Esses dias, conversando com uma paciente, eu disse que o processo de análise pode ser visto como a patinação artística no gelo em dupla.
Ela acordou um dia e simplesmente não conseguiu levantar. Não era preguiça. Não era tristeza, pelo menos não do tipo que se reconhece. Era uma
A busca pelo diagnóstico, muitas vezes, é essa fome com outro nome. Não é fraqueza. É uma resposta criativa a uma necessidade real que não foi atendida.
Não se trata de condenar a tecnologia. Trata-se de perceber que, quando não conseguimos mais suportar dois minutos de fila sem pegar o celular (quando a espera virou ameaça e o silêncio, tortura), algo do nosso mundo interno está pedindo atençã
Em termos contemporâneos, cura é a ampliação da liberdade interna, ou seja, desejar sem tanto medo, relacionar-se sem repetir automaticamente os padrões mais dolorosos, habitar a própria experiência de forma mais plena.
Existe um tipo de cansaço que não aparece nos exames. Não tem febre, não tem inflamação, não tem nome clínico imediato
O corpo parado, muitas vezes, é a expressão mais honesta de um psiquismo que não encontra saídas — e forçar o movimento sem escutar esse psiquismo pode, na pior das hipóteses, ser cruel.
Entre a urgência do mundo e o tempo do sujeito: a ansiedade como sinal, não como falha.
O silêncio, portanto, não é ausência de linguagem; é uma linguagem em si. O problema é que, sem palavras, essa linguagem tende a falar apenas de sofrimento.
A ciência da religião, desde Mircea Eliade, nos ajuda a compreender que esses rituais persistem porque atualizam o illud tempus (o tempo sagrado da origem) tornando o passado fundante novamente presente e eficaz
O sujeito se vê preso a narrativas internas que reforçam dor, culpa ou desamparo. Pensar, nesses casos, deixa de ser movimento criativo e se torna prisão silenciosa.
Você já pegou o celular sem saber bem por quê? Abriu o Instagram, rolou a tela por alguns minutos (ou talvez por uma hora), sentindo uma mistura estranha de entorpecimento e inquietação? Saiba que não é fraqueza de caráter. É biologia, é psicologia e é, sobretudo, um projeto cuidadosamente desenhado para que você não consiga parar.
A fofoca tem má fama. Associamos o hábito à superficialidade, à maldade miúda, ao tempo perdido. Mas talvez essa condenação seja apressada demais
O verdadeiro recomeço, afinal, não está na lista de metas, mas na coragem de abandonar o ideal que nos exaure e de nos aproximar, finalmente, do que nos torna inteiros.
Algo não se completa. A psicanálise ajuda a compreender esse mal-estar ao mostrar que o vazio que se tenta preencher com objetos não é um erro da vida moderna, mas uma condição estrutural da experiência humana.
O Natal tem uma capacidade singular de despertar afetos que não pertencem apenas ao presente. Basta um cheiro, uma música ou um gesto familiar para que emoções antigas retornem com força. Isso acontece porque nossa vida psíquica guarda traços que não seguem o tempo do calendário; certas experiências infantis permanecem ativas e são facilmente reativadas quando a atmosfera natalina se aproxima. Por isso tantos se surpreendem com uma alegria intensa ou, ao contrário, com uma tristeza que não sabem explicar: são ecos de uma história emocional profunda.
As redes prometem pertencimento, mas muitas vezes entregam comparação. O sujeito passa a medir seu valor pelo número de curtidas, visualizações ou comentários
Lacan acrescenta uma camada fundamental ao distinguir entre desejo e demanda. Quando o mercado nos oferece infinitas opções, ele responde a uma demanda — a solicitação de objetos que supostamente preencheriam nossas faltas. Mas o desejo opera em outro registro: ele não se satisfaz com objetos concretos, pois sua estrutura é constitutivamente deslizante
Em Luto e Melancolia, Freud diferencia o luto da melancolia. No luto, o sujeito reconhece a perda e, pouco a pouco, se reconcilia com a realidade. Na melancolia, a perda é negada, e a dor se volta contra o próprio eu. Em vez de dizer “perdi alguém”, o sujeito sente-se “perdido”. Por isso, Finados tem uma função psíquica tão importante: ele autoriza o luto, dá lugar social e tempo simbólico à dor, impedindo que ela se transforme em silêncio destrutivo. Lamentar é, paradoxalmente, um modo de preservar a vida.
A Black Friday revela algo profundo sobre a condição humana: nossa relação complexa com o desejo e a falta. Freud descobriu que somos seres constituídos pela falta — não uma deficiência, mas o motor que nos move. O marketing explora isso vendendo não objetos, mas promessas de completude.
