Faço essa pergunta com certa frequência, tanto no consultório quanto palestras, e quase sempre ela é recebida com um silêncio constrangido. Não é um silêncio de ausência, mas de constatação: percebemos, juntos, que há muito tempo não fazemos nada “à toa”. E aí está, talvez, um dos sintomas mais silenciosos do nosso tempo.
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, insistiu ao longo de toda a sua obra em algo que continua desconfortável para o senso comum: brincar não é uma atividade infantil, que deveríamos abandonar com a idade. A capacidade de brincar é uma das funções mais sofisticadas do aparelho psíquico, é o que nos permite criar, no espaço intermediário entre o eu e o mundo, aquilo que o próprio autor chamou de “espaço potencial”. Ali, nem tudo é fantasia solipsista nem realidade dura e premente: é um terceiro espaço, onde a cultura, a espontaneidade e a criatividade podem nascer.
É no brincar, portanto, que se desenvolvem a criatividade, a espontaneidade e aquilo que Winnicott descrevia de forma simples e profunda: o sentimento de estar vivo, e não apenas de estar funcionando. Eis uma distinção que vale a pena ser internalizada: funcionar é executar tarefas, cumprir metas, responder demandas. Estar vivo é ter a experiência de que a vida é vivida por dentro, que há um sujeito que habita o próprio corpo e o próprio tempo.

Se observarmos nosso cotidiano, veremos que algo profundo aconteceu com essa capacidade. O consumo passivo de conteúdo (o scroll automático, a sucessão infinita de vídeos curtos, a reação rápida a estímulos em vez da elaboração lenta do próprio pensamento) ocupa o tempo que antes era do brincar, sem oferecer a mesma experiência de criação. Não se trata aqui de demonizar a tecnologia, nem de fazer o velho moralismo de que “o celular é o vilão”. As telas são o que são: ferramentas. A questão é outra.
A questão é perceber que, quando todo tempo livre vira consumo de conteúdo alheio, a capacidade de criar o próprio conteúdo interno pode atrofiar. Devanear, imaginar, entediar-se e, no tédio, produzir o próprio pensamento, tudo isso é trabalho psíquico que exige um tempo sem estímulo, um espaço sem exigência. Quando cada intervalo da vida é preenchido por uma tela, estamos nos privando do matéria-prima da qual a vida interior é feita.
E aqui convém desfazer um mal-entendido: não é apenas com as crianças que isso acontece. Frequentemente, os pais chegam ao consultório preocupados com o tempo de tela dos filhos (preocupação legítima, sem dúvida), mas vivem eles próprios numa existência na qual não sobra um único minuto sem telas, sem notificações, sem consumo. Winnicott nos ensinava que a capacidade de brincar é transmitida: o bebê brinca porque encontra em seu entorno alguém que ainda sabe brincar. Se os adultos perderam essa capacidade, é dela que precisamos partir.
Adultos também precisam de espaço potencial. Um hobby sem cobrança de resultado. Uma conversa sem agenda. Um tempo sem produto final. Uma caminhada sem contagem de passos nem registro fotográfico. A experiência psicanalítica contemporânea tem mostrado, cada vez com mais clareza, que a clínica do nosso tempo é, em grande medida, uma clínica da falta de espaço: muita demanda, muita eficiência, muita performance e pouca vida.
Recuperar a capacidade de brincar, na vida adulta, é recuperar o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida e não apenas cumprida.
Então, pergunto a você, leitor: existe algo que você fazia só por prazer, e que parou de fazer? Talvez valha a pena retomá-lo. Não para produzir nada. Apenas para lembrar, com o corpo, o que é estar vivo.
Daniel Lima Gonçalves é psicanalista, membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF, escritor colaborador deste jornal e pesquisador associado do LAPSCE/UFRPE. Atende em Venturosa, Arcoverde e online.









