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Pernambuco, 28 de maio de 2026

Agronegócios

Incertezas na economia geram preocupações na fruticultura do Vale do São Francisco

O JS foi ouvir alguns setores para saber como estão sendo impactados com essa realidade e mudanças e se, de fato, o Vale do São Francisco pode ou não entrar em crise com relação à fruticultura.

Postado em 28/04/2022 11:00

Jornalista ,

Cultivares de manga no Vale do São Francisco/ Foto: Divulgação

O Vale do São Francisco, conhecido pelas belezas naturais, também chama a atenção pelas produções e exportações de frutas em pleno Semiárido brasileiro. Contudo, o “oásis da fruticultura”, enfrenta dificuldades.

Primeiro, as consequências da pandemia do novo coronavírus ainda repercutem, seguido por um período de fortes chuvas desde o final de 2021, e para piorar ainda mais o cenário, veio a guerra da Rússia e Ucrânia que repercutiu no aumento de preços do barril de petróleo, e a importação de fertilizantes. O Brasil é totalmente dependente dos fertilizantes russos, o que prejudica o setor de Agronegócio brasileiro. E, por fim, a taxa de câmbio com a desvalorização atual do dólar.

O JS foi ouvir alguns setores para saber como estão sendo impactados com essa realidade e mudanças e se, de fato, o Vale do São Francisco pode ou não entrar em crise com relação à fruticultura.

Cotação do dólar

Jorge de Souza, gerente Técnico & Projetos da Abrafrutas/ Foto: Arquivo Pessoal

Sobre a cotação do dólar no Brasil, que está desvalorizando causa impactos diretos no agronegócio brasileiro. De acordo com Jorge de Souza, gerente Técnico & Projetos da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados – abrangência nacional), a valorização do Real frente ao Dólar tem várias razões macroeconômicas com influência na geopolítica, expectativas futuras dos mercados globais, entre outras consequências.

Jorge de Souza garantiu que para a fruticultura brasileira, esse momento traz um benefício bem específico: A redução dos custos nos insumos dolarizados. Porém, em contrapartida, ele pode se tornar uma ameaça devido “à perda de competitividade nas exportações em função da relação cambial menos favorável”, explicou. Ou seja, podem ocorrer perdas de valores nas exportações.

Tássio Lustoza, gerente Executivo da Valexport (Associação dos Produtores e Exportadores de hortigranjeiros e derivados do Vale do São Francisco – abrangência regional), avalia que a variação cambial tem a ver hoje com a guerra da Rússia x Ucrânia e que o declínio cambial impacta positivamente nos produtores do Vale do São Francisco de mangas e uvas, concordando com a visão da Abrafrutas.

Tássio explicou ao JS que alguns insumos utilizados na produção tem o seu valor cotado em dólar. “Todos os produtores poderão sentir uma amenização mesmo que imperceptível, em decorrência das altas dos insumos, nos custos de produção”, afirmou. A taxa de câmbio do Brasil tem operado abaixo dos R$ 4,75 para cada US$1,00. Lembrando que a taxa de câmbio é definida pela entrada e saída de moeda. Hoje, no país tem mais dólares chegando do que saindo.

O principal fator dessa entrada de dólares é a taxa de juros do Brasil. A Selic passou de 2% em março de 2021 para quase 12% em um ano, o que faz com que o Brasil tenha a segunda maior taxa de juros real do mundo, só atrás da taxa de juros da Rússia, que está em guerra com a Ucrânia.

A queda do dólar e seus impactos

Tássio Lustoza, gerente Executivo da Valexport/Foto: Arquivo Pessoal

No Vale do São Francisco, existem grupos distintos de produção, os exportadores e aqueles que produzem para o mercado interno. Tanto Tássio Lustoza quanto Jorge de Souza afirmaram que a queda do dólar afeta o mercado interno e externo.

 

Para o mercado interno, com o dólar desvalorizado, pode chegar ao ponto de inviabilizar as exportações, isso porque mais fruta vai ser direcionada para o mercado interno, aumentando a oferta e podendo levar a redução de preços no mercado interno.

“O exportador talvez sinta um pouco. Porém, por ter uma estrutura maior exigida pelos processos de exportação, consequentemente detém um custo maior, no entanto a mesma receita que o produtor comum”, detalhou Jorge de Souza.

Tássio Lustoza endossou a explicação da Abrafrutas. “Com a desvalorização do dólar, os insumos dolarizados ficam com preço menor, diminuindo o custo de produção das frutas e com potencial de aumentar as margens”.

Análise 

Em recorte realizado para o JS pelo consultor empresarial em comércio exterior e negócios e embaixador do LIDE PE para o tema, Maurício Laranjeira, para as mangas ocorreu diminuição de 20,5% nas exportações, entre o primeiro trimestre de 2022 e 2021. As maiores quedas foram para a Espanha, onde as exportações caíram de US$ 6,8 milhões para US$ 4,2 milhões, quase a queda como um todo, e para a Holanda, com queda de US$ 5,2 milhões para US$ 4,8 milhões.

Uvas

“A queda foi extremamente acentuada, entre os valores exportados no primeiro trimestre de 2021 e o de 2022, de 65%. As maiores quedas foram para os Estados Unidos (70% de redução), Reino Unido (também 70% de redução)”, disse Laranjeira. Já a exportação de limões permanece praticamente estável. ” A de melões e melancias apresentam queda, mas os valores não chegam a influenciar de maneira significativa nos números totais”, explicou.

Dependência cambial

Há rumores que o agronegócio hoje está dependendo mais da cotação do dólar do que da própria produtividade para fins de receita. Para a Abrafrutas e Valexport isso depende do perfil do produtor ou exportador. “Claro que o dólar valorizado frente ao real é positivo para as exportações, mas o exportador profissional e maduro, vai sempre gerenciar os seus custos e buscar aumentos de produtividade que o mantenham competitivo sempre”, expôs Jorge de Souza. “Já aquele que vive de oportunismos, mas não gerencia adequadamente a sua atividade, pode ter mais problemas, pois suas ineficiências podem ser mascaradas pela relação cambial”, declarou o gerente Técnico & Projetos da Abrafrutas.

Para Tássio Lustosa, da Valexport, as duas situações andam em conjunto, pois uma maior produtividade trará ao produtor uma margem maior para trabalhar os preços flutuantes podendo ofertar sua fruta em momentos e fornecedores distintos. “Mas sem dúvidas a cotação do dólar hoje tem sido o primeiro critério de decisão para quem vai exportar” pontuou.

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Alta dos insumos

Além da flutuação da moeda norte-americana o agronegócio vem passando por uma mudança, quando se fala em custo de produção. A situação dos altos reajustes dos insumos, tem chamado atenção dos produtores, para buscar alternativas biológicas que, em alguns casos, até substituem a adubação chegando a reduzir em até 25% o custo somente com a aquisição de fertilizantes.

Novas alternativas

Produção de uvas no Vale do São Francisco é referência no Brasil/ Foto: Divulgação

Outro ponto assertivo entre nossos entrevistados foi que apesar das dificuldades em desenhar um cenário futuro, o produtor deve sempre buscar a excelência na gestão do seu negócio, através de um rígido controle de custos, de investimentos, buscar eficiência agronômica para produtividades cada vez maiores, treinar e otimizar seus recursos humanos, evitar e diminuir desperdícios de qualquer ordem e analisar cuidadosamente os riscos da operação.

Além disso, ambos ressaltaram a importância de estar também atento às práticas comerciais e preparar-se para negociações que vão exigir mais conhecimento do mercado, do perfil de seu importador, do que está acontecendo nos seus destinos de exportação, enfim, envolver-se mais na venda de seu produto.

Tássio foi mais à frente orientando os produtores a buscar outras alternativas. “O mundo não consome apenas mangas e uvas, frutas como o caqui, maçã, pêra, entre outras podem ser produzidas em nossa região e existe demanda até mesmo no mercado interno, ou seja, oportunidades que estão passando e o produtor precisa estar atento”, concluiu.