
As razões do coração
Na medicina de hoje o coração é um órgão complexo, feito de músculos e rede de nervos especializados, além de septos e válvulas, dividido em quatro câmaras que recebem e bombeiam o sangue de e para todo o corpo, inclusive para ele mesmo.
Postado em 24/05/2026 06:38

Médico pediatra e professor de pediatria na UPE. Estudante de Teologia, com passagens pelo Seminário Teológico Carismático da Igreja Episcopal e, atualmente, pela Associação Memorial de Ensino Superior (AMESPE).
Um samba de 1940 veio à mente enquanto eu pensava nas razões do coração. Com letra de Marino Pinto (1916-1965), um jornalista e poeta carioca, e melodia de Zé de Zilda, a música “Aos pés da cruz” virou um clássico na voz de Orlando Silva, e depois foi regravada por João Gilberto em 1959. Em 2014 Gilberto Gil também fez uma versão belíssima dela, no disco “Gilbertos Samba” em homenagem a João Gilberto.
A letra diz assim:
“Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou
Em nome de Jesus um grande amor você jurou.
Jurou mas não cumpriu, fingiu e me enganou.
Pra mim você mentiu, pra Deus você pecou.
O coração tem razões
Que a própria razão desconhece
Faz promessas e juras
Depois esquece…”
O coração tem razões que a própria razão desconhece! Blaise Pascal em um samba! Coisa de jornalista, não é mesmo? Coisa de jornalista brasileiro, sem dúvida.
O filósofo escreveu esta frase no século XVII. Ele era matemático e teólogo e com ela reconhecia os limites da ciência e da lógica.
Para Pascal, profundo conhecedor das Escrituras Sagradas, o “coração” era a faculdade humana capaz de intuir as verdades mais profundas da vida e de Deus.
Na medicina de hoje o coração é um órgão complexo, feito de músculos e rede de nervos especializados, além de septos e válvulas, dividido em quatro câmaras que recebem e bombeiam o sangue de e para todo o corpo, inclusive para ele mesmo. É um órgão vital. Por muito tempo, o diagnóstico de morte se dava quando o coração parava de bater.
Se procurarmos na Bíblia alguma referência ao coração como órgão vital encontraremos pouca coisa, quase nada. Na Septuaginta, as palavras relacionadas à raiz “kárdia” aparecem mais de setecentas vezes, e não mais do que dez denotam aspecto anatômico ou fisiológico. Destaques para duas descrições de ferimentos fatais por flechas que atingem o coração (2 Samuel 18:14 e 2 Reis 9:24) e uma na literatura sapiencial, onde o coração que para é como uma roda que quebra (Eclesiastes 12:6).
Mesmo nos milagres de Jesus e de seus apóstolos, quando um morto revivia, nenhuma referência foi feita ao coração voltar a bater. Bastava os sinais de movimento e respiração – a vida é mais o fôlego do que a batida do coração.
No hebraico, o termo Lēb (coração) abrange a mente, a vontade e as emoções. Diferente do pensamento ocidental que separa “razão” (cérebro) de “emoção” (coração), a Bíblia entende o ser humano como uma unidade integral. Cuidar de um, inevitavelmente, é cuidar do outro.
Por outro lado, no sentido de ser o centro das decisões, da vontade e do caráter, o coração é o lugar onde o ser humano se encontra com o Criador.
Tanto no hebraico como no grego, coração, na maior parte das vezes, é o núcleo e a essência da pessoa.
Parafraseando o poeta, “aos pés da santa cruz”, o coração é novo, puro, de carne, quebrantado, sábio, obediente. Traz alegria e é remédio para a alma. Um coração assim é obra de Deus.
Mas o coração do homem que não tem fé é enganoso, doente, de pedra, endurecido, perverso, rebelde. O coração natural rejeita a ideia de Deus. Causa arritmia, e o desfecho é imprevisível.
A saúde integral começa com a disposição do coração em agir, enfrentando as limitações e circunstâncias adversas. Quem age com o coração demonstra vida corajosa.
Como está o ritmo do seu coração? Você percebe que cuidar do seu coração (órgão) é um ato de mordomia e cuidar do coração (núcleo essencial) é um ato de adoração a Deus?
O apóstolo Paulo, em Romanos 7:14-25, descreve aquela angústia que todos sentimos: o conflito entre o que sabemos ser o certo e o que acabamos fazendo. É uma “arritmia” espiritual. Essa tensão entre o “homem interior” e a fragilidade da nossa natureza mostra que a saúde do coração depende de uma entrega constante. É preciso coragem e fé. A cura para esse conflito não vem de nós mesmos, mas da graça de Deus.