Facebook jornal do sertão Instagram jornal do sertão Whatsapp jornal do sertao

Pernambuco, 15 de junho de 2026

Agronegócios

Sertão Pernambucano sob ameaça climática: três grandes obras hídricas ainda esperam por decisão política

INFRAESTRUTURA HÍDRICA

Postado em 14/06/2026 15:53

Com a ameaça de um El Niño de alta intensidade no horizonte e o planeta registrando recordes consecutivos de temperatura, o Sertão de Pernambuco convive com uma contradição grave: três projetos estratégicos de infraestrutura hídrica — a Adutora do Pajeú, o Açude de Entremontes e o Canal do Sertão — permanecem inconclusos ou paralisados, mesmo diante de estimativas de custo que somam menos de 35 bilhões de reais.

“Eleger prioridades faz parte de uma boa gestão — e o Sertão não pode mais esperar.”

🌡️ O cenário climático que torna a urgência ainda maior

A ciência é clara: o planeta aquece, e os recordes de temperatura se sucedem. O fenômeno El Niño — conhecido há décadas mas compreendido com profundidade apenas recentemente — projeta sombra sobre o Nordeste brasileiro com previsões de intensificação de ciclos de seca. Não é alarme, é dado meteorológico.

É neste contexto que se insere a discussão sobre a infraestrutura hídrica do interior pernambucano. Com a aceleração das obras da Adutora do Agreste (que já alcança aproximadamente 700 quilômetros, abastecendo municípios como Buíque, Gravatá e Taquaritinga do Norte), volta ao centro do debate a chamada “segunda fase” da ampliação hídrica regional.

🚰 1. Adutora do Pajeú: 28 municípios sem garantia de abastecimento

O sistema da Adutora do Pajeú é composto por cerca de 600 quilômetros de tubulação e tem como função abastecer 20 municípios do Sertão do Pajeú, em Pernambuco, e mais 8 municípios do estado da Paraíba. Um projeto de alta relevância social — mas que, na prática, opera com eficácia comprometida.

O projeto original, concebido durante o governo Roberto Magalhães, foi dimensionado para atender exclusivamente a Serra Talhada. Ao longo do tempo, outros municípios foram incorporados ao sistema sem a devida ampliação da capacidade de adução. O resultado é crônico e notório: a Compesa é o órgão mais reclamado nas rádios de Serra Talhada, e nos bairros mais humildes a situação chega a ser crítica — moradores relatam passar até duas semanas sem água nas torneiras, mesmo pagando os boletos em dia.

“Há obras em andamento nos sistemas de bombeamento, mas a demanda real exige mais: o volume de água transportado precisaria ser dobrado para atender ao crescimento demográfico projetado pelas próximas duas décadas.”

Esse ponto é especialmente relevante com a privatização da Compesa em curso: as exigências de ampliação da capacidade hídrica devem constar expressamente nas cláusulas contratuais do processo de concessão — caso contrário, o serviço deficiente será transferido ao setor privado sem a devida obrigação de melhoria.

💧 2. Açude de Entremontes: obra estruturante que pereniza o Rio Brígida

O Açude de Entremontes, localizado em Parnamirim (PE), é uma obra de perenização da bacia do Rio Brígida. Seu impacto é regional: além de Parnamirim, beneficiaria municípios como Salgueiro, Terra Nova, Serrita, Ouricuri, Granito, Exu, Moreilândia e Orocó — uma faixa expressiva do oeste e do sul de Pernambuco.

Apesar das negociações para incluí-lo no Novo PAC, o projeto ainda não saiu do papel por um custo estimado de 2 bilhões de reais. Os recursos inscritos no Orçamento Geral da União (OGU) são insuficientes para concluir sequer os projetos técnicos. A participação financeira do Estado e dos municípios envolvidos permanece incerta.

Dois bilhões de reais para perenizar uma bacia inteira e garantir água a quase uma dezena de municípios no semiárido. Para efeito de comparação, o governo federal reservou 80 bilhões de reais para a renegociação e dispensa de dívidas do agronegócio.

🌾 3. Canal do Sertão Pernambucano: 70 mil empregos à espera de um milagre

Este é, talvez, o projeto com maior potencial de transformação econômica do interior pernambucano. O Canal do Sertão Pernambucano está na mesa de negociações com o governo federal desde o segundo mandato de Jarbas Vasconcelos (2003-2006) — e segue à espera de viabilização.

O projeto prevê a irrigação de 35.000 hectares ao longo de uma faixa que vai do extremo oeste de Petrolina até Araripina, no Sertão do Araripe. Considerando que cada hectare irrigado demanda, em média, pelo menos dois trabalhadores para a maioria das culturas, o Canal do Sertão teria potencial de gerar 70.000 postos de trabalho diretos apenas na produção agrícola.

O impacto se multiplicaria com a consolidação dos acordos comerciais entre o Brasil e a Europa, e a crescente demanda asiática — especialmente de China, Japão e Coreia — por frutas tropicais. A região já tem histórico comprovado na produção de uva, acerola e goiaba, e poderia ampliar significativamente sua área cultivada sem entrar em conflito com o polo já consolidado de Petrolina-Juazeiro.

A ovinocultura, que representou avanços reais nas últimas décadas, continuaria como atividade complementar. Mas o Canal do Sertão mudaria completamente a perspectiva econômica do Sertão do São Francisco e do Sertão do Araripe.

💰 De onde viriam os recursos?

O custo estimado dos três projetos combinados não ultrapassaria 35 bilhões de reais. Desse total, os projetos de execução mais imediata — a modernização da Adutora do Pajeú e o ramal do Açude de Entremontes — somam menos de 3 bilhões. Os 30 bilhões restantes, estimados para o Canal do Sertão, seriam distribuídos ao longo de cinco a dez anos.

Para contextualizar: as emendas impositivas da bancada federal e estadual de Pernambuco somam 1,8 bilhão de reais por ano. O governo federal destinou 80 bilhões ao agronegócio em um único pacote de renegociação de dívidas. A questão, portanto, não é a falta de recursos — é a falta de prioridade.

“O PISF (Projeto de Integração do Rio São Francisco) foi um acerto histórico. Mas a infraestrutura hídrica do Sertão não pode depender de uma obra a cada geração.”

📊 Em números

Projeto Dado-chave
Adutora do Pajeú 600 km · 28 municípios (PE + PB)
Açude de Entremontes Custo estimado: R$ 2 bilhões · 9 municípios
Canal do Sertão 35.000 ha irrigados · 70.000 empregos diretos · R$ 30 bi
Total dos 3 projetos Menos de R$ 35 bilhões

 

Com informação: Geraldo Eugênio Professor Titular da UFRPE-UAST · Serra Talhada (PE)

Coluna publicada em 11 de junho de 2026