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Pernambuco, 27 de maio de 2026

Agronegócios

A Agricultura Brasileira e a COP 30

Ganhos inquestionáveis.

Postado em 13/11/2025 17:28

Colunista

 

Está ocorrendo em Belém, Pará, durante a semana, a 3ª. Conferência das Partes sobre mudanças climáticas, mais conhecida como COP 30. Há de se admitir que a escolha do Brasil para sediar esta conferência trás crédito ao país e ao mesmo tempo responsabilidades. De um país reconhecido por seus esforços em controlar o desmatamento e cumprir tratados internacionais sobre controle do aquecimento global, o Brasil tornou-se um antro de negacionismo, em que o mantra passou a ser o questionamento às mudanças climáticas em curso e distanciamento de sua responsabilidade para com o futuro do planeta. O Brasil não é vilão nem tampouco diferente mas se faz necessário admitir que há muito o que avançar em termos de práticas sãs para com o clima e a vida de suas florestas e rios em todos os biomas.

Certamente a reunião deste ano não será um conclave de otimistas, pelo contrário, o mundo começa a admitir que está perdendo a guerra contra o aquecimento global e a cada ano, temperaturas maiores são registradas, bem como aumenta a frequência de desastres naturais. Desta feita, deixa-se registrado os tufões que ocorreram no estado do Paraná na semana que passou. As secas são frequentes e as chuvas diminuem em quantidade e tornam-se mais incertas não apenas na região semiárida mas em todo o país.

Dobereiner, a maior de todas

A agricultura brasileira chega a COP 30 pela porta da frente. Ela foi uma das pioneiras em deixar claro que o controle biológico de pragas é algo possível e economicamente viável haja visto o manejo dos principais insetos pragas da cana-de-açúcar, por exemplo são controlados por um fungo e uma vespa que parasitam as cigarrinhas e as larvas da broca que perfura e danifica o colmo da cana.

No campo da fertilização não há como não se louvar o trabalho titânico da Dra. Johanna Dobereiner, uma microbiologista de solo que demonstrou ser possível suprimir a adubação mineral de nitrogênio da soja e, posteriormente demonstrado, reduzir significativamente em outras espécies, inclusive na cana-de-açúcar, no milho e no arroz.

Dra. Johanna, em seu sacerdócio, a partir da Embrapa Agrobiologia, em Seropédica, no Rio de Janeiro, criou modelos e sistemas de produção das bactérias fixadoras de Nitrogênio o que permitiu reduzir o uso da ureia, por exemplo em quase dez milhões de toneladas, somente na área cultivada com soja. Sua crença e conhecimento mudou a visão original da maioria dos agrônomos que achavam que necessariamente teriam que recorrer ao uso de ureia ou sulfato de amônia para suprir as plantas de soja com este elemento essencial à produção de grãos e, particularmente ao teor proteico dos grãos.

Uma outra característica louvável da Dra. Dobereiner é de ter sido uma excepcional identificadora e formadora de talentos. De sua orientação saíram nomes como o de Mariângela Hungria, Vera Lúcia Baldani, Veronica Massena, Bob Boddey, Avílio Franco, José Ivo Baldani, Segundo Urquiaga e tantos outros cientistas que têm contribuído de modo intermitente a construção de uma agricultura tropical e sustentável. O mundo inteiro reconhece esta façanha e, por motivos que não nos cabe analisar, Dra. Johanna deixou de ser agraciada com o Prêmio Nobel da Paz, o que teria sido o correto reconhecimento aquela que mudou a face da agricultura mundial.

O manejo dos solos do Cerrado

O Brasil chega à COP 30 com exibindo dois outros troféus. A área expressiva de plantio direto, uma tecnologia desenvolvida simultaneamente em vários países. Lembro como hoje, em uma visita à Universidade da Geórgia em 1985, o Dr. William Hargrove ter-me apresentado um livro recém-editado de sua autoria sobre o tema. Aqui entre nós, não podemos deixar de citar a contribuição do Engenheiro Agrônomo John Landers e do colega e amigo Pedro de Freitas, da Embrapa Solos e confrade na Academia Brasileira de Ciência Agronômica – ABCA.

O terceiro pilar da agricultura sustentável no Brasil tem sido a integração lavoura, pecuária e floresta, destacando-se a contribuição do então Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR e de várias lideranças do setor e associação de produtores. O amigo Florindo Dalberto sabe bem do que falo. A expansão do sistema a nível nacional contou com a correta percepção do Ministério de Agricultura e Pecuária, desde o quando liderava a pasta o Ministro Roberto Rodrigues, devido a um trabalho contínuo de equipes da Embrapa, destacando-se a Embrapa Cerrados, a Embrapa Agropecuária Oeste e de dezenas de pesquisadores de vários centros de pesquisa que abraçaram não apenas a causa mas a responsabilidade de difundi-la e tornar uma das políticas públicas mais bem sucedidas no Brasil.

O que há de ser feito diferente

Há de se convir, entretanto, que há um longo caminho a ser percorrido em termos de desenvolvimento tecnológico de uma verdadeira agricultura tropical. Neste sentido, conforme já lembrado em alguns outros textos, a dependência elevada pelas importações de fertilizantes fosfatados e potássicos é algo que inquieta. Não há como não se admitir que houve uma alta dose de negligência que apenas foi devidamente percebida quando da ameaça de suspensão de fornecimento desses fertilizantes devido a guerra a Ucrânia, há quatro anos. A demora em se admitir a importância do controle integrado de pragas foi algo danoso e somente  passou  a ser reconhecido como estratégico a partir da inserção das empresas mundiais do agro no negócio dos produtos biológicos. Segue-se a reconhecida dependência do país a máquinas e equipamentos mais sofisticados e com seus sistemas operacionais desenvolvidos e patenteados no exterior e por fim o assalto quase que total das empresas multinacionais de sementes ao patrimônio genético nacional a partir da aquisição de dezenas de empresas brasileiras de melhoramento genético e comercialização de sementes.

Muitos atores vão à COP 30 com a mensagem de ufanismo que normalmente tenta externar setores do agronegócio nacional, entretanto a discussão que antecedeu e que deveria ser posta à mesa poderia ser outra, a de como se manter como um país estratégico para a segurança alimentar e a paz mundial reduzindo significativamente práticas ambientais questionáveis e a dependência que faz com que o valor da produção que é apropriado pelos agricultores brasileiros seja de ao redor de vinte por cento do valor bruto. Há de se reconhecer a necessidade por uma revisão nas agendas de pesquisa, desenvolvimento e inovação a partir de um caráter mais nacionalista e de menor grau de dependência ao agronegócio estrangeiro.