Home / Ciência e Tecnologia / Agronegócios / Aproveitamento das águas do Sertão do Pajeú | Por Geraldo Eugênio

Aproveitamento das águas do Sertão do Pajeú | Por Geraldo Eugênio

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UAST

Uma versão destoante

O Sertão de Euclydes da Cunha, diga-se, Araripe, Central, Pajeú, está no imaginário popular como a região seca que ao passar as chuvas tudo fenece, torna-se cinza e não há o que resista abaixo do sol. Em parte, esta versão está correta. Afinal nem é sempre, como foi o caso de 2021 ultrapassar ileso os meses de setembro a dezembro. No último período seco, a caatinga se manteve verde durante quase todo o tempo.

Ao se passar os olhos pelo histórico das chuvas em qualquer instituição que se chegue, o que se vê é uma média anual acima de 600 ml, repetindo-se, 600 litros por metro quadrado de território, o que, convenhamos, não é nada desprezível. Que o diga um habitante de outras regiões secas a exemplo do Atacama, do Planalto do Decan, na Índia, ou nas regiões centrais da China e da Austrália. Aqui também entre o norte do México e Sudoeste dos Estados Unidos.

Grande volume de águas superficiais

No caso de Serra Talhada, o contraste salta aos olhos. Seus espelhos superficiais de água são invejáveis. O município dispõe de açudes do porte do Saco e da Borborema e de barragens como Jazigo, Cachoeirinha e Serrinha. Sem trazer à contabilidade 600 milímetros recebidos por toda a superfície, coberta de água ou não.

O mais interessante é que o município não se caracteriza como um polo de agricultura irrigada, o que normalmente trás atividades como o cultivo de hortaliças, de fruteiras e a pecuária de leite.

O desafio é que o município se proponha a ser de fato um grande produtor agrícola e se insira no agronegócio regional. A presença do governo sempre será bem-vindo e ajudará a dinâmica dessa ação, entretanto, a proposição vai além. Neste barco o primeiro ter seu acento é o empresário rural, aquele que faz o comércio, as instituições de pesquisa, ensino e extensão rural, os agentes de fomento e promoção do desenvolvimento, as representações de trabalhadores e agricultores.

Até o presente quase todos esses entes fazem de conta que a questão não é sua. As ações em prol de um desenvolvimento acelerado do campo são tangenciais e, centradas em ganhos incrementais, de passo a passo.

A proposta que se concebe tem um viés um tanto diferente. Subir a escada de degrau a degrau funciona quando a altura não é grande e para crianças. Ao ficarmos mais usados, as dores e desconfortos se avolumam e já não dá para se pensar em ascender aqueles cinco andares que se fazia em plena correria e algazarra quando da juventude. Não sendo assim, que se passe para um modelo um pouco diferente e que tente implementar mudanças mais abruptas, mesmo com os riscos presentes, mas que traga um cenário em que as pessoas deixei de considerar que quem serão beneficiados pelas mudanças sejam os filhos e netos.

O aproveitamento das águas superficiais e das áreas mais nobres em cada propriedade do semiárido é de uma importância fundamental. Provavelmente não se contará com grandes áreas sendo exploradas em um mesmo imóvel, contudo, a soma de dezenas e centenas de áreas menores também resultará em uma produção em escala e que despertará a força de um comércio mais consistente dentro e fora da região. Este é o exemplo de Mirandiba e São José do Belmonte.

 Não esqueçam dos aquíferos

Aqui não se mencionou o potencial do grande aquífero sertanejo que se estende de Belmonte à Betânia, passando por Mirandiba, Serra Talhada e Carnaubeira da Penha. Uma história a ser tratada em outra oportunidade e que haverá de merecer toda a atenção na próxima década. Joguem-se dentro do vagão ou esperem para ver o comboio passando.

É bem sabido que onde tem água, se tem tudo e nas áreas do imóvel desprovidas de reservas superficiais ou subterrâneas. Essas estão sendo inundadas por raios solares ou rajadas consistentes de ventos que fazem delas verdadeiras usinas implantadas com a precisão de um ser superior em pleno Semiárido.

Restando aí duas opções no mínimo interessantes: utilizar a água e os solos que forem passíveis de irrigação e produzir energia para uso próprio ou comercial nas demais áreas. De uma coisa fique certo. Não há como se falar em apagão no Nordeste semiárido nas próximas décadas.

Já não há espaço para obras gigantes

E o que se faz pensar nesta lógica, aparentemente tão simples e até então tão pouco acionada. Em primeiro lugar o fato de que apesar de ainda haver milhares de hectares a serem aproveitados na Bacia do São Francisco e tributários, entre esses, o Rio Pajeú, as manchas de solos próprias à irrigação são limitadas, não havendo espaço para planos mirabolantes e perímetros de irrigação ao estilo clássico, a exemplo do que temos no submédio São Francisco.Centenas e milhares de baixios e áreas com um relevo menos aciden

tado serão aproveitados, cultivos dirigidos ao comércio serão ainda mais recomendados, os supermercados, abatedouros, as feiras, os hortifrutis ficarão gratos e, mais ainda os consumidores. Os restaurantes, colégios, albergues, quartéis terão um suprimento de frutas e hortaliças frescas e as feiras também não serão as mesmas.

Vale a pena tentar. Este será o desafio da próxima década. Esperamos todos.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *