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Pernambuco, 17 de junho de 2026

Agronegócios

Uma corrida silenciosa pela carne Por Geraldo Eugênio

A conquista do Sertão se deu pelos leitos dos rios. Subiam aqueles que por alguma razão não podiam ficar na Mata, não se davam bem como massapé, mas gostavam dos bichos.

Postado em 24/02/2022 20:40

Colunista

Volta às origens

A conquista do Sertão se deu pelos leitos dos rios. Subiam aqueles que por alguma razão não podiam ficar na Mata, não se davam bem como massapé, mas gostavam dos bichos. Antes de continuar é importante lembrar que a expulsão dos holandeses foi o primeiro grande programa de perdão de dívidas. Extinto o credor, desaparecia o débito.

Enquanto os engenhos continuavam produzindo açúcar, o Agreste e Sertão se especializava no gado para a tração animal e para a carne. E o deslocamento desta população branca de origem portuguesa, batava e judia e de negros que fugiram da escravidão, saltaram a Borborema e alcançaram o do estado.

Durante alguns séculos as grifes do Sertão eram a carne de charque e a pele. Não é ao acaso que se cunhou a expressão civilização do couro. Quase todos os utensílios e móveis dentro de uma humilde residência do vaqueiro ou do fazendeiro eram feitos à base de madeira da caatinga e da pele curtida.

Um novo animal

O gado que se deslocou era de origem portuguesa, boa parte vinda da Ilha da Madeira. Tinha um porte pequeno e jamais seria o padrão do gado de corte. Muito tarde, já no século XIX e início do século XX, fazendeiros brasileiros de Minas Gerais e São Paulo descobriram o gado indiano (Bos indicus). Foi a partir daí que se deu a introdução de gado como o Nelore, o Guzerá, o Sindhi, o Gir, o Indubrasil e hoje um grande conjunto de raças derivadas seja para a pecuária de leite ou de corte.

Animal adaptado ao calor e a uma alimentação mais rústica, que suporte uma maior carga de parasitas, sejam internos ou externos. Em se tratando da produção de carne, o gado Nelore tomou a dianteira e não é à toa que aproximadamente 90 do bife que chega à mesa do brasileiro é de gado Nelore ou de cruzamentos entre essa raça e tantas outras de origem tropical.

Dá para produzir no semiárido?

Durante algum tempo a produção de carne no semiárido foi um tabu. Aqui não vale o oeste da Bahia, que é um Cerrado ou os brejos de altitude. É tão verdade que o estado de Pernambuco importa a maior parte da carne que consome. Nos últimos três anos tem havido um movimento inverso. Na Zona da Mata, não foram poucos os engenhos que mudaram de cana-de-açúcar para o boi e, mais recentemente, em resposta ao preço crescente da carne, não foram poucos os produtores do Agreste e Sertão que permutaram a produção de leite e lácteos por gado de corte. Os planteis ainda são mistos, mas se nota uma tendência forte à nelorização do gado dos ambientes áridos e semiáridos. O preço se mante aquecido e neste último final de semana, na Feira de animais de Serra Talhada, que me foi apresentada pelo amigo Kleber, da Natal, um bezerro com idade de quatro a seis meses, dificilmente seria adquirido por valores inferiores a três mil reais ou um equivalente a nove arrobas de um novilho pronto para abate.

A integração lavoura, pecuária, floresta soa como uma bela resposta

O caráter de risco permanente do semiárido dependente de chuvas não foi embora. As secas continuam a ocorrer com mais frequência e mais intensidade. Foi o conjunto de algumas políticas públicas, como o crédito, mas em especial os avanços tecnológicos na produção de alimento animal na propriedade que fizeram com que a pecuária de leite e de corte continuem como opção ao sertanejo.

Nos Cerrados, a grande revolução repousa na utilização em uma mesma área de milho ou soja, uma forrageira, principalmente o capim Brachiaria e o Eucalipto ou outra espécie arbórea. Resta desenvolver algo similar para o semiárido.

A mais emblemática tecnologia para áreas secas é o cultivo adensado da palma forrageira. Espécie que antes da metade da década de noventa era confinada ao Agreste e que, com a adoção do plantio adensado espalhou-se por todo o Nordeste, alcançando o Norte de Minas e do Espírito Santo e até o estado de Goiás. Tratou-se de como esta tecnologia foi adotada e do fato de que sus disseminação em Pernambuco e Alagoas muito se deve ao esforço do ex-deputado Ricardo Fiúza e do governador Arraes que acreditou nele e das primeiras cinco unidades demonstrativas instaladas pelo IPA em Caruaru, São Bento do Uma, Arcoverde, Sertânia e Serra Talhada.

Há um desafio para se complementar à maravilha que é a palma-forrageira. Um capim que suporte cinco anos de seca contínua e que apresente capacidade de rebrotar quando do retorno das chuvas. Esta deve ser a busca mais almejada pelos programas de pesquisa em curso nas instituições de pesquisa, públicas e privadas, pela academia e pela iniciativa privada. Deve demorar um pouco mas há de se chegar lá e assim trazer uma maior dose de confiança ao pecuarista sertanejo.