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Pernambuco, 21 de junho de 2026

Agronegócios

E a piscicultura em águas interioranas? Mais renda, mais emprego, mais nutrição | Geraldo Eugênio

Milhares de homens e mulheres que viviam ao redor de açudes públicos foram capacitados a aproveitar tudo do peixe, desde a carne aos ossos e gestão do negócio. Aprender a fazer conta e saber o que era investimento, renda e lucro.

Postado em 08/09/2022 19:00

Colunista

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST

Já fomos mais presentes

Interessante que num período de 30 anos conseguimos deixar de contar com as verdadeiras fábricas de produção de alevinos existentes em várias instituições públicas no estado de Pernambuco e em todo o Nordeste a exemplo do DNOCS, do IPA, da CODEVASF, entre outras.

O açude começou a pegar água e se iniciava a distribuição dos filhotes que entre seis e oito meses à frente se transformavam em peixes pesando entre oitocentas e mil gramas prontos para o comércio. Os imóveis que contavam com um bom volume de água ou uma fonte permanente passaram a ter uma fonte adicional de renda substancial. Não é à toa que um quilo de tilápia em qualquer feira não custa menos de dezesseis reais e o filé ao redor de quarenta, uma vez que se necessita em média dois quilos e meio de peixe para se obter um de filé devidamente limpo.

Milhares de homens e mulheres que viviam ao redor de açudes públicos foram capacitados a aproveitar tudo do peixe, desde a carne aos ossos e gestão do negócio. Aprender a fazer conta e saber o que era investimento, renda e lucro.

As instituições públicas em desmonte

No caso das águas públicas a situação logo deu sinal de cansaço. Não havia obrigação por parte dos beneficiários, somente direitos. O alevino era gratuito, a energia e até o transporte para as feiras ou locais de comercialização. Manutenção e reposição do que faltava era da responsabilidade do “governo”, bem como o controle do fluxo de água na maioria dos açudes. O resultado é que com alguns períodos de secas, a elevação dos custos, a depreciação dos estoques de peixes e a gestão paternalista sacrificou a iniciativa, passando a ser, o que não é negativo, uma opção de exploração das águas das barragens do Rio São Francisco totalmente privada, por exemplo com Itaparica sendo a melhor representação do que é possível ser feito.

A revolução que trouxe a domesticação da tilápia

É importante deixar claro que os ganhos de produtividade na produção de alimento foram excepcionais em vários ambientes e espécies. O exemplo da Tilápia é interessante. A partir da domesticação da tilápia do Nilo, Sarotherodos niloticus, de origem Africana, há menos de cem anos, o que se viu foi uma disseminação exponencial no Brasil e em toda a América do sul, alcançando a América do Norte, nas regiões mais ao sul dos Estados Unidos.

São várias as espécies de tilápia em cultivo. Um animal que se adapta a água de diferentes teores de sais, apresentando um manejo fácil, flexível e que é facilmente dominado por agricultores ou pecuaristas que se tornaram piscicultores.

No Brasil, em particular na região Amazônica, outros peixes têm sido criados, a exemplo do tambaqui, do dourado e até do surubim, este último uma espécie que quase foi extinta no Submédio e Baixo São Francisco, outrora uma das principais iguarias da região. Quando se encontra um restaurante oferendo surubim nas capitais do nordeste, quase sempre foram adquiridos do Centro Oeste e da Amazônia.

O mercado continua promissor

Tecnologia boa é aquela que se vê em aplicação de forma espontânea. No caso da piscicultura, apesar de ainda muito ter o que ser feito, somente a exploração da tilápia, conhecimento dominado e transferido, seria um grande ganho para os pequenos e médios produtores, para rendeiros, posseiros e para as empresas especializadas. O mercado, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo continua em alta e os preconceitos iniciais quanto ao sabor, a cor da carne e da pele, a presença de espinhas foram diminuídos ou desapareceram. Pratos refinados passaram a usar a tilápia em suas receitas. Por incrível que pareça, até a moqueca, que tem como peixes de referências o robalo e o abadejo, em regiões mais tropicais onde essas espécies de água fria não são facilmente encontradas chega a ser preparada com filé de tilápia. Que não nos ouçam os capixabas que têm este prato, com razão, como a diva da culinária do Espírito Santo.

Reconhecimento

Em Pernambuco, o esforço para se desenvolver a piscicultura tem um histórico em que foram envolvidas de forma direta a SUDENE, o DNOCS, com suas bases de piscicultura, a CODEVASF através de um convênio com instituições húngaras, ainda nos anos setenta do século passado, procurou difundir a aquicultura em um sistema de consórcio que incluía a produção de arroz, patos e peixes na mesma área. O IPA que através de sua base de piscicultura de Serra Talhada supria a demanda por alevinos no Sertão do Pajeú e Sertão do Moxotó. Neste caso não podendo deixar de fazer referência aos esforços de um engenheiro de pesca que liderou o processo ao longo de décadas, o Carlos Augusto Guerra e a UFRPE, primeira universidade brasileira a constar com um curso de engenharia de pesca e que ao fundar o campus da UFRPE-UAST, reafirmou uma segunda opção além do curso de Recife.

Fica para uma próxima coluna a evolução do cultivo de camarão na região Sertaneja, desde o camarão de água doce até a sacada que tem sido o cultivo de camarão de água salgada. Que se reconheça, um grande negócio.