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Pernambuco, 14 de junho de 2026

Saúde e Fé

O vapor barato e a graça preciosa | As razões do coração – parte 3

Waly Salomão nasceu em Jequié, na Bahia, em 1943. O pai, sírio, e a mãe, baiana. Foi poeta, compositor, produtor cultural, ator e ensaísta. Casado com Martha D’Angelo, teve dois filhos, Omar e Khalil, e faleceu aos 60 anos no Rio de Janeiro. Ganhou o prêmio Jabuti de literatura com o livro “Algaravias”, em 1996

Postado em 14/06/2026 06:14

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).

Sua cosmovisão era eclética, navegava pelo catolicismo popular da mãe, o candomblé dos amigos e o islamismo do pai. “Vapor barato” não é a única obra dele que traz a figura do mar para ilustrar um desejo de fuga, de transformação ou de simples sobrevivência. “Sargaços” tem versos fortíssimos neste sentido:

“Nascer não é antes, não é ficar a ver navios. Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar…”

Assim, “eu vou tomar aquele velho navio” fica claro. Viver é nascer para “…, remar contra a maré numa canoa furada. Somente para martelar um padrão estoico-tresloucado de desaceitar o naufrágio.”

O estoicismo clássico, o estoicismo de Waly e o novo estoicismo

A resiliência e o autocontrole próprios para enfrentar a dor e as perdas com dignidade e firmeza do estoicismo clássico, são unidos a um jeito tresloucado de ser, insistente como martelar, teimosia que beira a loucura. Isso é próprio daquela geração dos anos 1970 e 1980.

Hoje vemos o estoicismo renascer com uma nova roupagem entre pessoas de várias faixas etárias. Não é Seneca, nem Epicteto, nem Marco Aurélio, nem mesmo Waly Salomão. Os gurus dos podcasts e da autoajuda encontraram em frases soltas dos clássicos respostas para a ansiedade dos dias atuais. Apelam para o desenvolvimento pessoal de alta performance, mas criam uma armadilha perigosa: confundir a parte com o todo. Em outras palavras: Com foco na produtividade individual, os estoicos modernos abandonam o dever cívico de viver em comunidade, de ajudar uns aos outros e crescer juntos, ideias presentes nos clássicos.

O estoicismo clássico e o cristianismo

O diálogo entre o estoicismo e o cristianismo é profundo, antigo e cheio de nuances. O apóstolo Paulo debateu com filósofos estoicos no Areópago em Atenas (Atos 17) e, ao longo dos séculos, os primeiros teólogos da Igreja (como Justino, Clemente de Alexandria e Agostinho) usaram conceitos estoicos para estruturar o pensamento cristão.

A ética prática do estoicismo e a práxis cristã compartilham uma busca rigorosa pela retidão de caráter e pelo domínio próprio.

Tanto a apatia estoica (a libertação das paixões desordenadas) quanto o ascetismo cristão buscam o controle sobre os impulsos (ira, ganância, luxúria). Onde o estoico busca a quietude da mente, o cristão busca a pureza de coração e a temperança.

O conceito estoico de Logos (a Razão Universal que governa o cosmos) guarda semelhanças formais com a crença cristã na Providência Divina. A atitude estoica de aceitar o destino reflete, de certa forma, a confiança cristã de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28).

Os estoicos defendiam que todos os seres humanos partilham da mesma centelha racional, rompendo barreiras entre gregos, bárbaros, livres e escravizados (como bem demonstrou o escravizado Epicteto e o imperador Marco Aurélio). Essa visão antecipa e dialoga com a doutrina paulina de que “não há judeu nem grego, escravo nem livre… pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

Diferenças entre estoicismo e cristianismo

Porém, apesar das semelhanças éticas, as raízes teológicas e antropológicas de ambos os sistemas apontam para direções opostas.

Para o estoicismo o divino está em todo o universo, imana do cosmos, é impessoal. Já no cristianismo, Deus é transcendente e pessoal, o Pai criador que se relaciona com suas criaturas e intervém na história.

Para o estoicismo o ser humano é autossuficiente, o que contrasta diretamente com a consciência cristã da dependência total da graça de Deus e a necessidade de redenção.

O sofrimento humano para os estoicos, é um teste para fortalecer o seu caráter, enquanto para o cristão só faz sentido por causa do sofrimento de Jesus Cristo na cruz e para aprender a solidarizar-se com a dor do outro.

E por fim, os estoicos creem em ciclos de morte e renascimento eternos, enquanto o cristão sabe que “ao homem é dado morrer uma única vez e depois disso, o juízo” (Hebreus 9:27).

O teólogo e filósofo Santo Agostinho sintetizou bem essa separação na obra A Cidade de Deus. Para ele, o erro dos estoicos estava no orgulho espiritual: a ilusão de que o homem, contando apenas com suas próprias forças morais, poderia alcançar a felicidade perfeita e a imperturbabilidade em um mundo decaído.

A graça preciosa frente ao vapor barato

O estoicismo moderno não está somente nos manuais de autoajuda do ambiente corporativo e digital. Invadiu as igrejas.

Hoje, muitas igrejas focam na resiliência psicológica e otimização da vida cotidiana. Buscam a eficácia pessoal e a imunidade ao estresse.

É o que Bonhoeffer chamaria de graça barata. A graça como riqueza inesgotável da igreja, graça sem preço, sem custo. Pronta para uso, sem limite. A fatura já está paga, então basta pedir e se obterá o que se quer.

Por outro lado, a graça preciosa é a graça como templo de Deus, palavra viva que habita no discípulo de Jesus Cristo, que cura o pecador, não afaga o pecado e custou caro – a vida do Filho de Deus (1 Coríntios 6:20).

A vivência da graça preciosa é um processo lento, muitas vezes doloroso e solitário, que leva à cura definitiva de todas as angústias existenciais comuns à humanidade.

É, também, uma experiência intrinsecamente comunitária e relacional, fundamentada nas virtudes teologais (fé, esperança e, acima de tudo, o amor). Por isso, faz bem ao coração.