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Pernambuco, 25 de maio de 2026

Coluna Psicanálise no Cotidiano

Identidade performática nas redes e o falso self digital

Winnicott chamava de verdadeiro self aquela parte de nós que é espontânea e viva, que não precisa ser aprovada para existir. Não é uma essência mística nem um eu profundo escondido em algum lugar inacessível.

Postado em 25/05/2026 11:00

 

Existe uma versão de você que acorda antes de você. Ela já sabe o que vai postar, como vai aparecer, qual filtro vai usar. Ela não tem inseguranças visíveis, não tem dias ruins sem narrativa, não tem silêncios sem legenda. Essa versão é cuidadosamente construída e a psicanálise tem um nome para ela: falso self.

O conceito é de Donald Winnicott, psicanalista britânico que passou décadas observando a relação entre mães e bebês. Ele percebeu que, quando o ambiente falha em acolher o que a criança realmente sente (sua espontaneidade, sua imperfeição, suas necessidades brutas), ela aprende a construir uma fachada. Uma versão adaptada de si mesma, capaz de agradar, de corresponder, de não decepcionar. Por fora, funciona. Por dentro, instala-se uma sensação persistente de vazio, de estar vivendo uma vida que não é bem a sua. Vale salientar que as redes sociais não criaram o falso self. Mas lhe deram um palco sem intervalo.

A lógica das plataformas digitais é essencialmente performática, o que existe é o que é visto, o que é visto precisa engajar, e o que engaja tende a ser a versão mais palatável e coerente de nós mesmos. O cotidiano bagunçado, a dúvida genuína, o fracasso sem redenção imediata, esses não têm boa métrica. E então aprendemos, quase sem perceber, a nos editar antes de aparecer. Não como escolha consciente, mas como condição de existência.

É aí que mora o perigo. Todos nós nos apresentamos de formas diferentes em contextos diferentes e isso é saudável, faz parte da vida social. O problema começa quando o sujeito não sabe mais o que sente antes de pensar em como vai comunicar o que sente. Quando a experiência interna só ganha realidade depois de ser postada. Quando a vida passa a ser vivida de fora para dentro e esse fora já não pertence mais a ninguém.

O que aparece então, tanto no consultório quanto na vida, é uma exaustão particular, a de ser constantemente si mesmo para os outros, sem nunca sê-lo para si de fato. Uma fadiga que não passa com descanso, porque não vem do corpo, vem de uma presença que aprendeu a se ausentar de si mesma para continuar aparecendo.

Winnicott chamava de verdadeiro self aquela parte de nós que é espontânea e viva, que não precisa ser aprovada para existir. Não é uma essência mística nem um eu profundo escondido em algum lugar inacessível. É, simplesmente, a capacidade de sentir algo e reconhecer que esse sentimento é seu, não uma produção para consumo alheio.

Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer, de tempos em tempos, não seja “quantas curtidas eu tive hoje”, mas sim, “o que eu sinto quando ninguém está olhando?” A resposta a essa pergunta é onde o sujeito real ainda mora.

 

Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe