer?

Uma resposta apressada diria que não aprendemos com os erros. Outra atribuiria tudo à falta de força de vontade. A psicanálise nos convida a desconfiar dessas explicações fáceis.

Há algo desconcertante na experiência humana: não somos inteiramente governados pela busca do prazer e pela fuga do desprazer. Em Freud, a compulsão à repetição aponta para uma dimensão em que algo pode insistir e retornar para além daquilo que conscientemente desejamos.

A repetição de padrões emocionais, portanto, não pode ser reduzida a uma escolha consciente.
Há algo que insiste.

Isso não significa que exista um destino ao qual estamos condenados. Significa que nossa história não se resume àquilo que conseguimos compreender e contar sobre nós mesmos. Marcas emocionais, traumas psicológicos, conflitos internos e desejos inconscientes podem continuar atuantes sem que tenhamos plena consciência da força que exercem sobre nossas escolhas.

Por isso, saber não é o mesmo que transformar.

Podemos saber que uma relação nos faz mal e, ainda assim, permanecer nela. Podemos reconhecer um padrão e reproduzi-lo. Podemos compreender racionalmente o que nos acontece e continuar presos à mesma trama, como quem conhece o mapa e, mesmo assim, se perde no mesmo cruzamento.

Talvez a questão não seja apenas perguntar “por que isso acontece?”, mas investigar o que está sendo repetido. O que retorna? O que insiste? Que lugar essa repetição ocupa na história daquele que a vive?

Nietzsche, por outro caminho, também colocou a repetição diante de nós ao formular a hipótese do eterno retorno: e se tivéssemos de viver novamente, inúmeras vezes, a mesma existência? Em Freud, a repetição ganha outra dimensão, ligada àquilo que pode escapar ao domínio consciente e ao princípio do prazer.

São problemas diferentes, mas ambos nos confrontam com uma questão incômoda: até que ponto somos transparentes para nós mesmos?

Aquilo que sabemos sobre nós nem sempre coincide com aquilo que nos move.

Por isso, interromper um ciclo emocional repetitivo não depende apenas de decidir que ele deve acabar. Às vezes, é preciso falar sobre aquilo que insiste, aproximar-se de sua história e permitir que algo da experiência possa ser elaborado.

Na terapia psicanalítica, não se trata de encontrar uma fórmula para nunca mais sofrer, nem de receber respostas prontas sobre como viver. Trata-se de sustentar uma escuta na qual aquilo que insiste possa encontrar palavras e abrir outras possibilidades de relação consigo, com os outros e com a própria história.

Porque aquilo que permanece sem elaboração pode continuar encontrando formas de retornar: em escolhas, vínculos afetivos, conflitos emocionais e modos de viver.

Talvez não se trate simplesmente de aprender a evitar os mesmos erros.
Talvez seja poder reconhecer, naquilo que repetimos, algo da nossa história que ainda não conseguimos escutar.

E quando conseguimos escutá-lo, a pergunta pode deixar de ser apenas:
“Por que faço isso comigo?”

E tornar-se outra, mais difícil e talvez mais transformadora:
“O que essa repetição revela sobre o modo como aprendi a viver?”

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *