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Pernambuco, 02 de junho de 2026

Saúde e Fé

As razões do coração | Parte 2

Três poemas à flor da pele

Postado em 01/06/2026 15:16

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).

Certamente você já ouviu a música “O que será? (À flor da pele)”, escrita por Chico Buarque em 1976 para a trilha sonora do filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Se não conhece, recomendo. Aqui está um link: O Que será (À flor da pele) Milton e Chico, Rede Globo, 1987.

Ou, talvez, você prefira Zeca Baleiro, com a música “Flor da Pele”, de 1997. Parte da letra é uma citação de outro poema que toca no mesmo assunto, “Vapor Barato”, escrito por Wally Salomão em 1987. Eis o link: Flor da Pele – Zeca Baleiro.

Os três poemas falam do coração exposto diante do sofrimento da alma humana. Fazem o diagnóstico de uma vulnerabilidade extrema, onde os nervos ficam “à flor da pele”, isto é, numa situação de hipersensibilidade que leva a um quase desespero.

Ao ouvir Chico e Milton, minha irmã, Ana Lúcia, escreveu:

“Esta música me faz ficar sem ar. Ela remexe e sacode minhas entranhas. Me faz chorar. Me faz cantar berrando. Faz- me clamar por Deus. Me faz pensar na nossa incapacidade de controlar. As inquietudes, os quereres e desejos, os sentimentos humanos indomáveis, intensos. Traz em mim também uma força no lamento coletivo. O inexorável, o desconhecido, o extremo clamor humano. Ao ouvir agora … fui às lágrimas. Uma música divina. Cortante. Rasgante. Nos faz sangrar.”

A arte da poesia, muitas vezes, tem esse poder: leva-nos a um precipício, obriga-nos a olhar para o abismo e nos deixa ali, contemplando a beleza trágica de nossa própria ruína. A música termina e o silêncio que se segue é o da própria respiração. A poesia secular não oferece redenção.

A poesia Bíblica

Por outro lado, a poesia bíblica vai do diagnóstico à cura. Veja, por exemplo, o Salmo 22 – a primeira parte do verso 1 “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”, foi citada por Jesus Cristo na cruz. Davi reconhece que Deus livrou os antepassados da angústia, mas ele próprio não encontra sossego. Descreve o estado de sua alma mergulhada em lágrimas, o coração, como cera, derretendo no seu íntimo. Está sem vigor, os ossos desconjuntados. A língua colada ao céu da boca e um nó na garganta. 

Até que surge o ponto de virada no verso 21. O salmista diz: “Tu me respondeste.” E a alegria de viver volta como o rubor na face de quem sai do gelo e se aquece diante de uma pequena fogueira. Louvores surgem dos seus lábios e do coração. Celebra o fim do sofrimento. Proclama a justiça de Deus para todas as nações presentes e futuras.

A cura bíblica para o coração à flor da pele

A cura bíblica não se dá por uma melhora gradual ou pelo esforço da vontade, mas pela rendição. Das entranhas que ardem, nasce o esvaziamento necessário para a rendição. No Salmo 22, a cura começa quando o homem para de tentar explicar sua dor e foca seu clamor inteiramente fora de si. A virada do verso 21 indica que a cura não é uma autocura; é o reconhecimento de que Deus ouviu o pedido de socorro.

O homem autossuficiente não se rende. É preciso que as entranhas em chamas derretam o orgulho para que a cura seja possível. A cura bíblica é paradoxal: ela só acontece quando paramos de lutar com nossas próprias armas. 

O cristão recorre a Deus, dobra os joelhos e descobre que é justamente na fraqueza que o poder se aperfeiçoa.

A cura pós-moderna

Verdade que na última parte da música de Zeca Baleiro, a que cita os versos de Waly Salomão, é apresentada uma saída. Diz assim: 

“Oh, sim!

Eu estou tão cansado, mas não pra dizer que não acredito mais em você.

Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus!

Mas vou tomar aquele velho navio, aquele velho navio!”

O poema tem um título sugestivo: “Vapor Barato”. Vapor é um tipo antigo de navio, aquele velho navio é barato. Não precisa de muito dinheiro para ganhar forças e dizer que vai embora, que não acredita mais na pessoa a quem se dirige (minha honey, baby!). 

A saída encontrada pelo poeta é algo fácil de obter, barato, e que tem o efeito de dar coragem para ir embora. Prazer barato e não-enfrentamento são soluções muito comuns nos dias de hoje. 

Mas isso é assunto para outra conversa. Na semana que vem, traremos a terceira parte do “Razões do Coração”.