
Um samba de 1940 veio à mente enquanto eu pensava nas razões do coração. Com letra de Marino Pinto (1916-1965), um jornalista e poeta carioca, e melodia de Zé de Zilda, a música “Aos pés da cruz” virou um clássico na voz de Orlando Silva, e depois foi regravada por João Gilberto em 1959. Em 2014 Gilberto Gil também fez uma versão belíssima dela, no disco “Gilbertos Samba” em homenagem a João Gilberto.
A letra diz assim:
“Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou
Em nome de Jesus um grande amor você jurou.
Jurou mas não cumpriu, fingiu e me enganou.
Pra mim você mentiu, pra Deus você pecou.
O coração tem razões
Que a própria razão desconhece
Faz promessas e juras
Depois esquece…”
O coração tem razões que a própria razão desconhece! Blaise Pascal em um samba! Coisa de jornalista, não é mesmo? Coisa de jornalista brasileiro, sem dúvida.
O filósofo escreveu esta frase no século XVII. Ele era matemático e teólogo e com ela reconhecia os limites da ciência e da lógica.
Para Pascal, profundo conhecedor das Escrituras Sagradas, o “coração” era a faculdade humana capaz de intuir as verdades mais profundas da vida e de Deus.
Um órgão vital e complexo
Na medicina de hoje o coração é um órgão complexo, feito de músculos e rede de nervos especializados, além de septos e válvulas, dividido em quatro câmaras que recebem e bombeiam o sangue de e para todo o corpo, inclusive para ele mesmo. É um órgão vital. Por muito tempo, o diagnóstico de morte se dava quando o coração parava de bater.
Se procurarmos na Bíblia alguma referência ao coração como órgão vital encontraremos pouca coisa, quase nada. Na Septuaginta, as palavras relacionadas à raiz “kárdia” aparecem mais de setecentas vezes, e não mais do que dez denotam aspecto anatômico ou fisiológico. Destaques para duas descrições de ferimentos fatais por flechas que atingem o coração (2 Samuel 18:14 e 2 Reis 9:24) e uma na literatura sapiencial, onde o coração que para é como uma roda que quebra (Eclesiastes 12:6).
Mesmo nos milagres de Jesus e de seus apóstolos, quando um morto revivia, nenhuma referência foi feita ao coração voltar a bater. Bastava os sinais de movimento e respiração – a vida é mais o fôlego do que a batida do coração.
No hebraico, o termo Lēb (coração) abrange a mente, a vontade e as emoções. Diferente do pensamento ocidental que separa “razão” (cérebro) de “emoção” (coração), a Bíblia entende o ser humano como uma unidade integral. Cuidar de um, inevitavelmente, é cuidar do outro.
O coração na Bíblia
Por outro lado, no sentido de ser o centro das decisões, da vontade e do caráter, o coração é o lugar onde o ser humano se encontra com o Criador.
Tanto no hebraico como no grego, coração, na maior parte das vezes, é o núcleo e a essência da pessoa.
Parafraseando o poeta, “aos pés da santa cruz”, o coração é novo, puro, de carne, quebrantado, sábio, obediente. Traz alegria e é remédio para a alma. Um coração assim é obra de Deus.
Mas o coração do homem que não tem fé é enganoso, doente, de pedra, endurecido, perverso, rebelde. O coração natural rejeita a ideia de Deus. Causa arritmia, e o desfecho é imprevisível.
A saúde do coração
A saúde integral começa com a disposição do coração em agir, enfrentando as limitações e circunstâncias adversas. Quem age com o coração demonstra vida corajosa.
Como está o ritmo do seu coração? Você percebe que cuidar do seu coração (órgão) é um ato de mordomia e cuidar do coração (núcleo essencial) é um ato de adoração a Deus?
O apóstolo Paulo, em Romanos 7:14-25, descreve aquela angústia que todos sentimos: o conflito entre o que sabemos ser o certo e o que acabamos fazendo. É uma “arritmia” espiritual. Essa tensão entre o “homem interior” e a fragilidade da nossa natureza mostra que a saúde do coração depende de uma entrega constante. É preciso coragem e fé. A cura para esse conflito não vem de nós mesmos, mas da graça de Deus.







