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Pernambuco, 05 de junho de 2026

Agronegócios

Super El Niño, o que esperar?

Um fenômeno que indica secas, devastações e fome

Postado em 05/06/2026 13:51

Colunista

Falar em El Niño é trazer memórias pouco agradáveis. Um fenômeno que ocorre há milhares de quilômetros do Nordeste do Brasil, mas, por sua magnitude e pelo que representa, a massa de água que forma o Oceano Pacífico tem implicações sobre o clima global. História de grandes catástrofes, redução drástica de ciclos chuvosos, baixa produção agrícola, aumento expressivo de temperatura, secamento de rios e reservatórios de água estão correlacionados a este fenômeno, em particular nas áreas orientais da América do Sul e da América do Norte. As regiões mais expostas sofrem com frequência e, normalmente, quando a temperatura das águas superficiais do oceano na costa do Peru e do Equador eleva-se um grau centígrado, ocorrem secas que se estendem a partir do Equador, passando pela América Central e atingindo o oeste americano.

Há alguns meses os institutos responsáveis pelo monitoramento do clima no planeta têm observado uma massa de água com temperaturas acima de sete graus centígrados das temperaturas normais. Ela se desloca a uma profundidade que varia entre cinquenta e duzentos metros em direção à costa oriental da América do Sul, devendo atingir o continente a partir de junho de 2026. As previsões são de que as temperaturas do oceano podem estar acima de dois graus centígrados ou ainda altas. Esses dados colocaram o mundo em alerta e o que se vê são análises corretas, mas uma bateria de sensacionalismo chegando a prever um novo apocalipse.

O Nordeste e as secas

E, para o semiárido, o que se pode reservar? Em primeiro lugar, a antecipação do fenômeno, já que, normalmente, as temperaturas mais altas da costa do Pacífico ocorrem no período natalino e, por isso, o nome El Niño, ou o Menino Jesus, atinge o Nordeste brasileiro em seu período seco. O que pode ocorrer são temperaturas mais elevadas, evaporação intensa e desconforto térmico, mas é bom lembrar que somente causará alterações marcantes na produção agrícola se o fenômeno perdurar até o final do ano, o que ainda é incerto e, para muitos, pouco provável. Por outro lado, é importante chamar a atenção para o fato de que o clima no Semiárido brasileiro não é totalmente dependente do El Niño e da La Niña, mas de fenômenos que ocorrem no Atlântico, em especial o deslocamento de massas de ar do Norte da África em direção ao Brasil.

O que não significa dizer que há exagero, mas o fato é que boa parte dos renomados institutos ainda não tem dados suficientes para prever o Super El Niño tão falado pela grande mídia e muito menos que um novo ciclo de secas no Nordeste brasileiro possa ser mais intenso do que o que ocorreu entre 2012 e 2018. Na realidade, é sempre importante estar atento de que o normal no Semiárido não são anos seguidos de precipitações bem distribuídas e acima da média normal, mas secas que podem ser distribuídas ao longo do período chuvoso, bem alcunhadas como microsecas, o que normalmente eram consideradas como veranicos. O fato é que não há ano em que parte da região não sinta a falta de chuvas no segundo semestre, com destaque durante os períodos em que não houve como acumular água ou, o que é comum entre os pecuaristas da região, não guardar a forragem para ao menos dois anos futuros, como bem chamou a atenção o empresário da Leite Bom, Stênio Galvão, ontem, 3 de junho de 2026, no programa Decisão, do jornalista Geraldo Freire, na Rádio CBN de Recife.

As secas são fenômenos previsíveis e que podem ser geridos

Traduzindo o que tem sido publicado em termos comuns, o que se espera é mais um ciclo de secas, podendo ser mais intenso do que os últimos, embora sempre interessante lembrar que em poucos momentos a região sofreu um período de sete anos com precipitações abaixo da média anual, o que normalmente me refiro como uma seca de conotação bíblica. É só reler os livros do Êxodo, Números e Deuteronômio e recordar as sete pragas que forçaram o faraó a deixar voltar à sua terra o povo judeu.

Entre nós, o fenômeno seca continua sendo tratado como algo fortuito e para o qual não se necessita planejar. Espera-se a instalação da seca para, a partir daí, se criarem os comitês de crise, de emergência ou seja lá qual for a denominação. Normalmente, o que se vê é um conjunto de dezenas de ministérios trabalhando, nem sempre conectados um com o outro; todos os governos estaduais do Nordeste, Minas e Espírito Santo com centenas de secretarias estaduais; os órgãos de monitoramento do clima a nível federal e estadual; centenas de prefeituras pressionando os governantes pelos regimes de excepcionalidade de gastos; e as reportagens, eivadas de vícios, insistindo em mostrar o Nordeste como uma terra de miséria, de pobreza e desprezo.

O fato é que, enquanto não se contar com um instituto, agência ou o que seja com o mandato específico de gerir as secas no Brasil, localizado no Semiárido, por ser a região em que é maior a ocorrência, o país estará colocando de lado a boa governança e investindo valores muito superiores ao necessário com resultados pequenos, senão irrisórios.

Os avanços são visíveis, mas são suficientes para encarar uma seca catastrófica?

Uma constatação a ser feita é que houve uma mudança significativa na região nas últimas três décadas, destacando-se os investimentos em eletrificação rural, iniciados em Pernambuco pelo governador Miguel Arraes, em seu segundo mandato, entre 1987 e 1990, ampliando-se para todo o país, seguindo-se dos programas sociais de combate à fome e à miséria, o uso intensivo da internet, a expansão da disponibilidade de água nos ambientes urbanos devido à transposição do São Francisco, a democratização do ensino médio e superior e, consequentemente, a dinamização da economia regional com elevados índices de crescimento da economia e das cidades de pequeno e médio porte.

Em se confrontando um novo período de secas, o Sertão e o Agreste de Pernambuco estarão aptos a encarar a demanda hídrica nas torneiras de milhões de lares em uma situação bem mais adequada do que há dez anos, por exemplo. Ainda há muito o que ser feito, em particular entre as comunidades rurais, mas não há razão para que a humanidade entre em um cenário de risco extremo, mesmo que ocorra um aquecimento das águas do Oceano Pacífico nos níveis especulados.

Geraldo Eugênio – Professor titular da UFRPE-UAST