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Pernambuco, 19 de junho de 2026

Agronegócios

Mudanças radicais nos esperam | Por Geraldo Eugênio

Programas estruturadores em algumas cadeias produtivas como a caprinocultura de leite e cortes estão sendo implantados dentro de uma nova perspectiva. Os bancos colocam em suas agendas, como vértice de qualquer política de desenvolvimento, o respeito pelo crédito

Postado em 05/05/2022 20:00

Colunista

Geraldo Eugênio é engenheiro agrônomo e professor titular da UFRPE-UAST/Foto: Arquivo Pessoal

 

O sertão secular e o que normalmente se pensa sobre a região

Diz a história que, próximo de inaugurar Brasília, o Presidente Juscelino Kubitschek convidou um grupo de granjeiros de São Paulo, acostumados a plantar hortaliças, a uma visita ao Cerrado. Não sei se este encontro se deu no Catetinho ou já no Palácio do Planalto. O fato é que o Presidente deu as boas vindas e deixou claro que os convidara para conhecerem o entorno de Brasília e virem se instalar no Brasil Central.

Ficaram de retornar ao Presidente após alguns dias de visita à região e às áreas que haviam sido escolhidas para receber os futuros produtores de alimentos. O fato é que, ao se reunirem, o que se viu foi um profundo silêncio por parte de todos e, senão uma negativa direta, já estavam comprometidos com o que faziam e não pretendiam começar do zero em uma situação tão distante da que conheciam.

Hoje, o Cerrado é um exemplo para o mundo e, diga-se com veemência, o povo e o Governo Japonês foram amigos de primeira hora e ajudaram o Brasil a entender o potencial e desenvolver uma região até então tida como incapaz de produzir em escala.

Os solos ácidos não se curvavam com facilidade aos desejos dos homens e às variedades de milho, feijão, arroz e soja, desenvolvidas para outros ambientes. Sentiam a competição do Alumínio pelo Fósforo e cresciam de modo raquítico e enfezado, com uma produtividade muito abaixo do esperado.

A busca do voto e a terra prometida

Alguém vai ter que convidar um grupo de gaúchos ou seus descendentes no Oeste da Bahia, no Sul do Maranhão ou do Piauí, para uma visita ao Semiárido. Que não se espere muito. Talvez algo mais agressivo do que a polida forma com a qual o Presidente Juscelino foi tratado, mas certamente os olhos de muitos não brilharão.

Vejo que agora é a hora de demonstrar que o semiárido não é o fim do mundo e que aqui tem uma vida econômica e cultural dinâmica onde o ambiente físico não é limitante e existe uma saudável atividade agropecuária.

Não apenas porque estamos passando por um período com chuvas mais consistentes, mas o fato de que entre três e cinco meses de chuvas, totalizando entre 500 e 700 milímetros anuais, em conexão com as tecnologias disponibilizadas nas últimas duas décadas nos deixa uma ideia clara de que não se deve menosprezar o potencial produtivo regional.

Uma nova visão se apresenta

Este cenário ainda não captado por muitos que, por conveniência ou outros interesses, preferem o estereótipo do homem “forte”, porém miserável, seja o símbolo do Nordeste. Chega de chorar miséria e a síndrome do coitadinho abandonado. O nordestino e, em particular o sertanejo também pretende ser próspero. Ele quer contar com educação para seus filhos, um bom sistema de saúde, uma boa casa com as comodidades modernas, uma alimentação saudável, uma moto ou um carro e um celular de última geração. Que mal tem nisto? Não é o que ele vê com os outros irmãos brasileiros. Então que assim o seja.

Sinais de avanço

Sinais de avanço em algumas cadeias produtivas, como a caprinocultura de leite e cortes/ Foto: Arquivo JS

Conversando recentemente com alguns técnicos e gestores de instituições de fomento e apoio tecnológico ao agronegócio regional se nota que há algo de novo. Programas estruturadores em algumas cadeias produtivas como a caprinocultura de leite e cortes estão sendo implantados dentro de uma nova perspectiva. Os bancos colocam em suas agendas, como vértice de qualquer política de desenvolvimento, o respeito pelo crédito.

Até pouco tempo, o mantra de algumas falsas lideranças tratava os empréstimos do PRONAF, por exemplo ou do programa de crédito Semiárido, como recursos a fundo perdido. Dinheiro do ´governo`, que não deveria ser pago.

Mudar a abordagem e passar a mensagem de que bom empréstimo é aquele que se consegue saldar e voltar ao agente bancário para levantar um maior é preceito fundamental para uma nova dinâmica econômica regional. Ganham todos. O comércio se fortalece, os serviços vicejam, as cidades se tornam mais cuidadas e atrativas, o que é um fato entre as cidades sertanejas. Quase sempre bem cuidadas e limpas.

Um chega para lá na inércia

O bonde começa um movimento à frente e fica claro que ele está bem mais limpo, veloz e servido por motoristas e assistentes mais afáveis e educados. Este é o sinal para que todos entrem no novo ritmo. As instituições se modernizem e que seus técnicos e servidores sintam novamente orgulho de serem servidores públicos e não necessitem se escondam por trás de prédios decadentes e veículos sucateados.

Que os jovens profissionais que enveredaram pela iniciativa privada também estejam satisfeitos com os resultados e o crescimento profissional. Que, de fato, se dê partida a um movimento virtuoso. Este é o cenário que o semiárido espera de todos, em especial dos governantes que assumirão a gestão do país, dos estados e municípios a partir de janeiro de 2023. Que não se descuide e esteja atento.

 

*Professor Titular da UFRPE-UAST