
Oniomania: o que buscamos quando compramos demais?
Essa repetição, observada por Freud como compulsão à repetição, não é característica de quem “não tem controle”, mas de quem está preso a um conflito emocional não simbolizado
Postado em 30/11/2025 18:16

Vivemos em uma época em que tudo parece estar ao alcance de um clique. Mas, para algumas pessoas, o ato de comprar vai além do prazer ou da conveniência: torna-se uma necessidade urgente, quase incontornável. A oniomania — a compulsão por compras — revela mais do que um descontrole financeiro. Ela expõe uma pergunta humana e antiga: como lidamos com aquilo que nos falta?
Para Freud, o desejo nasce justamente desse ponto de incompletude que nos acompanha desde o início da vida. Nenhum objeto — seja um sapato, um celular ou um carro — é capaz de oferecer a satisfação total que imaginamos antes da compra. Ele promete muito, entrega pouco e logo se desgasta. Na compulsão, o sujeito tenta usar o objeto para tapar um vazio interno. O problema é que isso nunca funciona por muito tempo. Por isso o ciclo se repete: tensão, compra, alívio, culpa — e, pouco depois, a ansiedade retorna exigindo uma nova compra.
Essa repetição, observada por Freud como compulsão à repetição, não é característica de quem “não tem controle”, mas de quem está preso a um conflito emocional não simbolizado. Muitas vezes, o que se tenta adquirir não é o objeto em si, mas algo que ficou faltando lá atrás: segurança, reconhecimento, valor pessoal, proteção frente ao desamparo. A compra funciona como promessa de reparo, mas logo se desfaz, pois não toca aquilo que realmente dói.
Winnicott acrescenta a esse entendimento uma perspectiva essencial. Para ele, desde cedo precisamos de objetos que nos ajudem a construir uma ponte entre nosso mundo interno e a realidade externa. Esses objetos — chamados transicionais — não são apenas brinquedos, mas tudo aquilo que permite criar, imaginar e sentir continuidade de ser. Quando essa ponte falha na infância, o adulto pode crescer buscando objetos para desempenhar artificialmente esse papel. Na oniomania, o novo item recém-adquirido parece, por alguns instantes, oferecer sensação de inteireza. Mas é uma inteireza frágil, que se desfaz logo que a novidade passa.
O que surge, então, não é um objeto transicional saudável, mas um pseudo-objeto, incapaz de nutrir a vida emocional. Em vez de ampliar a criatividade e o senso de realidade, cria dependência. Em vez de abrir espaço para o brincar e para o gesto espontâneo, reduz o sujeito a um circuito compulsivo. Winnicott diria que, nesse cenário, o espaço potencial — esse território entre fantasia e realidade onde podemos criar e simbolizar — torna-se empobrecido. E, sem esse espaço, o sujeito tenta resolver no concreto aquilo que só poderia ser elaborado internamente.
Freud e Winnicott dialogam ao mostrar que a compulsão por compras é menos sobre o consumo e mais sobre o lugar psíquico que o consumo ocupa. O sintoma aponta para uma história emocional, um modo singular de lidar com a falta e com as falhas do ambiente. Não se trata de julgar moralmente o sujeito, mas de compreender que ali existe um sofrimento que busca expressão.
Por isso, na psicanálise a pergunta fundamental não é “por que você compra tanto?”, mas “o que você está tentando comprar, de verdade?” O trabalho analítico abre espaço para que o gesto repetitivo se transforme em palavra, e para que o vazio angustiante encontre caminhos de elaboração que não dependam do cartão de crédito. A análise não ensina a proibir compras, mas a reconhecer desejos e angústias que estavam silenciosamente comandando o ato.
Ao final, tanto Freud quanto Winnicott nos lembram que a verdadeira liberdade não está em controlar o impulso de comprar, mas em perceber de onde ele nasce. Quando o sujeito encontra um ambiente onde pode simbolizar e compreender sua própria história emocional, a falta deixa de ser uma ameaça e volta a ser o que sempre foi: um motor de vida, de criação e de singularidade. É nesse ponto que o ciclo compulsivo começa a perder força — e a compra deixa de ser uma tentativa de existir para se tornar uma escolha, entre tantas outras possíveis.
Daniel Lima | Psicanalista | @daniellima.pe