
Jardinagem com cores da caatinga, um novo horizonte. Por Geraldo Eugênio
A cada momento a população do Agreste e Sertão impressiona pela criatividade e persistência. Quem anda pelas estradas da região, há alguns anos, há de concordar que na grande maioria dos casos os negócios prosperaram e as comunidades cresceram.
Postado em 03/02/2022 20:00

Geraldo Eugênio Foto: Divulgação
Diversificação da renda
A cada momento a população do Agreste e Sertão impressiona pela criatividade e persistência. Quem anda pelas estradas da região, há alguns anos, há de concordar que na grande maioria dos casos os negócios prosperaram e as comunidades cresceram. De quem vai de Recife ao Oeste do estado constata que a maioria das cidades que há duas décadas quase se localizavam inteiramente no lado direito da BR 232 hoje se expandiram pela margem esquerda e já contam com vários bairros novos, a exemplo de Caruaru, São Caetano, Belo Jardim, Pesqueira, Arcoverde, Salgueiro.
Um outro caso interessante é o de Vitória do Santo Antão, que devido a duplicação dessa rodovia, expandiu-se ao encontro da estrada com a aérea urbana sufocando Natuba, a mais importante área de hortaliças folhosas do estado até algum tempo.
Em qualquer caso, particularmente nas cidades do Agreste e Sertão, apesar de ainda haver um imenso débito de árvores nas avenidas e praças, há um maior zelo e quer seja por esforço da administração municipal ou por iniciativa da população, valorizar o verde tornou-se uma política consistente. Quem tinha quer preservar, quem não, quer tê-lo.
Com isto a flora da caatinga se viu valorizada e não é à toa que são dezenas de botecos informais ou lojas mais estruturadas que se encontra pondo a venda mudas de cactos, abacaxis ornamentais e outras bromélias e agaves.
Este comércio representa uma opção que cresceu e a cada dia se torna mais forte e visível. Talvez ainda não tenha sido devidamente notado pelas instituições e pesquisa, ensino e inovação, mas há uma tendência clara de valorização deste nicho mercadológico.
Como era verde o meu relvado
As secas também forçaram o repensar do que seriam as praças, alamedas, parques, rodovias, os jardins e pomares dos sítios e das residências. Não é distante o tempo quando se admirava os relvados e até há uma expressão cunhada que se refere de quão mais verde é a grama do vizinho. Esta tendência não começou aqui, foi algo que ocorreu em vários países, a exemplo do estado do Arizona, Novo México e Oeste do Texas (Estados Unidos) quando pela impossibilidade de se contar com água suficiente para o gramado foi desenvolvida todo um sistema de jardins com espécies tolerantes ao déficit hídrico e temperaturas elevadas, que exigiam uma quantidade significativamente de água no cuidado das ornamentais de áreas áridas e semiáridas.
No Brasil, esta tendência também é observada e a cada momento se reconhece o valor sagrado de cada litro de água.
O mel, o doce, o picolé e as plantas
Bem, este foi o caso dos jardins, mas o mesmo ocorreu com o comércio informal de beira de estrada. Dificilmente se encontra uma loja que além de comidas também não se encontre os vasos de plantas ornamentais. Em um caso específico, em Calumbi, na BR 232, do mel se expandiu para o picolé, para a cocada e plantas ornamentais, sendo os cactos predominantes, surgindo novas opções como a planta flor do deserto e, como citado antes, os abacaxis, os ananás e outros parentes.
Quão interessante é ver que o mandacaru, o xique-xique e o facheiro passaram a ser objeto de admiração inclusive por seus espinhos. No caso do primeiro a emissão de flores lindas e de um fruto não menos bonito e saboroso faz com que não sejam poucas as fazendas que não tenham preservado ou passaram a cultivar, vale também para os jardins e pomares domésticos ou mesmo em vasos no alpendre das casas e apartamentos. As palmas forrageiras não fogem desta tendência com flores amarelas, quando abrem, das Opuntias que se tornam vermelhas após a fecundação é um espetáculo à parte.
Chegou a vez dos telados
A demanda foi crescendo e, de uma hora para outra, o que se vê são vários telados construídos exclusivamente para a adaptação de mudas e alguns desses dedicados exclusivamente aos cactos. Agricultores do milho, do feijão, da mandioca, pastores e vaqueiros também se tornaram especialistas em jardinagem.
A tendência é o crescimento do mercado de mudas da caatinga não apenas nas cidades do interior do estado, mas entre toda a comunidade do semiárido conquistando, cada vez mais, o mercado de ornamentais do Centro-Sul.
O alerta aqui é de como as disciplinas de plantas ornamentais e jardinagem das universidades, escolas de nível nédio e superior vejam o que está ocorrendo e aproveitem para adaptar seus currículos e conteúdo de suas disciplinas. É bom lembrar que há vinte anos o mercado de trabalho para veterinários e zootecnistas era basicamente voltado para o boi e o cavalo. Não é o caso de hoje. A medicina veterinária, particularmente, encampou a demanda crescente por animais de estimação, os pets, e o número de profissionais envolvidos neste mercado talvez ultrapasse a pecuária clássica.
Que se anda com os olhos bem abertos e não se deixe a oportunidade passar. Talvez ela siga outro caminho e já não volte a nossa porta.