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Pernambuco, 02 de julho de 2026

Agronegócios

Recuperação da infraestrutura hídrica, começando pelas cisternas

A qualidade e o custo da água potável

Postado em 02/07/2026 15:41

Colunista

 

Por décadas, a principal fonte de suprimento das vilas, distritos e pequenas fazendas isoladas no semiárido foram abastecidas por carros-pipa. Esta fonte de abastecimento está sujeita a situações de excepcionalidade de ordem operacional, política, educacional e, principalmente, quanto à qualidade da água que chega aos potes, baldes e cisternas.

Quanto à operacionalidade, nem sempre os locais são acessíveis e contam com alguma fonte em uma distância razoável. O fato de se contar com a água não significa que esta seja minimamente potável. Na maioria dos casos, é compartilhada com os animais e serve para outros fins, como lavagem de roupa e, em alguns casos, alguns habitantes do local a usam para lavar seus carros e motos. Considerando que esta não seja uma limitação, ainda ocorre com frequência a discriminação por parte dos agentes que gerem o cadastramento, dando preferência àqueles que votam nos incumbentes, principalmente os prefeitos e vereadores.

Um ponto aparentemente claro, mas que deve ser levado em consideração, é a educação para o uso da água potável. Também neste caso não são poucos os usuários que consomem a pouca reserva em fins que poderiam ser atendidos com uma água mais salobra, como a lavagem de louças, panelas e roupas. Há de se comentar o programa de um milhão de cisternas. Mas não se pode deixar de chamar a atenção para o fato de que milhares dessas estruturas encontram-se danificadas ou sem contar com a calha, que provavelmente foi usada para outros fins ou até vendida. Quanto ao comércio, não é possível a venda de acumuladores de alvenaria, mas os tanques de plástico que foram adotados em substituição às cisternas de placas têm sido comercializados em todos os locais por onde se passa.

O abastecimento difuso

Levar água potável a uma cidade ou a um distrito em tempos de seca não é fácil, mas, considerando que milhões de brasileiros vivem em pequenas fazendas ou aglomerados com menos de dez residências, programar e executar o abastecimento de forma sistemática não tem sido fácil. O que mudou fundamentalmente nos últimos dez anos foi a acessibilidade à energia solar, que permite que o sistema de bombeamento possa ser instalado em qualquer ponto da propriedade onde a água for localizada. Além do mais, destaca-se o aperfeiçoamento dos sistemas simplificados de dessalinização, permitindo contar com unidades que operam volumes relativamente pequenos e que atendem folgadamente à demanda de uma ou poucas famílias, contando com os plantéis que formam a principal base produtiva para os habitantes do semiárido que vivem em regiões dependentes de chuvas. A acessibilidade a essas tecnologias facilitará a convivência com as próximas secas, garantindo o suprimento de água potável para as pequenas e médias propriedades, em particular.

A dependência dos carros pipas

E quanto ao nosso velho conhecido carro-pipa, qual será seu futuro. Provavelmente ele continuará sendo usado em situações de extrema emergência, mas não se constituirá mais na principal política pública, aplaudida por governadores, prefeitos, vereadores e líderes locais, como fonte de poder e controle. Ele é a maior expressão da dependência e do coronelismo, não para de se modernizar, tentando, mesmo com todos os avanços obtidos, permanecer como fonte de enriquecimento e domínio.

O programa de cisternas

Neste contexto, não poderíamos chamar a atenção para o Programa Um Milhão de Cisternas, que teve seu auge no governo da presidente Dilma Rousseff e foi fonte de análises duras e críticas por gente que considerava algo dispensável e simplório. Dilma, em uma de suas visitas ao Nordeste, declarou sua alegria em ver milhares de pontos brancos ao lado de casas no meio rural e quão importante aquela iniciativa contribuía para o bem-estar do povo. Literalmente enfrentou uma bateria de críticos que consideravam aquilo como algo deslocado do século XXI. Este mesmo raciocínio se viu três décadas antes de seu governo quando Pernambuco adotou o programa Luz para todos, deixando claro que mesmo com energia monofásica, todas os lares deveriam contar com uma fonte que fizesse funcionar um refrigerador, uma televisão, a iluminação noturna ou uma forrageira.

Provavelmente poucos programas deixaram tanto impacto na vida das pessoas mais simples quanto o Luz para Todos ou o de um milhão de cisternas. São iniciativas dificilmente compreendidas para quem está acostumado com o chuveiro elétrico, o condicionador de ar, o sistema de refrigeração de suas empresas, o acesso à internet ou a água adquirida em botijões plásticos, mesmo que nem sempre apresente qualidade superior à fornecida pelas empresas de água e saneamento. O fato é que, contando-se com uma cisterna de dezesseis ou cinquenta mil litros, uma fonte de água, um sistema de geração de energia e dessalinização, a família estará apta a enfrentar um período de seca de modo menos traumático, comparado aos períodos secos anteriores.

 

Iniciativas simples, mas de extrema efetividade.

O risco de o Semiárido se deparar com uma seca forte a partir de janeiro, ao que parece, é alto, embora, antes que os efeitos do El Niño batam à porta do nordestino, chuvas torrenciais possam ocorrer no centro e sul do país, provocando danos e destruição, a exemplo do que ocorreu no estado do Rio Grande do Sul, em 2024. Uma vez que há uma luz vermelha à frente, os poucos meses que restam serão suficientes para fazer com que programas como o de cisternas, a conclusão das subunidades do PISF – Programa de Integração da bacia do São Francisco, popularmente conhecido como a Transposição do São Francisco, e os milhares de quilômetros de adutoras estejam funcionando em plena capacidade, de modo que, mesmo no período mais crítico, consiga-se atender à demanda de água para a população humana e animal.

Grandes obras sempre serão necessárias, embora focar em manter preservado e funcional o que foi feito seja uma condição essencial para se retirar o Nordeste do mapa da sede, se é que ele existe.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST