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Pernambuco, 27 de maio de 2026

Agronegócios

Cenários para o milho no Brasil

Um cultivo essencial

Postado em 07/08/2025 18:09

Colunista

O milho para o Brasil pode ser considerado uma das principais fontes de alimento humano, animal e de uso industrial. Em todas as regiões do país, esse cereal é a principal fonte de carboidratos para a população mais humilde, seja como polenta, pamonha ou cuscuz. O milho, o arroz, a mandioca e o feijão compõem a base da alimentação do Amapá ao Rio Grande do Sul e, no que diz respeito à segurança alimentar, são um dos produtos considerados estratégicos.

Ao longo das décadas, ao se falar em milho, remetia-se ao uso alimentar como fubá e, posteriormente, o fubá pré-cozido ou flocão, o xarope de milho e o farelo na formulação de rações para aves, vacas, ovelhas, cabras e equinos. A seguir, o milho passou a ser o principal componente na indústria de cerveja que, no caso do Brasil, afora o malte usado em algumas marcas, o amido é proveniente do milho. A partir da década de 90 do século passado, o Brasil passou a participar do mercado internacional do milho em grãos, hoje sendo seu principal ator. Com produções sempre crescentes, a preocupação com o uso doméstico foi por muito tempo negligenciada. O risco de não se contar com o abastecimento suficiente era remoto mesmo com a crescente demanda externa e, em especial, a partir deste ano com a guerra tarifária imposta pelo governo americano que, de certa forma, traz retaliações à exportação de grãos a partir dos Estados Unidos, beneficiando países produtores como o Brasil, a Argentina e o Paraguai.

A produção de etanol à base de amido

Esta realidade continuou inalterada ao longo das duas últimas décadas, uma vez que o etanol combustível usado no país provinha totalmente da cana-de-açúcar. Questões de competição do uso da terra para produzir combustível ou alimento ficavam para os Estados Unidos ou a Europa, com sua produção de etanol a partir da beterraba açucareira. Eis que há cerca de cinco anos o crescente uso de milho para produção de etanol no Brasil tende a mudar o resultado desta equação. Atualmente, o Brasil produz aproximadamente 35 bilhões de litros de etanol por ano, sendo que ao redor de 22% é proveniente das destilarias que têm como matéria-prima o milho. Ao redor de 13% da produção total do milho brasileiro já é destinado à indústria de combustível, com o governo pondo em prática aumentos sucessivos do percentual do etanol na gasolina.

Cenário de choque: etanol x cuscuz

Portanto, o que se vislumbra para um futuro próximo é a competição pela demanda do milho entre a exportação, como matéria-prima para a produção de combustível, o alimento animal, o uso industrial e a alimentação humana. Aparentemente, esta questão ainda não ganhou a atenção merecida, mas antes que seja tarde e o Brasil volte a ser um país importador de milho, provavelmente dos Estados Unidos, que por enquanto têm suas vendas para a China sob controle, poderá ocorrer um forte impacto no abastecimento interno de alimentos e em seus preços.

Sendo assim, as opções à vista são claras. A primeira é o aumento da produtividade de modo mais acelerado do que o atual. Considerando-se que o milho é a espécie vegetal em que mais se investiu em tecnologia de produção nos últimos cem anos, desde o surgimento dos primeiros híbridos, a tendência é continuar com a elevação do rendimento, desde que algumas pendências técnicas sejam resolvidas. A primeira é quanto ao desenvolvimento de cultivares mais adaptados à condição de estresse hídrico e temperaturas elevadas, não apenas para o Cerrado, principal área produtora do país, mas para o semiárido brasileiro.

Em relação à região Nordeste, é sempre importante trazer o que é a produção do milho em Sergipe, que chega a 5.700 kg/ha, e a de Pernambuco, que não alcança uma tonelada por hectare, chegando neste ano a uma safra reduzida devido à irregularidade das chuvas entre janeiro e abril. O desafio às instituições de pesquisa agropecuária e às empresas de melhoramento, produção e comercialização de sementes fica posto.

A segunda opção é apostar no cultivo de plantas mais tolerantes que consigam ocupar as franjas do cerrado do Matopiba (acrônimo para Maranhão-Tocantins-Piauí-Bahia) e o semiárido como um todo. Neste quesito, o sorgo, um cereal de origem africana, desponta como principal opção. Tido como uma opção de rotação com a soja e, nos casos das regiões mais secas, como substitutivo do milho. Alguns questionamentos antigos em relação ao uso do sorgo na alimentação animal estão superados. As cultivares modernas apresentam uma taxa de conversão alimentar muito próxima ao milho.

Como o etanol produzido a partir do amido não é exclusivo do amido do milho, o sorgo pode se tornar uma excelente opção para este uso. Em alguns círculos de discussão, ainda há dúvida sobre se o DDG (Dried Distillers Grains), um coproduto da indústria de etanol, não seria tão eficaz quanto o do milho. O que parece algo de fácil solução. É bom lembrar que, quando da decisão dos Estados Unidos, no primeiro mandato do Presidente George W. Bush, ao optar pela produção de etanol a partir de milho, pesquisadores da Universidade de Nebraska-Lincoln (UNL) lideraram um programa de aproveitamento do DDG de milho, tornando-o um produto tão nobre quanto o etanol e viabilizando a indústria produtora de combustível naquele país. Cabe ao Brasil e seu aparato de ciência e tecnologia fazer algo em relação ao DDG de sorgo, uma vez que, muito em breve, a demanda por este cereal para abastecer as destilarias em operação será uma realidade. Antes que o deslocamento do milho para a produção de etanol afete de modo direto a demanda e o preço dos alimentos, em especial nas camadas mais pobres da população.

Professor titular da UFRPE-UAST.