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Pernambuco, 31 de maio de 2026

Coluna Psicanálise no Cotidiano

A demanda por diagnóstico como identidade

A busca pelo diagnóstico, muitas vezes, é essa fome com outro nome. Não é fraqueza. É uma resposta criativa a uma necessidade real que não foi atendida.

Postado em 30/05/2026 15:49

Colunista

Algo mudou na forma como as pessoas chegam ao consultório e também na forma como falam de si mesmas nas redes sociais. Cada vez mais, antes mesmo de uma avaliação, antes de qualquer escuta, já vêm com uma hipótese pronta: “Acho que tenho TDAH.” “Li sobre borderline e me identifiquei muito.” “Meu filho deve ser autista.” O diagnóstico deixou de ser uma conclusão de um processo. Virou uma identidade que se autoatribui.

Vale perguntar: o que está acontecendo?

A psicanálise não responde com julgamento. Responde com curiosidade. E o que ela encontra, quando escuta com atenção, é que por trás dessa busca quase sempre há algo legítimo e urgente: a necessidade de ser reconhecido. De ter um nome para aquilo que dói. De finalmente fazer sentido para si mesmo e para os outros.

O nome que organiza o caos

Freud já apontava que o sofrimento sem nome é o mais difícil de suportar. Quando algo dói e não tem forma, não tem contorno, não tem explicação, a angústia se torna insuportável. O diagnóstico, nesse contexto, funciona como um organizador psíquico: dá bordas ao que estava difuso, oferece uma comunidade de iguais, transforma o caos interior em algo reconhecível. Não é pouca coisa.

Mas há uma diferença sutil, porém decisiva, entre dizer “tenho TDAH e isso explica algumas das minhas dificuldades” e dizer “sou TDAH e, é por isso que não consigo, não termino, não me relaciono.” No primeiro caso, o diagnóstico é uma ferramenta. No segundo, virou uma identidade total e, paradoxalmente, uma prisão confortável. Confortável porque encerra a pergunta. Prisão porque não deixa espaço para o sujeito.

A fome de reconhecimento

Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, nos lembrava algo fundamental: o ser humano precisa de um ambiente que o reconheça antes que ele mesmo saiba quem é. A mãe, ao olhar para o bebê, funciona como um espelho, de modo que o filho se vê no rosto dela e, por esse reconhecimento, começa a existir para si. É o que Winnicott chamou de “função de espelho”.

Quando esse reconhecimento falha; quando a criança cresce sem ser vista em sua singularidade, sem que seus afetos sejam acolhidos, sem que suas diferenças sejam compreendidas, ela carrega uma fome de reconhecimento que a acompanha pela vida adulta. A busca pelo diagnóstico, muitas vezes, é essa fome com outro nome. Não é fraqueza. É uma resposta criativa a uma necessidade real que não foi atendida.

O húngaro Sándor Ferenczi, discípulo direto de Freud, tinha um conceito que ilumina bem isso, a “confusão de línguas entre adultos e crianças”. Ferenczi mostrou como a criança, quando não é ouvida em sua própria linguagem (a do afeto, da necessidade, do desconforto), é forçada a aprender a língua do outro para sobreviver. Ela traduz seu sofrimento para uma linguagem que os adultos consigam entender, mesmo que isso signifique traí-la.

A busca pelo diagnóstico como identidade pode ser lida como uma repetição disso, o sujeito aprende a falar a língua dos manuais, das redes, das categorias diagnósticas, porque sua própria linguagem de sofrimento nunca foi legitimamente escutada. Ele não está mentindo. Está tentando se fazer entender da única forma que aprendeu.

O que as redes fazem com isso

As redes sociais amplificam esse fenômeno de forma poderosa. Comunidades inteiras se formam em torno de diagnósticos, criando pertencimento, linguagem compartilhada, narrativas de sofrimento e superação. Para quem passou anos se sentindo estranho, incompreendido, fora do lugar, encontrar um grupo que diz “eu também sinto isso” pode ser genuinamente transformador.

Mas há um risco silencioso nessa dinâmica: o de confundir identificação com identidade. De tomar o diagnóstico como destino em vez de descrição. De achar que a sigla diz tudo, quando, na verdade, ela mal começou a dizer.

O que fica de fora do nome

A psicanálise não nega o sofrimento real que está por trás dessas buscas. Tampouco nega que TDAH, TEA e transtorno borderline existem, têm bases consistentes e merecem atenção clínica séria. O que ela questiona é outra coisa: o que se perde quando um sujeito se reduz inteiramente a uma categoria?

O psicanalista francês André Green, um dos grandes pensadores da psicanálise contemporânea, nos ensinou que toda nomeação é também um tipo de exclusão. Quando damos um nome a algo, deixamos de fora tudo aquilo que o nome não conseguiu capturar. E o que fica de fora não desaparece, ele retorna de outras formas, como: sintomas que persistem, atos impulsivos, sofrimentos que não têm explicação dentro da categoria.

Porque cada pessoa que chega com um diagnóstico na mão traz, junto com ele, uma história. E é sempre a história, não a sigla, que contém o que realmente precisa ser escutado.

Uma pergunta para a escuta

Nomear o sofrimento é necessário. Mas o sujeito é sempre maior do que qualquer nome que se dê a ele. E se, em vez de confirmar ou refutar o diagnóstico que o paciente traz, o analista começasse por perguntar: “E o que mais há em você, além disso?” Talvez seja aí que a verdadeira escuta comece.

 

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe