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Pernambuco, 17 de junho de 2026

Agronegócios

O Ceará tem muito o que mostrar de positivo

Três décadas de mudanças.

Postado em 29/06/2025 10:52

O estado do Ceará se caracteriza por ter um semiárido que beija o mar. Proporcionalmente, é a unidade da federação com o maior percentual de áreas secas. Durante muito tempo, o livro O Quinze, de Rachel de Queiroz, simbolizava a face do interior quando da ocorrência das secas. Foram décadas nesta pisada até que, desde 1987, quando se iniciou o primeiro mandato do governador Tasso Jereissati, ocorreu uma mudança visível e hoje é um dos estados com uma das economias mais dinâmicas do país.

No caso da agricultura, a mudança pode ser considerada radical. Um estado que não conta com nenhum rio perene ou está longe das bacias hidrográficas dos principais rios do Nordeste, conseguiu colocar em prática uma política de recursos hídricos consistente e duradoura que permite falar que é um dos estados do Nordeste com maior segurança hídrica para sua população. Além do mais, se fortaleceu na produção de várias culturas irrigadas, a exemplo das flores, da banana e do melão.

Em se tratando da pecuária, há vinte anos há um crescimento estável de sua pecuária de leite, passando a ser um dos principais produtores do Nordeste. Hoje, a empresa Alvoar, resultante da fusão da Betânia, do Ceará, e da Embaré, de Minas Gerais, constitui-se no quinto maior laticínio do país.

A iniciativa privada toma a iniciativa.

Um aspecto a ser louvado no crescente desempenho do setor agropecuário é a presença da iniciativa privada. O empresário cearense sabe tratar o poder público, pedir, exigir e negociar muito bem com o ente público, entretanto, caso não haja investidores que se interessem e acreditem no que faz, não há como se montar um movimento que privilegia a produção tecnificada, fortalecendo o cooperativismo e os arranjos produtivos, agregando o esforço da produção, do beneficiamento e da comercialização.

A prova do que aqui se apresenta é uma iniciativa, a Coalizão Agro, que entre as diversas frentes, gere o evento Água Innovation, cuja versão 2025 ocorreu entre os dias 22 e 23 de maio de 2025 na cidade de Limoeiro do Norte, no vale do Jaguaribe. O encontro elegeu três cadeias produtivas a serem debatidas: a pecuária leiteira, a carcinicultura e a bananicultura. Chamando a atenção para o fato de esse evento encontrar-se em sua oitava edição. As sete primeiras foram realizadas em Fortaleza e a última, no interior do estado. O que ficou claramente constatado é que, ao se pretender discutir agricultura e pecuária, que se faça próximo de onde estão os produtores e a indústria cooperada. Nas capitais encontram-se as lideranças políticas, empresariais e técnicas, entretanto a discussão não prospera pelo fato de, na maioria dos casos, essas pessoas não estarem envolvidas com o mundo produtivo. Podem até representar alguma instituição ou segmento, mas em poucos casos podem falar pelo produtor com o devido domínio de conhecimento.

O que se viu foi, na quinta-feira à tarde, o auditório do IFCE de Limoeiro não comportar um público de trezentas pessoas interessadas. Lembrando que entre este público contavam-se aos dedos os estudantes do próprio instituto, indicando a participação efetiva de produtores e técnicos. Na sexta-feira, quando se deu o encerramento ao redor de 18:00 h, o público continuava animado e ávido por informações e pela construção de parcerias. Dentre os assuntos tratados, discutidos e planejados, destacam-se:

A produção de camarão no interior.

A carcinicultura continua como um componente forte da economia nordestina, destacando-se a faixa litorânea que se inicia no Ceará e alcança o estado de Sergipe. Há cerca de dez anos, com a ocorrência de uma doença conhecida como mancha-branca, a produção de camarão foi quase dizimada. Houve um grande esforço em acompanhar como a virose afetou áreas produtivas na América do Sul e Ásia, adotar práticas saudáveis e, simultaneamente, a obtenção de raças mais tolerantes ou resistentes à doença do camarão marinho ou da pata branca, cujo nome científico é Litopenaeus vannamei, uma espécie que tem origem no Pacífico, mas que atualmente é cultivada em todos os continentes.

No caso específico do melhoramento genético, é importante informar que reside em João Pessoa, Paraíba, um dos mais renomados melhoristas de camarão em todo o mundo, o Dr. João Luiz Rocha. Um cidadão português com vivência na África e nos Estados Unidos, onde estudou genética de espécies animais, com uma base de conhecimento louvável que pode contribuir com a formatação de um programa específico para o camarão na região semiárida do Brasil.

Uma sugestão tirada do Água Innovation 2025 foi o estabelecimento de um programa de melhoramento dirigido à produção em águas do interior que se caracteriza por aspectos distintos da água litorânea.

As empresas do Nordeste têm conseguido não apenas sobreviver às crises, mas também crescer ao longo dos anos, tendo como foco a exploração de um mercado grande, mas que ainda consome muito pouco camarão, como os demais crustáceos e peixes.

A retomada dos perímetros irrigados.

Em várias ocasiões tive a oportunidade de ouvir o testemunho de um empresário pernambucano que foi atraído para os perímetros irrigados do Ceará com a promessa de se contar com água suficiente para suas plantações. No caso específico do perímetro de Russas, a principal cultura a ser explorada foi a banana. Veio o ciclo de seca que se estendeu de 2012 a 2018 e, com ele, a opção por usar o que se contava de água acumulada ou disponível para a população urbana, o que resultou no completo abandono de grandes áreas produtivas sem que os agricultores fossem ressarcidos. A situação hoje é diferente. Avançou-se com a construção de adutoras e canais, bem como o volume acumulado nos açudes cearenses. O fato é que, com a adoção de sistemas mais eficientes de uso de água e tecnologia de produção avançada, o estado do Ceará não deverá passar por situações vexaminosas tal qual observadas até pouco tempo atrás.

A partir do que se observa no estado vizinho, os produtores de Pernambuco podem acompanhar e tomar a iniciativa de incentivar a produção irrigada de modo que haja uma rápida tecnificação de cultivos comerciais, abrangendo todos os elos da cadeia produtiva, destacando o mercado. Os governos são peças importantes e é importante lembrar quão positivo é para a agricultura familiar programas de repasse do governo federal como o Bolsa Família e as aposentadorias. Entretanto, chama-se a atenção para o fato de que o mercado a ser buscado vai além da feira e das pequenas lojas de frutas e hortaliças, mas os supermercados, onde ao redor de setenta por cento da comida do brasileiro é atualmente adquirida. Logo, sem que o produtor sinta a importância de seu trabalho e coloque em mente que pode prosperar, não há como se possa contar com uma agricultura moderna e dinâmica.

 

  1. Professor titular da UFRPE-UAST